
No calendário das Nações, o 08 de Março, consagrado como Dia Internacional da Mulher, não é apenas uma data simbólica. É memória de lutas, é celebração de conquistas e, sobretudo, é um apelo à responsabilidade histórica. Num mundo atravessado por crises múltiplas; económica, climática, moral, tecnológica e geopolítica, a mulher contemporânea surge não apenas como vítima das turbulências globais, mas como protagonista estratégica das soluções.
A crise global tem rosto. E, paradoxalmente, tem também mãos femininas que a sustentam e a enfrentam.
Em vários continentes, são as mulheres que suportam o peso da inflação alimentar, do desemprego estrutural e da precariedade social. São elas que reinventam as economias domésticas, que mantêm as famílias de pé quando os sistemas falham, que educam numa era de dispersão digital e que conciliam trabalho formal e informal com a gestão emocional dos lares.
Mas há algo novo no cenário contemporâneo: a mulher já não é apenas resistência silenciosa. Ela tornou-se voz activa, agente política, empreendedora, cientista, líder comunitária e diplomata informal nos bairros e nas nações.
No contexto africano, e particularmente em Angola, a mulher tem demonstrado uma capacidade singular de adaptação e liderança. A história do País, marcada pela luta de libertação, pelo conflito armado e pela reconstrução nacional, foi profundamente atravessada pela presença feminina.
Hoje, a mulher angolana está na “pole position” não por privilégio, mas por mérito histórico e resiliência estrutural.
Da quitandeira que sustenta a economia informal nas ruas de Luanda à académica que investiga soluções para o desenvolvimento sustentável; da camponesa que garante a segurança alimentar à jovem empreendedora digital que conquista mercados internacionais, há uma presença feminina decisiva na engrenagem nacional.
É impossível falar da reconstrução e da afirmação diplomática de Angola sem reconhecer o contributo feminino em múltiplas frentes, inclusive no plano continental, sob a égide da União Africana, onde mulheres africanas têm ocupado espaços estratégicos.
Nos últimos anos, figuras femininas angolanas têm alcançado projecção internacional, demonstrando que a competência não tem género. Recorde-se, por exemplo, o reconhecimento internacional atribuído à diplomata angolana Josefa Sacko, cuja actuação no sector agrícola africano reforça o papel estratégico da mulher na segurança alimentar do continente.
Contudo, celebrar conquistas não significa ignorar desafios. Persistem desigualdades salariais, limitações no acesso ao crédito, violência baseada no género e sub-representação em determinados centros de decisão. A “pole position” não é a linha de chegada; é a posição de arranque.
Num mundo cada vez mais moldado pela inteligência artificial e pela economia digital, a mulher contemporânea enfrenta o duplo desafio de inclusão tecnológica e liderança inovadora. Em Angola, cresce o número de mulheres envolvidas em projectos de transformação digital, educação tecnológica e empreendedorismo inovador.
Se o século XX foi o século da afirmação política da mulher, o século XXI será, inevitavelmente, o da sua consolidação tecnológica.
A crise global não é apenas uma ameaça; é também uma oportunidade de reconfiguração. E é aqui que a mulher angolana assume centralidade estratégica: pela sua capacidade de mediação social, pela inteligência emocional aplicada à liderança e pela visão comunitária que privilegia o colectivo sobre o individual.
Celebrar o 08 de Março não é apenas oferecer flores ou discursos protocolares. É repensar políticas públicas, é investir na educação feminina, é garantir protecção jurídica eficaz e é promover inclusão económica real.
A mulher angolana está na “pole position” porque aprendeu a correr em terrenos adversos. Corre contra a desigualdade, contra a precariedade e contra o preconceito, mas corre com dignidade, competência e visão. No decorrer do Congresso da OMA (Organização da Mulher Angolana/MPLA), assistimos uma cena que ficou em cada retina. Um abraço carinhoso entre a camarada Carlota Dias a nova secretária geral da OMA e mamã Antonieta Cesaltina Fragoso Kulanda da LIMA (Liga das Mulheres Angolanas/UNITA). Duas mulheres, dois partidos, mas uma Nação, um só Povo. Isto é prova de tolerância mesmo na diversidade. Viva a mulher angolana!
Num mundo em crise, talvez a solução não esteja apenas nos grandes fóruns internacionais ou nas cimeiras económicas. Talvez esteja na força silenciosa e estratégica das mulheres que, todos os dias, transformam dificuldades em possibilidades.
Neste 08 de Março, mais do que celebrar, é tempo de reconhecer:
- sem a mulher, não há reconstrução sustentável;
- sem a mulher, não há justiça social duradoura;
- sem a mulher, não há futuro.
E a angolana, tolerante, resiliente, criativa e determinada, já está na linha da frente.
Os votos de um final de semana cor de rosas, onde a dignidade e o empoderamento da mulher a escala mundial em geral, e a angolana em particular, são destacados. E, parafraseando a minha amiga, a escritora Rosária Celestino; “a vida é um milagre”, digo-eu; “a mulher angolana faz milagres”.
Kandandoooo!
*Menga-Ma-Kimfumu











