Salvar o Nacional Cine-Teatro?

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

Ao longo dos últimos trinta anos, tenho-me servido desta coluna para abordar os mais diversos assuntos. De um modo geral e não me lembrando de ter fugido, um dia que fosse, dessa tónica, tenho dado, na maneira muito minha de falar, a devida importância aos que dizem respeito ao país e a todos nós. Makas nossas, entenda-se.

Nessas incursões, tenho tocado essencialmente em assuntos delicados, intimamente ligados à sociedade angolana. Porque habituei-me a viver, a respirar Angola, a esperar por Angola. Em momentos próprios particularizei situações e vi-me tentado a falar de mim próprio, de coisas que vivi e me dizem ou disseram respeito. Houve sempre nestes nostálgicos relatos, uma natural tendência de fazer comparações entre o tempo bárbaro que havia passado e as barbaridades do tempo que fomos vivendo, então e agora.

Muito a propósito, estava eu aqui a divagar sobre o que escreveria esta semana e, naturalmente, constatei que me sentia vazio, sem ideias, perfeitamente acabrunhado. Confesso que era esse o meu estado de espírito. Já falei de tanta coisa que, agora, sinceramente, cheguei a um ponto em que não sei mais o que dizer. Afinal, quem mais vou criticar ou louvar? Falar por simples vontade de falar ou falar das incongruências da economia e da banca? Escrever com a mórbida intenção de magoar ou falar objectivamente sobre a saúde das pessoas e da sociedade civil? Mandar bocas sobre as assimetrias regionais? Falar do povo miserável e das suas necessidades? Do preconceito racial? Do oportunismo barato? Da ausência de coragem política dos que governam para colocarem em sentido uma sociedade rasca, literalmente transviada? Já bati nestes pontos, de um modo suave ou de modo mais agreste, algumas vezes até, com uma certa contundência. O que fazer então agora?

Eis que me chega ao telefone em modo mensageiro, milagrosa para mim, uma convocatória da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, em jeito de apelo veemente, sob o título “Salvemos o Nacional Cine-Teatro”. Outra vez? Pensei de imediato, e com alguma lógica e razão. Porque (vou recordar), nos primeiros anos da década de noventa do século passado, já eu liderava com toda a emoção essa gloriosa instituição cultural (sou o seu sócio fundador nº.1), já eu, com o apoio de um grupo de camaradas inesquecíveis, dinâmicos e lúcidos como poucos, tinha feito apelo semelhante. Criámos então, muito ad hoc, o Movimento de Salvação do Nacional Cine-Teatro. Os resultados para essa inusitada iniciativa foram os seguintes: para além de termos conseguido juntar em duas ou três reuniões, meia dúzia de pessoas interessadas, algumas delas mais dispostas a criticar do que a ajudar (há coisas que ficam para sempre, não se esquecem), sem ligações à nossa Associação, não foram mais que um anunciado e prévio fracasso.

Não foi o suficiente para nos sentirmos derrotados. Surgiram os associados da primeira hora que deram o seu tempo, as suas ideias e o seu dinheiro (não foi pouco) para recuperarmos com alguma dignidade a emblemática sala de espectáculos e a reputação da instituição já conseguida. Sejamos honestos, foi muito bonito, valeu a pena o esforço! Apesar do impacto e de todos os constrangimentos que estavam à mostra, o surgimento desse grupo inédito (democrático, inclusivo e defensor de uma sociedade civil justa e equilibrada), ficou atravessado na garganta das eminências pardas que conduziam o nosso futuro. Na sua opinião (mais de trinta anos consecutivos de opinião desfavorável) não devia ser apoiado oficialmente, um grupo com as nossas características (vide, entre outras, a luta travada para a obtenção da designação de entidade de utilidade pública). Tudo se fez (informações, recados, ameaças veladas) para que os apoios de empresas e organismos não chegassem aos renegados. Via-se como perigosa a existência de um grupo recheado de mulatos, brancos e negros diferentes, dos que usavam óculos, capaz, entre o mais, de mobilizar pessoas e de incentivar projectos culturais nas mais diversas vertentes do nosso vasto mosaico.

Não me vou pôr a relatar todas as realizações conseguidas pela Chá de Caxinde por Angola inteira e ao longo da sua existência (um caderno de 50 páginas não seria suficiente para as descrever) como também não perderei tempo a mencionar com detalhe as faltas de respeito, todos os truques utilizados para nos afastar da cena cultural angolana, até se chegar ao cúmulo do encerramento compulsivo da sala do Nacional Cine-Teatro, com base numa informação mal estruturada, desmentida categoricamente por factos realmente acontecidos. Com o apoio de uns certos vendilhões do templo a fazerem triste figura, encerrou-se ao público o Nacional Cine-Teatro. Na verdade, o edifício classificado como monumento histórico, de que fomos fiéis guardiães durante três décadas, ameaçado pela ruína segundo as autoridades competentes, afinal de contas, mantém-se de pé, prestes a ruir sim, mas por falta de utilização. Que vergonha!

Deixem entretanto, que vos diga, meus amigos. Foram trinta anos que nos orgulharam e que causaram horríveis dores e invejas sem limites aos declarados inimigos da cultura nacional.

Assim, ao deparar-me com este apelo da minha/nossa Associação, sou impelido a manifestar à sua actual direcção e a todos os seus corpos gerentes, a minha solidariedade e o meu desejo jamais negado de enfrentar quem quer que seja, alguém capaz de discutir com elegância este assunto que tem que ser devidamente esclarecido. 

Tenho para mim que não compete mais à Chá de Caxinde “salvar” o Nacional Cine-Teatro. Penso que é uma obrigação do Governo repará-lo, devolvê-lo à sociedade e reparar assim as injustiças praticadas contra a Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde e, consequentemente, contra o desenvolvimento da cultura nacional (há abundantes provas dessa e de outras situações), que não dignifica, de modo nenhum, os princípios de um governo que se afirma democrático e pugna pela implantação do Estado Democrático e de Direito.

Exija-se e crie-se, pois, um grupo de Salvação não apenas do Nacional Cine-Teatro, mas, principalmente, da cidadania e da dignidade dos cidadãos e da cultura angolana.

Deixando no ar a promessa de poder, a partir da próxima semana, trazer à lembrança dos associados e amigos da Chá de Caxinde, nem que seja apenas para chorar de saudade, momentos, actos e eventos realizados em várias ocasiões, fico com a esperança de ver surgir apoios, quaisquer que sejam. Os morais, também estimulam. Sendo tudo o que me apraz dizer a respeito, espero que surjam, de facto, esses apoios a favor dos anseios da minha/nossa Associação. Fico a aguardar pelos meus estimados amigos e leitores, companheiros de luta e adeptos da causa cultural angolana, no próximo domingo, à hora do matabicho.

Lisboa, 17 de Setembro de 2023

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