
Mais de três décadas depois, a memória da Sexta-Feira Sangrenta continua a ser objecto de disputa política e emocional. A principal lição histórica desse período, é que a guerra civil angolana não produziu apenas confrontos militares. Foi o resultado extremo de uma guerra que transformou diferenças políticas em suspeitas étnicas, sofrimento em vingança e medo em perseguição.
A compreensão da chamada Sexta-Feira Sangrenta, ocorrida em Luanda nos dias 22 e 23 de Janeiro de 1993, exige uma análise que ultrapasse as leituras simplistas e as narrativas exclusivamente partidárias. Trata-se de um dos episódios mais traumáticos da história contemporânea de Angola, cuja explicação não pode ser reduzida nem à ideia de uma explosão espontânea de violência popular, nem à interpretação de que resultou de uma única decisão política ou militar. Os acontecimentos devem ser enquadrados no contexto do colapso do processo de paz iniciado em 1991, da contestação dos resultados eleitorais de 1992, do regresso à guerra civil e da acumulação de ressentimentos, medos e narrativas de violência provenientes de diferentes regiões do país.
Para compreender a dimensão dos acontecimentos em Luanda, é necessário olhar primeiro para o que ocorria fora da capital. Após os Acordos de Bicesse e a abertura política que conduziu às eleições de 1992, milhares de angolanos acreditaram que a guerra tinha terminado definitivamente. Muitos deslocaram-se para as regiões diamantíferas das Lundas, especialmente Cafunfo, Luzamba e outras localidades então sob influência ou controlo da UNITA. Entre esses cidadãos encontravam-se comerciantes, ex-militares desmobilizados, funcionários públicos, pequenos empresários e jovens que procuravam oportunidades económicas num dos poucos sectores que ofereciam perspectivas de enriquecimento rápido.
O reinício da guerra alterou, radicalmente, essa realidade. As populações que se encontravam nas zonas diamantíferas ficaram isoladas em territórios controlados pela UNITA. Diversos testemunhos recolhidos ao longo dos anos relatam perseguições, desaparecimentos e execuções de pessoas identificadas como ligadas ao MPLA, ou simplesmente oriundas de áreas sob controlo governamental. Muitos desses indivíduos nunca regressaram às suas famílias. Em numerosos bairros de Luanda, persistem até hoje memórias de parentes desaparecidos nas Lundas, durante esse período, sem que os seus corpos tenham sido encontrados ou lhes tenha sido possível receber sepultura digna.
Os relatos provenientes dessas regiões, descrevem igualmente a participação de redes de garimpo compostas por nacionais e estrangeiros, incluindo um número significativo de congoleses, oriundos do então Zaire. A economia diamantífera controlada pela UNITA dependia amplamente da participação desses trabalhadores, que desempenhavam funções diversas na exploração, transporte e comercialização dos diamantes.
Em alguns testemunhos, certos grupos de garimpeiros estrangeiros aparecem associados à identificação de pessoas consideradas próximas do governo ou do MPLA. Embora seja necessário cautela na avaliação dessas fontes, é inegável que a economia dos diamantes desempenhou um papel central no esforço de guerra da UNITA e na dinâmica de violência existente nas regiões sob seu controlo.
Paralelamente, também no Soyo e noutras áreas do norte de Angola, ocorreram confrontos violentos e episódios de perseguição que alimentaram sentimentos de revolta entre sectores da população alinhados com o governo. Sobreviventes dessas regiões regressavam frequentemente a Luanda, por percursos longos e perigosos, passando pelo Zaire, por Cabinda e por outras rotas alternativas. Ao chegarem à capital, traziam consigo relatos de massacres, desaparecimentos e atrocidades que rapidamente se difundiam através das famílias, dos bairros e das redes sociais informais da época.
É neste ponto que a análise da Sexta-Feira Sangrenta exige uma compreensão mais ampla da psicologia colectiva da guerra. As notícias provenientes das Lundas, do Soyo e de outras zonas de combate, não permaneceram apenas como relatos de sofrimento individual. Elas passaram a integrar uma narrativa de guerra que alimentava o medo, a desconfiança e a procura de responsáveis. Num contexto em que a UNITA era vista como a principal ameaça ao Estado, e em que o conflito militar regressava com intensidade, cresceu em Luanda a percepção de que existiam “inimigos internos”infiltrados na capital.
Essa perceção foi reforçada por vários factores. Um deles foi a relação histórica entre a UNITA e o regime de Mobutu Sese Seko, no antigo Zaire. Durante anos, o território zairense serviu como importante retaguarda logística para a UNITA. Armas, equipamentos, apoio político e canais de abastecimento passaram frequentemente por aquele país. Além disso, a proximidade geográfica e cultural entre populações do norte de Angola e as populações do Zaire, criava redes transfronteiriças que, embora fossem essencialmente familiares, comerciais e culturais, passaram a ser observadas com suspeita por alguns sectores políticos e militares.
A questão torna-se particularmente sensível quando se analisa a posição da população bakongo. Historicamente distribuídos entre Angola, o antigo Zaire, o Congo-Brazzaville e o Gabão, os bakongo constituem uma das mais importantes comunidades etnoculturais da África Central. No entanto, durante o agravamento da guerra, parte da opinião pública e de determinados círculos políticos começou a associar, de forma simplificada, a identidade bakongo ao espaço geográfico do antigo Zaire e, por extensão, às estruturas de apoio da UNITA.
Essa associação era profundamente redutora. A população bakongo nunca constituiu um bloco político homogéneo. Entre os bakongo existiam apoiantes do MPLA, da FNLA, da UNITA e cidadãos sem qualquer filiação partidária. Contudo, em contextos de guerra, as distinções individuais tendem frequentemente a desaparecer, cedendo lugar a categorias colectivas construídas pelo medo e pela propaganda.
Outro factor que contribuiu para esse fenómeno, foi a presença militar da UNITA em partes significativas da província do Uíge, após o reinício da guerra. O facto de a UNITA controlar áreas habitadas predominantemente por populações bakongo, foi interpretado por alguns sectores como prova de cumplicidade local, ignorando que o controlo militar de um território não implica necessariamente apoio político da população residente. Ainda assim, essa percepção alimentou suspeitas e reforçou estereótipos que se tornariam perigosos na capital.
Ao mesmo tempo, a participação de numerosos congoleses na economia diamantífera das Lundas contribuiu para consolidar, no imaginário de muitos, uma ligação entre o universo cultural bakongo, o Zaire, a exploração dos diamantes e o financiamento da UNITA. O resultado foi um processo clássico de etnicização do conflito, em que comportamentos atribuídos a determinados grupos ou indivíduos passaram a ser projectados sobre comunidades inteiras.
Quando ocorreram os confrontos e as mortes de dirigentes da UNITA em Luanda, a cidade já vivia num ambiente de extrema tensão. O fracasso do processo eleitoral, o regresso da guerra, a circulação de relatos de massacres noutras regiões, a propaganda política e o medo de infiltração, criaram um clima propício à violência colectiva. Foi nesse contexto, que milhares de pessoas passaram a ser identificadas não pelo que tinham feito, mas pelo grupo ao qual pertenciam, ou eram supostamente associadas.
A Sexta-Feira Sangrenta emerge, assim, como a expressão mais dramática desse processo. A violência que atingiu numerosos cidadãos bakongo e outras populações percebidas como próximas da UNITA, não pode ser explicada apenas por questões étnicas. Ela resultou da convergência entre guerra civil, propaganda, medo colectivo, ressentimento acumulado e colapso das barreiras institucionais que deveriam proteger os cidadãos.
Da mesma forma, a análise histórica não pode ignorar o sofrimento vivido por milhares de pessoas nas Lundas, no Soyo e noutras regiões controladas pela UNITA. Fazer da Sexta-Feira Sangrenta um episódio isolado da violência nacional, seria ignorar uma parte fundamental da realidade. Os acontecimentos de Luanda e os massacres ocorridos noutras regiões, integraram um mesmo ciclo de guerra e de represálias, em que populações civis foram sucessivamente transformadas em alvos políticos.
A principal lição histórica desse período, é que a guerra civil angolana não produziu apenas confrontos militares; produziu também mecanismos de suspeição colectiva, que transformaram identidades regionais e étnicas em marcadores de lealdade política. Quando isso acontece, indivíduos deixam de ser julgados pelas suas acções, e passam a ser definidos pela origem, pela língua, pela família ou pela comunidade a que pertencem. É nesse momento que a violência deixa de atingir adversários específicos, e passa a atingir populações inteiras.
Mais de três décadas depois, a memória da Sexta-Feira Sangrenta continua a ser objecto de disputa política e emocional. No entanto, uma abordagem historicamente rigorosa exige reconhecer, simultaneamente, os massacres e perseguições ocorridos em territórios controlados pela UNITA, a instrumentalização política do medo em Luanda, o papel das redes diamantíferas das Lundas, a influência geopolítica do Zaire de Mobutu, e a injusta associação de comunidades inteiras a projectos políticos que não representavam a totalidade dos seus membros.
Somente uma leitura que integre todas essas dimensões, permite compreender a verdadeira profundidade da tragédia. ASexta-Feira Sangrenta não foi apenas um episódio de violência urbana. Foi o resultado extremo de uma guerra que transformou diferenças políticas em suspeitas étnicas, sofrimento em vingança e medo em perseguição. Compreender esse processo é essencial para preservar a memória das vítimas, e para impedir que as divisões do passado continuem a moldar o futuro de Angola.










