
Ora bem, nos últimos tempos temos assistido na cidade de Benguela a filas ou “bichas”, no linguajar urbano angolano absolutamente incomuns nos postos de abastecimento de combustível (PAC), vulgarmente chamados bombas. A desorganização nos PAC é alimentada pelos próprios frentistas, os “bombeiros”, muitos deles mais empenhados em descaminhar combustível para o mercado negro, do que em atender, com dignidade, os consumidores que têm automóveis e motociclos.
Os postos da Sonangol destacam-se, infelizmente, pelo maior nível de caos, onde o pudor pelo utente parece ter sido sepultado debaixo do cheiro da gasolina e da resignação colectiva. Os frentistas simulam avarias, lentidão e toda sorte de expedientes para facilitar o desvio do combustível para o mercado paralelo, enquanto ninguém põe ordem na casa.
Curiosamente, quem acaba por dominar esse comércio informal são, em muitos casos, as “mamãs”, mulheres humildes que passam o dia a vender um produto altamente inflamável à beira da estrada, expostas ao sol, ao risco e ao improviso. E, no final da jornada, regressam a casa sem o mínimo de condições de aprovisionamento ou segurança. Aqui fala mais alto o estado de pobreza, quando a fome aperta, até o perigo vira negócio.
Sem blasfemar, às vezes parece que Deus é angolano, tal a protecção divina que cobre esta gente. De outro modo, como explicar a venda de combustível em garrafas e com altas temperaturas, ou com a iluminação de um candeeiro improvisado, em plena noite, como se a tragédia tivesse tirado férias? É um quadro insólito, quase surrealista, onde a precariedade dança lado a lado com a sobrevivência.
Voltemos, porém, aos postos da Sonangol. Quanto mais sistemas modernos de venda anunciam, menos os concessionários conseguem colocá-los plenamente em funcionamento. Segundo se diz, muitos desses operadores nunca possuem capital suficiente para manter os tanques devidamente abastecidos. Surge então a pergunta inevitável: por que razão não entregar os postos a quem tenha, efectivamente, capacidade financeira e competência de gestão?
A resposta parece residir no velho “cabritismo” que contaminou o processo de concessão. Muitos PAC foram entregues a familiares, amigos influentes ou antigos funcionários, num modelo de distribuição assente mais na proximidade política do que no mérito. O resultado está à vista, um serviço degradado, filas intermináveis e um mercado negro florescente nesta altura de crise.
Tudo isto é também reflexo do ADN político do partido que governa, cuja relação estratégica com a Sonangol, sempre funcionou como muleta do poder. Uma estrutura que, durante décadas, blindou instituições, dificultou auditorias sérias e tornou quase impossível qualquer cultura de responsabilização pública.
O actual sistema de concessão não está orientado para a equidade nem para a eficiência económica. Pelo contrário, parece concebido para reproduzir privilégios, concentrar oportunidades aos poucos e ampliar as desigualdades sociais.
Contudo, nem tudo vai mal nos PAC. A empresa concorrente, pelo menos na cidade de Benguela, tem demonstrado que é possível trabalhar com organização e respeito pelo consumidor. O concessionário Jorge Miranda, por exemplo, revela-se um gestor digno, competente e altamente profissional, provando que, quando há seriedade na gestão, o serviço funciona e o cidadão agradece.










