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Regresso a Lisboa, onde o frio voltou a apertar. Termino a série “dia-a-dia na cidade”. Uma bela experiência. Contei oito crónicas, nos dois meses passados na bwala. Matei saudades, percorri a Luanda possível, abracei famíliares e amigos. Reginaldo, Matadi, Macau, Nando Barata, Pacheco, o meu barbeiro. Desconsegui de ir à praia, apesar da casa do Manuel Fragata e da Manuela Sande estar ali a dois passos. Mas ficaram a saber que aprecio mais as galinhas do seu aviário que o borrego assado ou estufado que não como.
Revi Calulo, onde ainda mora gente do meu tempo. Alguma conhece-me, pelo nome e pelo passado. Boas sensações, algumas nem tanto. Cheguei ao centro da Província. No Waku Kungo, vestígios da bajulação. Graxa do colono antigo da Cela. A igreja, cópia fiel da de Santa Comba Dão, a terra do ditador Salazar, é prova disso. Tivemos bons mestres, sem dúvida!
Olhei para a Fortaleza da Quibala. Permanecem uns resíduos, lá no alto da icónica pedra. Ruiu por ser do tempo do colono? Não me admira. Há gente que despreza velharias. Como ninguém chama à atenção, julgam que já não fazem falta nenhuma! Na Quibala, terra do confrade Reverendo Vinte e Cinco, não vi nada do Hotel Cunha, do avô do Oka, referência de outrora. Mas o jardim e o coreto estão no mesmo sítio. No mesmo lugar onde num domingo de festa ouvi pela primeira vez a Orquestra de mestre Luís Gomes Sambo. Os meus pais, a tia Margarida, a prima Lurdes Dinis, o Toneca e o Zé Campos, entre outros, dançavam no compasso duma marchinha, que falava de uma fita amarela.
Quando eu morrer, não quero choros nem velas
Quero uma fita amarela, gravada com o nome dela
Um tempo lindo! Bom para uns, ruim para muitos. Tal como agora, digam lá o que disserem! Um privilégio, ter vivido esse tempo. Vivência bem preenchida. Num tempo que me permite, ainda hoje, falar alto e subir. Não na vida, mas muitos degraus. Para visitar amigos que moram em prédios, como o Orlando Rodrigues e a Lena Cunha, ou para abraçar família. A prima Tina, está firme nos seus noventa e sete anos, só ouve com aparelho, mas está lúcida. Não esqueceu nada. Tenho a quem sair, felizmente. Pertenço a uma família de centenários. Os Calado são gente rara que encheu Angola, de Cabinda ao Cunene, mostrando a sua origem algarvia de Loulé, da Tuga!
O Rio Cavaco transbordou e a população de Benguela está mal. Desgraças e muitos óbitos. Foi espevitada a solidariedade, avaliam-se os que podem fazer alguma coisa. Mas para quê tapetes vermelhos? Que diabo! Vai longe essa bajulação, meus senhores! Coragem camarada Manuel Nunes Júnior. Benguela não merece isso, o senhor também não! Diz-se que outros sítios correm risco. O País está em perigo! Entretanto, Luanda, que em 1963, salvo erro, viu a sua baixa submersa, continua entupida. Esgotos, valas, lixeiras. Medidas, poucas ou nenhumas! As águas continuam paradas a receber toda a sorte de lixos e dejectos, muita porcaria onde elas deviam correr. Tomam-se outras medidas. Os largos e parques da cidade, voltam ao que eram. Acho bem, chega de abusos, mas deviam escolher alguns, por amor de Deus. Não tirem de onde está o “Prova d’Arte”. Há na cidade tão poucos locais de cultura, onde se produzem coisas boas! Não gastem tanto dinheiro em obras monumentais e desnecessárias. Evitem que se pergunte, mas que raio de ideias são essas?
Depois das homenagens, das bocas no Quintal do Dionísio, das alegrias vividas, dos abraços apertados e dos choros emotivos travados, veio a fase do D das dificuldades, iguais ou piores que as do tempo da Eugénia Barata e da Percy no “Prédio do Livro”. Três dias seguidos sem luz, é dose de leão. Fala-se que a carência se estica para o Bengo. Postes caídos, até parece que voltamos aos tempos do velho Jonas. Vade retro! No Cuanza Sul, por coisa nada a ver, mas semelhante na angústia provocada, fizeram-se mudanças nas chefias. E por falar em mudanças, reparem em certos técnicos da ENDE. Estão a precisar de mudança, apesar da competência de muitos. Há “meio-campistas”, que gostam de mais-valias. Aplicam truques, cavam buracos e puxam fios, e nada. Não há luz. São como os polícias que aguardam ansiosos os fins-de-semana e vésperas de prolongados, para caçarem os que se perdem em copos de farras e se esquecem que os bafómetros funcionam e espreitam. É justo que se defenda a cidade sem acidentes de trânsito, mas há limites para tudo, até para tratar dos bêbados. Vai ser tarefa difícil. É importante, mas há outras urgências, formas mais seguras de proteger a população.
Não consegui ir à festa dos setenta da Percy mas fui aos oitenta do Peco. Grande festa, a Santa, sempre impecável a receber, a família e os amigos felizes. Altos pitéus, meteu pagode e tudo. Infelizmente faltou o Galvão Branco, mas não faltou a Custódia com a sua voz linda e o seu assobio, que nem o do Sarrista. Onde andará o Sarrista? Belita, sabes onde ele para? Lá estiveram a Nela, a Nelinha, a Paula e o Carranca, também o Rodrigo e muitos, muitos outros.

Sou um atrevido. Ah! Como sou atrevido. