
Na sexta-feira (19), foi assinalado o 92.º aniversário do município do Nzeto, na faixa costeira da província do Zaire, situado a cerca de 283 km a norte de Luanda, na estrada que liga a capital a Mbanza Congo, capital da província do Zaire, e ao Soyo. A sua economia baseia-se fortemente na pesca e no desenvolvimento do turismo. Pela TPA, acompanhei pois a transmissão em directo alusiva a data, e o que vi e ouvi deixou-me assustado. As autoridades locais, começando pelo próprio governador, Adriano Mendes de Carvalho, bem como empresários e outros agentes, repetirem: “O Nzeto está a desenvolver porque tem estrada e luz”.
Problema lógico: P e R coexistem no mesmo Nzeto. E isso chama-se em lógica, “falácia da causa suficiente”. Pegaram em dois indicadores, “estrada e luz”, e decretaram “desenvolvimento total”. É como dizer que bastará a um corpo ter pele e cabelo para ser considerado saudável, mesmo com os órgãos em estado de falência.
Como historiador, sei que a história não se mede em soma, mas em transformação.
Crescimento Aritmético = Soma +1. É matemática de quantidade. É o que o administrador e o governador mostraram: 1 estrada nova +1 poste de luz +1 “prédio” = “crescimento”. É aritmética. Soma, subtração, multiplicação. O gráfico sobe.
Problema do crescimento aritmético: não se pergunta para quem. Porque a estrada pode servir apenas o carro do administrador. E a energia eléctrica, pode estar disponível só para atender o largo onde foi instalado o palco da TPA. Mas, o número cresce e enquanto isso, o povo continua no zero.
Desenvolvimento Histórico = Transformação de estrutura
Trata-se de lógica dialética, não aritmética. Pergunta: a vida do povo mudou de estado? Claro que não.
A ocorrer desenvolvimento histórico no Nzeto, seria:
i- O filho do pescador que era analfabeto, hoje é engenheiro = mudança de estado social;
ii- A mulher que andava 5 km por ter acesso à água, hoje abre torneira = mudança de estado de dignidade ;
iii- O jovem que só via o mar, hoje vê emprego no mar = mudança de estado económico
Lei do historiador: Crescimento aritmético pode acontecer num mandato. Desenvolvimento histórico exige gerações. Ora o Nzeto completou 92 anos. Se ainda celebramos a construção de uma “estrada e luz” como milagres, então em 92 anos não houve mudança de estado. Houve, sim, apenas a soma de tijolo.
O que eu vi na TV é velho da nossa História de cinquenta anos. Chama-se “síndrome do progresso de fachada”.
Como historiador, sei que todo o regime que não tem entrega real, compra discurso visual. “Estrada e luz” filmam-se bem para a TPA. Mas água que não sai na torneira e jovem sem emprego, não fazem parte da exposição. Então, a TV escolhe o que é fotogénico, não o que é vital.
O administrador fala de “dado estatístico”, eu falo de “dado etnográfico”. Ele baseia-se num relatório, eu fiz a leitura da realidade nas ruas, nos bairros, nos lares de várias famílias.
Quando a estatística oficial contradiz o testemunho de campo, a História escolhe o testemunho. Porque estatística pode ser maquiada. Mas miséria estampada no rosto de uma criança, não.
O Nzeto assinalou os seus 92 anos de “crescimento aritmético forçado” sem nunca atingir “desenvolvimento histórico”. O Estado somou: +estrada, +poste, +discurso. Mas o administrador esqueceu de transformar: -sede — desemprego — humilhação.
Aritmética do administrador: 1 + 1 = desenvolvimento.
Na dialética do historiador: se 1 + 1 não tira a criança da fome, então 1 + 1 é igual= 0. Por isso eles confundem os termos. Porque confundir dá voto. Dizer “há crescimento” é mais fácil que gerar “desenvolvimento”. Crescimento se inaugura, desenvolvimento se constrói.
*Historiador










