POVO MARAVILHOSO (4)

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade”.

Fernando Pessoa

1 – Apesar dos muitos apelos, mantém-se a desatenção e a recusa de cuidados de saúde ao cidadão recluso Carlos de São Vicente. O caso atingiu uma gravidade enorme e já não encontra explicação. A atitude do Governo, de uma insensibilidade sem limites, é incompreensível. Não dignifica o País, particularmente o seu sistema judiciário.

Da parte da União dos Escritores Angolanos, diante da situação dramática por que passa um seu membro, independente da culpa que lhe é atribuída, vem um silêncio ensurdecedor e esquisito, que demonstra o caminho pelo qual segue a intelectualidade angolana. O carácter de quem dirige aquela que deveria ser a casa mais prestigiada da cultura angolana. A mesma postura rígida e insensível dos seus chefes. Deplorável!

2 – Do Mundial de Futebol continuam a emergir as esperadas faltas de respeito para com os que se apresentam, nos vários domínios, como os mais fracos da comunidade. De positivo, apenas o evidente crescimento do futebol africano.

3 – Mais um cheirinho do meu livro “Viva este povo maravilhoso” que está aí a chegar. Uma passagem do capítulo Desafios da Escola:

“O que se pode dizer de um País que revela, ano atrás de ano, tão elevado número de crianças fora do sistema de ensino? Que ilações se retiram deste quadro? O que pensar, perante o número de alunos que, anualmente, não conclui o ensino primário? Pobreza, desigualdades sociais, violência ou instabilidade política? Quais as verdadeiras causas?

Qualquer das hipóteses é preocupante. Mesmo que se inclua nas contas a maldita corrupção, mesmo que interfiram no fenómeno outras causas, conclui-se facilmente que a situação da educação em Angola é dramática. O País não tem horizontes, está em perigo muita gente, não há futuro para as crianças! A nossa matriz é assustadora. Trinta e sete milhões de cidadãos angustiados numa mistura inédita e preocupante. Uma média de idades inferior a vinte anos, setenta por cento de analfabetos e noventa de iliteracia. Um peso angustiante! A sociedade é constituída por uma maioria de gente carente de escola de carteira, de princípios e valores, de práticas sociais respeitáveis.

Os “Insatisfeitos” abordavam o fenómeno. Como sempre, com apreensão. Meditavam. Ainda não se tinham apercebido que a tasca estava ali, a dois passos do velho Liceu Feminino “Dona Guiomar de Lencastre”. Apenas, um lapso de observação. Era normal acontecer! Aquela designação vinha do tempo colonial. A partir da Independência, os nomes das escolas mudaram. Ganharam título nacional como tinha de ser. Esta passou a chamar-se Escola “Njinga Mbande”. Ali em frente, funciona o Colégio “Elizângela Filomena”. É dos que melhor se mostra e cumpre a sua missão. Funciona num edifício que pertencia aos antigos Serviços da Educação. Na antiga Estrada de Catete, próximo do Largo da Independência, no sentido da Baixa. Tem fama de ser o melhor colégio privado da capital, talvez de Angola.

         – Quem é o Ministro da Educação? – Quis saber o “general” Euclides.

         – De novo, uma senhora. Foi nomeada há pouco tempo, há dias – esclareceu a professora Vera Lúcia – substituiu a doutora Luísa Maria Alves Grilo que estava lá desde 2022, salvo erro. Julgo que já nomeada pelo Presidente João Lourenço – adiantou, informando que a nova titular da pasta é jovem e se chama Erika Linete Batalha de Carvalho Aires – tem uma tarefa gigantesca à sua frente. O Presidente, na cerimónia de tomada de posse, incumbiu-a de dar escola a todas as crianças angolanas!

         – Só se acontecer um milagre… – Dedé Felício ajeitou-se melhor na cadeira e rindo, arranjou posição para falar – como é que ela vai conseguir isso?

Esboçaram-se sorrisos. Recordaram a Ministra cessante. Dedé relatou a cena dos insultos aos angolanos que estavam a bazar de Angola

 –  Foi exonerada por isso? – Quis saber a professora Vera Lúcia.

         – Até devia, mas não terá sido. Mas foi de bradar aos céus! Como pode uma Ministra expressar-se assim? A outra gafe teve contornos diferentes! Mas é melhor não misturar assuntos – Dedé Felício falava com algumas cautelas. 

Foi dizendo, esclarecendo. A antiga Ministra da Educação tinha alguns pendentes. Havia falatório público. Comentava-se a doutora Luísa Grilo, em termos pouco abonatórios.

Utilizando cuidadosamente as palavras o jornalista continuou.

 – À boca cheia, dizia-se que a Ministra era, ou é, proprietária de doze colégios privados em Luanda!

         – O que é? Doze colégios? Em Luanda? Não será exagero? Mas que coisa estranha! Alguém pode provar isso? – Adolfo Filomeno Jota estava de boca aberta. 

         – Uma situação destas seria, à partida, incompatível com o exercício do cargo governativo – a professora Vera Lúcia estava surpreendida. 

A menos que se fizesse um esclarecimento público. Garantindo a isenção da Ministra e a inexistência de qualquer conflito de interesses. Mas ao que tudo indica nada foi clarificado. Daí a dúvida, e o povo a ficar com a pulga atrás da orelha, a seu respeito. 

Passaram a falar mais claro. O assunto da Ministra Luísa Grilo com os colégios privados, era mesmo um caso, não uma intriga. Andava na boca do povo desde que assumiu o cargo. Poderia e deveria, há muito, ser esclarecido, mas não foi. A insinuação correu insistentemente, veiculada pela voz da população, sem que da parte ofendida, da Ministra, viesse qualquer sinal, uma declaração pública, como se faz quando se está inocente. Em face dessa falha, admitiu-se a não existência de mujimbu no assunto. Onde há intriga, é necessário que a verdade apareça, para que se combata a mentira. É um dito popular antigo. Se o Governo fosse responsável, impunha investigações e, se fosse habitual entre nós, a oposição solicitaria a constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para esclarecer o caso. Em condições normais, competiria ao Chefe do Governo, a tomada de uma decisão. Mas infelizmente não temos Governo, temos um Executivo!”

É tudo por hoje. Com a promessa de voltar para a semana, despeço-me dos meus estimados leitores, dos familiares e amigos, dos camaradas e dos companheiros de luta. Vai para todos aquele abraço e até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 21 de Junho de 2026

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