
RECADOS DA CESALTINA ABREU (89)
“Onde há poder há resistência”
Michel Foucault
A história mostra que regimes ou estruturas assentes apenas na força bruta, tendem a revelar fragilidade a longo prazo. A coerção permanente gera resistência, porque o medo pode impor silêncio, mas dificilmente produz legitimidade. A verdadeira estabilidade não se sustenta apenas pela força, mas pela justiça, pela consciência e pela capacidade de construir reconhecimento social.
É nesse sentido que Michel Foucault oferece uma reflexão particularmente actual. Para o filósofo, o poder não está concentrado apenas no Estado ou numa autoridade central; ele circula em rede, capilarizado em toda a sociedade, através das relações de trabalho, das instituições, dos discursos e dos mecanismos de vigilância. O poder actua no quotidiano.
Por isso, saber e poder não são instâncias separadas. Formam uma relação intrínseca — o “saber-poder” — através da qual se definem normas, comportamentos e ‘verdades’ socialmente aceites. A escola, a medicina, a prisão, os sistemas de segurança ou mesmo os discursos técnico-científicos não são neutros: produzem classificações sobre o que é “normal” ou “anormal”, “legítimo” ou “ilegítimo”, “são” ou “louco”. O saber torna-se, assim, instrumento de organização e disciplinamento social.
O poder moderno não se exerce apenas pela repressão directa. Ele molda comportamentos, normaliza indivíduos e produz subjectividades dóceis e úteis. Funciona na sala de aula, no acesso à clínica, nas relações laborais, nos mecanismos de vigilância e no controlo permanente do quotidiano.
Mas, como lembrava Foucault, “onde há poder, há resistência”. E essa resistência não deve ser entendida apenas como negação ou confronto frontal. Ela manifesta-se também na criação de novas formas de existência, de pensamento e de acção colectiva.
A resistência surge, por exemplo, nas contra-condutas que questionam as formas como os indivíduos são conduzidos e governados — na família, na escola, no hospital ou no Estado. Surge igualmente nas lutas localizadas e temáticas, que enfrentam situações concretas de dominação sem depender necessariamente de uma grande revolução centralizada.
Ela manifesta-se ainda na recusa da normalização imposta pelas instituições disciplinares; na contestação das verdades estabelecidas; e na construção de novas formas de subjectividade, através das quais os indivíduos procuram tornar-se protagonistas da própria existência. É a ética do cuidado de si como prática de liberdade.
Também a transgressão assume aqui um papel central: ultrapassar limites impostos, questionar as “artes de governar” e desafiar formas de sujeição apresentadas como naturais ou inevitáveis.
A resistência é, assim, uma força de ruptura. Não para destruir por destruir, mas para desalinhar o status quo, questionar relações de poder cristalizadas, e abrir possibilidades de transformação e liberdade.
Nesta sexta-feira, saúde, cuidados e coragem para ‘ir à luta’!
Kandando daqui!











