VEGETANDO POR AÍ…

“Tornando-se um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade nos seus actos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas serão destruídas para sempre”.
Dietrich Bonhoeffer (1906–1945)
Na sequência dos actos de violação grosseira dos estatutos e das regras estabelecidas para a eleição do presidente do MPLA no Congresso de Dezembro, cuja responsabilidade é atribuída à direcção desse partido em claro favorecimento ao presidente que devia, mas não cessou funções, e criando impedimentos aos demais pré-candidatos, designadamente, António Venâncio, José de Almeida e Higino Carneiro recebi, de um amigo residente nos Estados Unidos da América, um vídeo retratando a vida e obra do teólogo e filósofo Dietrich Bonhoeffer, que circula nas redes sociais.
Embora tenha casado com livros desde tenra idade e de ter lido já referências sobre Dietrich Bonhoeffer, confesso que sabia pouco sobre esse pastor luterano alemão, que se destacou pela sua corajosa oposição a Adolf Hitler e pagou com a vida. Ele e vários membros da sua família. Acabou executado (enforcado) no campo de concentração de Flossenbürg, aos 9 de Abril de 1945, dias antes do fim da II Guerra Mundial.
Cativado pelo conteúdo do áudio que aborda uma pertinente questão, sobre a estupidez e a maldade, interessei-me em pesquisar mais sobre o pensamento e obra desse filosofo, que acreditou que “a inação frente ao mal (na Alemanha de Hitler) era uma cumplicidade”. No fundo, é isso que se observa em Angola, com a postura dos membros do Bureau Político do MPLA. A “inação frente ao mal”, violando os estatutos desse partido e regras básicas (contudo fundamentais) do exercício da transparência, da democracia e perigando a convivência política entre militantes da mesma instituição. O BP do MPLA com mandato cessado, fez colagem a João Lourenço, e de forma coordenada, baixou para as estruturas de base, orientações que coarctam a disputa igual e a liberdade de escolha dos seus militantes. Os factos (provas) são exibidos diariamente nos noticiários das tpas, contrastando com o silêncio em relação aos já ‘proscritos’. Muita maldade! Muita estupidez, como a analisada por Dietrich Bonhoeffer ao tempo da ascensão de Adolfo Hitler, vendo algo que o perturbava mais do que a crueldade infligida pelos guardas que o enforcaram.
Tal como ocorre em Angola, com o suporte e o conforto que a direcção do MPLA estende a João Lourenço, candidato à sua própria sucessão, e o ostracismo a que submete os outros contendores, antes mesmo do início da campanha, Dietrich Bonhoeffer via como a Alemanha inteira, médicos, professores, pastores, gente educada, religiosa, gente que havia frequentado a universidade, lido livros e criado filhos, aplaudia Adolfo Hitler. E a pergunta que o obcecava não era como foi possível o mal, mas como foi possível que gente boa aplaudia o promotor do mal.
Sobre maldade e estupidez, Dietrich Bonhoeffer considerou que a estupidez é mais perigosa que a maldade. E esclareceu que, contra o mal se pode protestar, que o mal pode ser exposto, revelado, que pode também ser evitado, se necessário, até pela força. Para ele, o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo menos um desconforto naquele que o pratica. A maldade, disse, tem uma lógica: “quer algo”. E, porque quer algo, se pode antecipá-la.
Diversamente, escreveu o filosofo, não há como se defender da estupidez. Contra ela não se tem defesa, porque a pessoa estúpida — e aqui vem o importante — “não é alguém com pouca inteligência. É alguém que renunciou ao seu próprio juízo, entregou a sua capacidade de pensar a um líder, a um grupo, a um slogan, a uma ideologia. E uma vez que isso ocorre, não se pode convencer o estúpido com feitos. Não se consegue apelar a sua razão, porque já não tem razão própria. Tem a razão de outro”.
O estúpido, segundo Dietrich Bonhoeffer, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo mesmo. “Ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é refutado”. Portanto, alertou Dietrich Bonhoeffer, “a relação com o estúpido exige muito mais cautela do que com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão — é inútil e perigoso”. Para lidar com a estupidez Dietrich Bonhoeffer alertava que “é preciso antes procurar entender a sua natureza. Não se trata essencialmente de um defeito intelectual, mas de algo que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas, e pessoas intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas”.
Dietrich Bonhoeffer concluiu que “a estupidez não é propriamente um defeito congénito, mas um processo em que as pessoas se tornam estúpidas sob certas circunstâncias, ou deixam-se fazer estúpidas de forma recíproca”. E observou que “a estupidez aparece mais em pessoas ou grupos propensos, ou condenados a viver em comum, do que em pessoas mais fechadas, reservadas e solitárias”.
O filosofo alemã argumentou que “o poder de alguém precisa da estupidez de outrem”. E não se referia a pessoas ignorantes. Dizia explicitamente, que a estupidez ocorre mais em pessoas que adquirem poder social, ou que pertencem a grupos com muito poder colectivo. Quanto mais poderoso for esse grupo mais facilmente os seus integrantes deixam de pensar por si próprio, porque o grupo dá identidade, segurança e respostas. E pensar ‘com a própria cabeça’, como justificou Dietrich Bonhoeffer, “tem um custo que antes não tinha: a recusa e o afastamento dos teus”.
Ao contrário da estupidez, Dietrich Bonhoeffer considerou que a “maldade actua só. Precisa de se esconder, necessita de mentir, mas tem limites”. Porém, disse ainda, “o estúpido é instrumento de outros e o pior, é que não sabe que é. Sente-se convencido, sente-se parte de algo grande, sente-se do lado correcto”.
E Dietrich Bonhoeffer foi peremptório:“Não foram os monstros que destruíram a Alemanha. Foram milhares de pessoas normais que entregaram o seu critério a um movimento e deixaram de fazer perguntas. Não eram malvados. Eram algo pior. Eram obedientes sem pensamento próprio”. E o que se passou “não foi que um monstro tomou o poder. O que se passou foi que milhões de pessoas decidiram que pensar por si mesmas era demasiado incomodo, e entregaram o seu poder de decisão a Adolfo Hitler”.
A diferença dessa realidade naquele contexto, não difere muito da nossa vivência política diária. Tal como lá, EM Angola basta olharmos no nosso redor: “gente que repete slogans sem saber de onde vêm; gente que partilha títulos sem ler artigos; gente que odeia pessoas que nunca conheceram, porque alguém lhes diz que são inimigos”. Como concluiu Dietrich Bonhoeffer, “não são más pessoas. São apenas pessoas que deixaram de pensar por si próprio”. E o problema, concluiu, “é que não sabem”.
Para Dietrich Bonhoeffer “o estúpido nunca se reconhece. Sente-se informado. Sente-se desperto. Sente-se mais lesto que os demais e isso é quase impossível alcançar. Então o que faz”? — questionou
A resposta de Dietrich Bonhoeffer não é agradável, mas não foge da verdade: “A estupidez não se cura com educação, não se cura com informação, não se cura com melhores argumentos. Porque o problema não é que a pessoa não perceba. O problema é que decidiu, consciente ou inconscientemente, que a aprovação do seu grupo vale mais que o seu próprio critério”.
Mas Dietrich Bonhoeffer apontou a saída: “Isso só se rompe a partir de dentro com um acto de coragem e não de inteligência. A partir do momento que alguém decide que prefere pensar por si, a pensar acompanhado, mas sem pensar”.
E finalmente, seguindo a reflexão de Dietrich Bonhoeffer, a pergunta que se coloca é simples: “Quando foi a última vez que você mudou de opinião sobre algo importante? Quando foi a última vez que você disse algo no grupo a que está vinculado, sabendo que não receberá aplausos? Se não se recorda, quiçá o problema não é porque é estúpido. É porque deixou de pensar e não deu conta”.
Concluindo: “A estupidez não se cura com informação. Cura-se com coragem”.










