A GEOPOLÍTICA DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA E O SOFRIMENTO DO POVO CONGOLÊS

POR JOAQUIM JAIME

Se os minerais que alimentam a transição energética do planeta estão a ser extraídos por via de sangue e violência, que tipo de transição se está a construir? E quem estará disposto a pagar o preço real por um futuro verde — não apenas em dólares, mas em vidas humanas?

A recente reunião em Washington, mediada pela administração Trump,  de 17 e 18 de Março de 2026, trouxe um fôlego de cautela às relações tensas entre a República Democrática do Congo (RDC) e o Ruanda. Pela primeira vez, em meses, viu-se algo que transcende as habituais declarações vagas de intenção: um cronograma preciso. Representantes de Kinshasa e Kigali sentaram-se na capital federal dos EUA e concordaram não apenas com a retirada das forças ruandesas do solo congolês, mas também com a neutralização das Forças Democráticas para a Libertação do Ruanda (FDLR).

O facto de este acordo ter sido costurado sob o olhar atento de Washington e respaldado pela ameaça explícita de novas sanções em caso de violações, demonstra uma verdade preocupante, mas inegável: a estabilidade no leste do Congo continua sendo, em grande medida, uma questão de vontade das potências externas.

É inegável que a administração Trump, ao exibir o chicote das sanções, conseguiu o que a diplomacia tradicional africana e as forças de manutenção da paz da ONU (MONUSCO) têm lutado para alcançar há décadas: trazer as duas partes para um compromisso vinculativo. A abordagem de “pressão máxima” aplicada a Kigali, aliada à exigência de acção concreta contra as FDLR por parte de Kinshasa, cria um raro momento de equilíbrio de responsabilidades. Durante anos, o discurso internacional oscilou entre culpar exclusivamente o Ruanda pela ocupação e apoiar a tese congolesa de que todos os males derivam dos rebeldes hutus. Este acordo, ao exigir acções simultâneas e cronometradas, rompe com essa lógica binária estéril.

No entanto, esse protagonismo americano não teria sido possível sem o trabalho de base realizado nos últimos anos por um actor muitas vezes discreto, mas cada vez mais indispensável: Angola e o seu Presidente, João Lourenço. Antes mesmo de Washington entrar em cena, foi Luanda que, pacientemente, construiu as pontas de um diálogo que parecia impossível entre Kinshasa e Kigali. O acordo de Março de 2026, mediado pelos EUA, não nasceu do vácuo; ele é filho legítimo — ainda que incômodo — do chamado “Processo de Luanda”.

Minerais críticos e a geopolítica da transição energética

Para compreender por que Washington decidiu, neste momento, exercer pressão máxima sobre Kigali e Kinshasa, é necessário olhar para um elemento que raramente aparece nos comunicados oficiais, mas que está no centro de todas as negociações: os recursos minerais estratégicos da República Democrática do Congo. O país é o maior produtor mundial de cobalto, detendo reservas essenciais para baterias de veículos eléctricos, além de vastas quantidades de cobre, lítio, coltan e terras raras — componentes indispensáveis para a transição energética global. Actualmente, a produção anual de cobre no país ultrapassa 3 milhões de toneladas, enquanto os preços do cobalto saltaram de cerca de US$ 20.000 para quase US$ 55.000 por tonelada, reflectindo a demanda global por materiais para a transição energética.

Como observou C. Geraud Neema, pesquisador associado do Carnegie Endowment for International Peace, em entrevista à DW News, a oferta de acesso a minerais críticos pela RDC “está se alinhando à competição entre China e EUA por minerais críticos”. A China já detém uma posição dominante na região: empresas chinesas lideradas pela CMOC, Zijin e Huayou dominam o sector de mineração congolês, e Pequim é o maior credor bilateral da RDC. Em Dezembro de 2025, a administração Trump assinou uma parceria estratégica com a RDC para impulsionar investimentos ocidentais, redirecionar o suprimento de minerais e reduzir o domínio chinês no sector.

O paradoxo é terrível: os mesmos minerais que deveriam impulsionar a transição energética do planeta estão financiando uma das guerras mais longas e mortais do continente africano. Como apontou o Africa Program da Carnegie Endowment na sua análise de 2025, “as tensões entre RDC e Ruanda mostram como as cadeias de suprimento de minerais críticos estão no centro das competições geopolíticas emergentes”. O especialista Joshua Walker, do DRC Research Group da NYU, observou que o acordo entre RDC e a China “é claramente uma resposta a Washington”, enquanto o pacto com os EUA é “mais amplo e vinculativo, trocando apoio à segurança no leste do Congo por acesso à mineração”.

