
RECADOS DA CESALTINA ABREU (87)
‘Perder eleições é normal numa democracia. O problema é perder a democracia numa eleição’.
Falávamos ontem sobre mudar a rota para parar de perder. Não é só sobre decisões individuais — é sobre mentalidade. E, em sociedade, essa mudança tem uma expressão concreta: o voto.
A democracia não é um conceito abstracto. Funciona através de eleições, o instrumento visível que transforma o “poder do povo” em poder real. Sem eleições livres, justas e periódicas, não há representatividade, nem pluralismo, nem alternância. Há outra coisa qualquer, mas não democracia.
E convém ir mais longe: votar não esgota a democracia. A chamada democracia representativa limita o cidadão ao papel de eleitor que aparece de tempos em tempos. Já a participativa exige mais — intervenção contínua, responsabilidade partilhada, acção entre eleições. Valoriza o voto, mas recusa a passividade.
É aqui que a coisa complica: queremos democracia, mas muitas vezes comportamo-nos como espectadores. E não somos. O voto não é um gesto simbólico, é um acto de poder. Individual na forma, colectivo nas consequências. Em cada escolha, não decidimos apenas quem governa. Decidimos o país que aceitamos ser — ou recusamos continuar a ser.
A democracia tem defeitos. Muitos. Mas continua a ser o único sistema que permite corrigi-los sem se destruir. Ainda assim, não está garantida. Há mais de duas décadas que indicadores como os da Freedom House, Afrobarometer ou V-Dem Institute mostram o mesmo padrão: recuo, erosão, desgaste.
E não, isso não acontece por acaso.
Democracias não colapsam apenas com golpes. Também se esvaziam por dentro — quando processos eleitorais são capturados, instituições são fragilizadas e regras são moldadas para servir interesses. É por isso que discutir reformas sérias — independência institucional, supervisão eleitoral credível, processos despartidarizados — não é detalhe técnico. É sobrevivência democrática.
A questão central é simples e desconfortável: não é a derrota eleitoral que deve assustar. É a possibilidade de o próprio jogo estar viciado.
A democracia não se defende só no dia do voto. Defende-se todos os dias, com exigência, vigilância e participação. Porque o que levou décadas a construir pode desaparecer muito mais depressa do que queremos admitir.
Votar com consciência não é um gesto cívico bonito. É um acto de defesa própria.
Nesta quarta-feira, saúde, cuidados e coragem para lutar pelo país que queremos, e podemos, ser.
Kandando daqui!










