OS BRUTUS DAS DUAS TRINCHEIRAS POLÍTICAS ANGOLANAS: OPOSIÇÃO E PODER

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

Em Angola, a política às vezes parece um “reality show”: muitos protagonistas, pouca verdade e uma eliminação semanal chamada “credibilidade”. Poder e oposição acusam-se mutuamente de falhas que, no essencial, partilham. O problema já não é apenas de alternância. É de cultura política.

Dizem que na Roma antiga, o Brutus era o fulano que traiu o Julius Caesar com um punhal. Ele foi o símbolo da implosão interna. A queda não veio de fora, mas de dentro.  Em Angola, essa lógica deixou de ser episódio histórico para se tornar método político, transversal, quase institucional. Pois, a inovação foi levada mais longe: já não se utiliza o punhal, utiliza-se o sorriso, o abraço, selfie… e depois WhatsApp. Sim, porque o Brutus angolano evoluiu. Já não precisa de dizer “até tu”? Hoje diz “meu irmão, estamos juntos” enquanto ajusta a faca com a outra mão. 

Ali, a traição não é um acidente. É política pública não declarada.

A política angolana, hoje, não se divide apenas entre poder e oposição. Divide-se, sobretudo, entre narrativas públicas de lealdade e práticas privadas de sabotagem. E é nesse descompasso que prosperam os “Brutus modernos”, não como exceção moral, mas como peça funcional do sistema.

Na trincheira do poder, os Brutus não se apresentam como dissidentes. São elegantes. Usam fatos caros, discursos polidos e uma capacidade quase artística de dizer tudo sem dizer absolutamente nada. Apresentam-se como fieis. São patriotas de conferência, reformistas de PowerPoint e combatentes ferozes contra qualquer mudança que os obrigue a largar o conforto. Defendem o povo com a mesma intensidade com que defendem os seus privilégios. Porém, nos bastidores, operam com lógica própria: preservação de influência, acumulação de vantagens, neutralização de concorrentes internos.

Aqui, a traição não assume a forma de ruptura aberta, mas de erosão lenta. Não se destrói frontalmente, desgasta-se silenciosamente. Programas são anunciados com pompa e executados com tibieza. Reformas são prometidas, mas calibradas para não incomodar os equilíbrios internos. O resultado é um poder que se mantém, mas que raramente se transforma.

Os Brutus do poder não querem derrubar o sistema. Querem dominá-lo… sem o melhorar.

Já do outro lado na oposição, os Brutus são mais criativos. Não têm os meios do poder, então investem no talento natural: divisão interna. Se existirem dois líderes, surgem três facções. Se houver consenso, alguém organiza uma reunião urgente para o destruir. Eles são especialistas em autossabotagem, verdadeiros artistas do “quase lá”. Os Brutus da oposição não precisam de destruir os adversários. Basta impedir que os seus próprios campos se tornem alternativa viável.

A oposição angolana não precisa de inimigos. Ela produz os seus próprios, em série limitada, mas com reposição constante. A cada tentativa de consolidação, emerge uma nova cisão. A cada discurso de mudança, uma negociação subterrânea enfraquece a coerência. O eleitor observa, perplexo, uma oposição que denuncia a desorganização do poder… enquanto replica, em escala menor, as mesmas práticas que critica.

E depois, há aquele Brutus híbrido, o mais sofisticado de todos, que hoje é oposição, amanhã é poder, e depois de amanhã é analista político na televisão para explicar, com ar sério, por que razão Angola precisa de estabilidade… especialmente a dele.

Neste espaço, a coerência cede lugar à conveniência, e a memória política torna-se curta. A narrativa ajusta-se ao novo posicionamento, sem constrangimento. O discurso muda, o interesse permanece.

Ideologia? Flexível. Convicções? Ajustáveis. Lealdade? Em promoção.

Entre uma trincheira e outra, o povo assiste a este espetáculo tragicómico com uma mistura de resignação e humor involuntário. Porque em Angola, a política às vezes parece um “reality show”: muitos protagonistas, pouca verdade e uma eliminação semanal chamada “credibilidade”.

O mais curioso é que todos acusam todos de serem Brutus… e ninguém se reconhece ao espelho. É um campeonato nacional de traição onde todos jogam e ninguém perde, excepto o País.

Entretanto, as grandes questões continuam à espera: economia, educação, saúde, justiça. Mas essas não dão “likes”, não rendem intrigas e, pior ainda, exigem trabalho sério, algo claramente fora do guião.

O elemento mais preocupante não é a existência destes comportamentos, mas a sua normalização. A traição deixou de ser escândalo para se tornar expectativa. A incoerência deixou de ser desvio para ser estratégia. E a lealdade, quando aparece, é frequentemente vista como ingenuidade.

Angola encontra-se, assim, num impasse peculiar: poder e oposição acusam-se mutuamente de falhas que, no essencial, partilham. O problema já não é apenas de alternância. É de cultura política.

Enquanto os “Brutus” continuarem a prosperar em ambas as trincheiras, qualquer projecto colectivo estará condenado à fragilidade. Porque nenhuma estrutura resiste quando a sua maior ameaça não vem de fora, mas de dentro.

Talvez a verdadeira ruptura de que Angola precisa não seja ideológica, nem geracional, mas ética: a substituição da lógica da conveniência pela lógica da responsabilidade.

Até lá, o País continuará a assistir a este teatro recorrente, onde todos proclamam lealdade… e quase todos ensaiam a próxima traição. 

E, a cada um, seu Brutus! O meu é o bom vinho tinto do final de semana, que só me apunhala depois de ser consumido. A ver, vamos! 

*Menga-Ma-Kimfumu

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