As sanções americanas

A mudança na abordagem americana tornou-se explícita em 2 de Março de 2026, quando o Departamento do Tesouro dos EUA, por meio do Escritório de Controlo de Activos Estrangeiros (OFAC), anunciou sanções contra as Forças de Defesa do Ruanda (RDF) e quatro dos seus generais de alta patente — Mubarakh Muganga, Vincent Nyakarundi, Ruki Karusisi e Stanislas Gashugi — congelando os seus activos nos EUA e proibindo transações com pessoas ou empresas americanas. A acção foi tomada ao abrigo da Ordem Executiva 13413, conforme alterada, e veio acompanhada de uma licença temporária válida até 1º de Abril de 2026 para o encerramento de contratos existentes.

Em comunicado oficial, o Departamento do Tesouro afirmou que a RDF vinha “apoiando, treinando e lutando ao lado” do M23, grupo armado já sancionado pelos EUA e pelas Nações Unidas, e que a ofensiva do M23 que resultou na captura da cidade de Uvira violava os “Acordos de Washington para a Paz e Prosperidade” assinados em Dezembro de 2025. O comunicado da Embaixada dos EUA no Ruanda acrescentou: “Os Estados Unidos permanecem firmes no seu apoio à paz e estabilidade no leste da RDC e na região em geral. Os Acordos de Washington marcam um ponto de virada decisivo para a região dos Grandes Lagos”.

O senador Jim Risch (R-Idaho), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, declarou: “O presidente Trump e o secretário Rubio redefiniram o engajamento dos EUA no leste do Congo, substituindo a liderança passiva por acção directa para assegurar os Acordos de Washington para a Paz e Prosperidade”. Risch foi enfático sobre o propósito das sanções: “As sanções de hoje contra as Forças de Defesa do Ruanda e quatro altos oficiais das RDF enviam uma mensagem directa: aqueles que violam os termos intermediados pelos Estados Unidos pagarão um preço alto e crescente”. E concluiu: “O tempo para encenação acabou. Ruanda e o M23 devem interromper os seus avanços imediatamente, o que deve incluir a retirada completa de todas as áreas ao redor de Uvira”.

Luanda: onde tudo começou

A sequência de eventos nos últimos meses deixa evidente que os Estados Unidos decidiram usar o seu poder económico como alavanca. No entanto, esse movimento não teria sido possível sem o trabalho diplomático prévio de Angola. Como observou a imprensa congolesa em Janeiro de 2026, “a história da diplomacia é frequentemente feita de círculos que se fecham. Após os parênteses de Washington e as esperanças, ainda pendentes, de Doha, o foco da resolução do conflito no leste da República Democrática do Congo parece retornar ao seu ponto de ancoragem natural: Luanda”.

Entre Fevereiro de 2025 e Fevereiro de 2026, Angola exerceu pela primeira vez na sua história a presidência rotactiva da União Africana (UA). Foi um mandato histórico que consolidou a reputação de Angola como um actor relevante na pacificação da África Austral e da região dos Grandes Lagos. O analista político congolês Kerwin Mayizo, em entrevista à Africa24 TV, resumiu o legado de João Lourenço: “O que se pode colocar no activo do presidente angolano é que ele conseguiu trazer de volta para a África a resolução do conflito na região dos Grandes Lagos entre a RDC e o Ruanda. A resolução do conflito, que havia migrado para o exterior, nomeadamente para o Catar e os Estados Unidos, ele a trouxe de volta para a África”.

Em Janeiro de 2026, em meio à escalada de violência que ameaçava desfazer os acordos anteriores, João Lourenço lançou uma nova ofensiva diplomática. A sua proposta central foi a criação de um “mecanismo de monitoramento neutro” na fronteira entre RDC e o Ruanda, capaz de abordar as alegações de Kinshasa sobre o apoio ruandês ao M23 — alegações que Kigali continua negando. É esse tipo de engenharia diplomática, de baixo perfil mas alto impacto, que tem distinguido a mediação angolana, sob liderança do presidente João Lourenço.

FDLR e M23

Há sinais de que algo está, de facto, em movimento. Em 29 de Março de 2026, o exército congolês anunciou o início de uma campanha de desarmamento contra as FDLR. O tenente-general Nduru Jacques Ychaligonza, vice-chefe do Estado-Maior das FARDC, foi destacado para Kisangani para coordenar a operação. “Eles devem entregar as suas armas, voluntariamente ou à força”, declarou Ychaligonza a jornalistas no domingo, acrescentando que a primeira fase se concentraria em convencer os combatentes a se renderem. “Não precisamos de derramamento de sangue”, afirmou, informando que um centro de acolhimento foi estabelecido em Kisangani para receber aqueles que depuserem as armas e que os combatentes seriam eventualmente enviados para o Ruanda.

Paralelamente, fontes locais reportaram a retirada de combatentes do M23 de pelo menos uma dúzia de aldeias no território de Lubero, em Kivu Norte, nos últimos dias, de acordo com o governador da província nomeado por Kinshasa. Um porta-voz do grupo rebelde descreveu os movimentos numa postagem no X no sábado como “rotação rotineira” de tropas.

No início de Março, no entanto, um episódio revelou algumas tensões. Em 6 de Março, o M23 deportou 14 supostos combatentes das FDLR para o Ruanda, incluindo o brigadeiro-general Gakwerere Ezechiel, um conhecido oficial sênior das FDLR. Os outros incluem: Major Gilbert Ndayambaje, sargento-mor August Nsabimana, Sargento Mupenzi JMV (escolta do general de Brigada Gakwerere) e cabos Laurent Sibomana, Patrick Ishimwe, Concorde Ibyimanikora, Sadam Ukwishaka e Eric Hategekimana. Também foram deportados os soldados Pascal Ndayambaje, Daniel Rukundo Desire, Ntakirutimana Niyonzima, Fabien Ndayambaje e Gilbert Uwiduhaye.

O M23 afirma que os indivíduos deportados, que estão na lista de procurados do Ruanda pelo seu suposto envolvimento no genocídio de 1994, foram capturados enquanto lutavam ao lado de soldados das FARDC no território do Kivu Norte. A Força de Defesa do Ruanda (RDF) também confirmou em comunicado que recebeu os 14 militares da FDLR do M23. Os deportados estariam usando uniformes militares das FARDC. O porta-voz das FARDC, major-general Sylvain Ekenge Bomusa Efomi, denunciou a deportação em um comunicado no domingo (08 de Março), chamando-a de “montagem de mau gosto”. Ekenge acusou Ruanda e o M23 de encenar a entrega usando ex-combatentes das FDLR detidos na Prisão Central de Gitarama, no Ruanda. O incidente ilustra a profundidade da desconfiança entre as partes.

A questão mineral

É impossível dissociar esses movimentos militares e diplomáticos daquilo que verdadeiramente mobiliza o interesse das grandes potências na região. O relatório Minerais Críticos para a Transição Energética, publicado pela Agência Internacional de Energia (AIE) em 2025, projectava que a demanda por cobalto aumentaria em 300% até 2040, e a por lítio em mais de 1.000%. A RDC, sozinha, responde por mais de dois terços da produção global de cobalto.

Em Maio de 2025, a administração Trump lançou a Critical Minerals Security Initiative, um programa destinado a reduzir a dependência dos EUA em relação à China. Como observou o Financial Times, “garantir o acesso aos minerais congoleses tornou-se uma prioridade de segurança nacional para Washington, que vê na região dos Grandes Lagos o campo de batalha decisivo pela supremacia na economia verde”.

No terreno, essa disputa assume contornos mais sombrios. Como observou Folashadé Soulé e seus co-autores num artigo do Carnegie Africa Program, “se os minerais críticos vão beneficiar as comunidades locais, os impactos não podem ser medidos apenas em escala global. Em vez disso, os países africanos, corporações privadas e actores da sociedade civil devem concordar e aplicar padrões de mineração, garantir a partilha justa de receitas, aumentar a participação local na indústria e apoiar meios de subsistência deslocados”.

A RDC, por sua vez, tem buscado se reposicionar nesse cenário. Durante a Conferência da Associação de Prospectores e Desenvolvedores do Canadá (PDAC) de 2026, em Toronto, a delegação congolesa liderada pelo ministro de Minas Louis Watum Kabamba delineou a estratégia do governo de “transformar a riqueza mineral em um catalisador para o desenvolvimento industrial e soberania económica”, enfatizando a necessidade de “avançar além das exportações de matérias-primas e acelerar o processamento local, industrialização e criação de valor dentro do país”. Um dos projectos centrais apresentados foi a iniciativa MIFOR (Minas de Ferro do Grande Oriente), um corredor integrado de mineração e logística avaliado em aproximadamente US$ 29 bilhões.

Conclusão

O que está em jogo não é apenas a soberania da RDC ou a segurança do Ruanda. Está em jogo o controlo das cadeias de suprimento que definirão quem dominará a economia global nas próximas décadas. Está em jogo a vida de milhões de deslocados que vivem em campos superlotados em Goma e arredores, sujeitos a doenças, fome e violência sexual — vítimas colaterais de uma guerra cujos verdadeiros protagonistas muitas vezes estão sentados em escritórios em Washington, Pequim ou Bruxelas.

Os EUA deram o ultimato. Kinshasa e Kigali assinaram o cronograma. Mas, antes de tudo isso, foi João Lourenço, com a paciência de quem conhece as entranhas da geopolítica dos Grandes Lagos, quem manteve acesa a chama do diálogo quando tudo parecia perdido. O caminho da paz talvez tenha se tornado novamente angolano, mas ele continua repleto de obstáculos que apenas uma coragem política sincera e uma pressão internacional coordenada poderão remover.

A questão que permanece, nem se quer se calar, é esta: se os minerais que alimentam a transição energética do planeta estão a ser extraídos por via de sangue e violência, que tipo de transição se está a construir? E quem estará disposto a pagar o preço real por um futuro verde — não apenas em dólares, mas em vidas humanas?

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