METADE DO MUNDO É DE MULHERES E A OUTRA METADE DE FILHOS DELAS

Esta data tem as suas raízes nos movimentos socialistas (lutas por direitos sociais, económicos e trabalhistas) sufragistas (lutas por direitos políticos, em particular o direito das mulheres ao voto). A origem da data remete às lutas de mulheres, maioritariamente operárias, nos Estados Unidos, na Europa e na Rússia (a greve das mulheres russas em 23 de Fevereiro do antigo calendário russo, 8 de março de 1917 no calendário gregoriano adoptado pela Rússia em 1918) contra a carestia e a guerra.
E, diferente de outras datas comemorativas, esta é uma das poucas que não foi criada pelo comércio.
O Dia Internacional da Mulher foi oficializado pela ONU, em 1975, e celebrado a 8 de Março, para honrar a luta histórica das mulheres por igualdade, direitos trabalhistas e direito ao voto. A data origina-se de manifestações operárias no início do século XX, especialmente uma greve russa por “pão e paz” em 1917.
Apesar de oficializada no calendário mundial há 50 anos, a luta por direitos e pela justiça para as mulheres, já existe há milhares de anos. Desde a Idade Média, com a caça às bruxas (um período de repressão na Europa e América do Norte, associado à Inquisição, que resultou na execução de cerca de 40.000 a 100.000 pessoas, a maioria mulheres, 70-80%, acusadas de serem adoradoras do diabo, e condenadas a torturas e fogueiras; o auge ocorreu no início da Idade Moderna, devido a factores económicos e misoginia), e até antes desse marco, as mulheres lutam para terem seus direitos assegurados e reconhecidos. Ao longo dos séculos, alguns deles tornaram-se leis e constam nas Constituições dos vários países.
Um pouco de história em torno da origem da data
Em 1908, as mulheres socialistas do Lower East Side, em Nova York, organizaram uma manifestação de massa em apoio ao sufrágio igualitário, cujo aniversário (do Dia da Mulher) seria comemorado“.[14] Mas, o objectivo das manifestações ainda eram lutas dispersas por diversos direitos específicos, e no caso apontado, era o direito das mulheres ao voto nos Estados Unidos.
Em 28 de Fevereiro de 1909, nos Estados Unidos e por iniciativa do Partido Socialista da América, em memória de uma greve, realizada no ano anterior, que mobilizou as operárias na indústria do vestuário de New York reivindicando melhores condições de trabalho e o voto feminino. Em conjunto com os sindicatos nascentes e com o Partido Socialista da América, elas organizaram uma passeata que reuniu cerca de 15 mil mulheres. A fábrica, na época, recusou as reivindicações.
Em 1911, mesmo diante de greves e manifestações, a Triangle Shirtwaist Company ainda mantinha as suas operárias – a maior parte de sua força de trabalho -, numa jornada de trabalho de cerca de 14 horas ao dia, em semanas que ultrapassavam as 60 horas, sendo remuneradas com 6 a 10 dólares. Além da redução dessa jornada, as trabalhadoras também buscavam mais segurança no ambiente de trabalho, pois era real o risco de incêndio por tecidos inflamáveis.
Inspirada também neste movimento, em 26 de Agosto de 1910 a jornalista, professora e política alemã Clara Josephine Zetkin propôs, na reunião da Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, a criação de uma jornada de manifestações por direitos igualitários, a instituição de uma celebração anual das lutas pelos direitos das mulheres trabalhadoras, mas acabou não se fixando ‘um dia’.
Em 25 de Março de 1911, aconteceu o histórico incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist Company, em Nova York. A reivindicação das mulheres tornou-se justificada: a fábrica pegou fogo e, dos 600 funcionários, 146 pessoas morreram, 23 homens e 129 mulheres. Diante da fatalidade das trabalhadoras, o mês de Março ficou marcado na história como uma consciencialização do desastre.
Mas, e o 8 de Março?
Quando o mundo voltou os olhos para a Europa na Primeira Guerra Mundial, as mulheres aprofundaram a luta por direitos igualitários. Exaustas pela rotina dentro de casa e no trabalho, com uma (falta de) qualidade de vida subjugada pelo gênero e assolada pelos anos da guerra, um grupo de mulheres russas passou a questionar a sua função na nova sociedade que nascia em 1917, com a Revolução Russa. E elas colocaram esse questionamento em voz alta.
No dia 8 de Março de 1917, milhares de russas reuniram-se numa passeata pedindo o reconhecimento dos direitos das mulheres, bem como o fim da guerra e do desemprego. Assim, nos anos seguintes, o Dia das Mulheres continuou a ser celebrado naquela data pelo movimento socialista, na Rússia e nos demais países do bloco soviético.
No âmbito das lutas seculares das mulheres por dignidade e reconhecimento de direitos, é preciso lembrar as formas de resistência, activa e passiva contra o sistema escravista, a organização de fugas, os processos judiciais de alforria (para elas e para os filhos), a resistência quotidiana (incluindo estratégias de sabotagem do trabalho escravizado), e a preservação da identidade cultural. Em vários contextos, elas enfrentaram a dupla opressão (de género e de raça), elas lideraram a resistência cultural (manutenção de crenças e costumes), a resistência à desumanização, a busca pela liberdade de forma colectiva e individual. Nos vários contextos em que predominavam sistemas de escravidão, essas mulheres não apenas lutaram pela própria liberdade, mas sustentaram famílias e comunidades, construindo espaços de liberdade em ambientes de opressão.
Décadas mais tarde, a luta feminista seguiu activa, cada vez mais forte e presente: o direito ao voto consolidou-se, as leis foram sendo aprovadas e procurando adequar-se às reivindicações conquistadas. Mas foi só em 1975 que a ONU reconheceu a data como uma celebração dos direitos das Mulheres e estabeleceu, então, que o dia 8 de Março seria o Dia Internacional das Mulheres. Hoje, a data é comemorada em mais de 100 países como um momento dedicado à luta por direitos igualitários, para celebrar as conquistas, cobrar direitos e relembrar as mulheres que foram vítimas de violência
Importa sim lembrar e celebrar este dia e a sua importância histórica, porque levantou um problema que não foi resolvido até hoje. A desigualdade de género permanece. As condições de trabalho ainda são piores para as mulheres. Por isso, mais do que uma celebração, este deverá ser mais um dia de protesto contra a violência, a desigualdade de condições e de oportunidades para as mulheres, entre as quais a salarial, e a luta por direitos plenos. Porque, apesar dos avanços, a busca por igualdade real continua em mais de 100 países. Por essa razão, a CSI (Central Sindical Internacional) reafirma que o direito de acesso à justiça para as mulheres no mundo do trabalho não é negociável e está no centro das suas prioridades.
Saúde, cuidado e coragem para continuar a luta pelos direitos das mulheres em todas as dimensões da vida, garantir o acesso à justiça para todas as mulheres e meninas, e contra leis e práticas discriminatórias. Afinal, metade do mundo é de mulheres e a outra metade de filhos delas.
Kandando daqui.
- Legenda foto ao alto: No centro, Clara Josephine Zetkin (à esquerda) e Rosa Luxemburgo (à direita) em Janeiro de 1910











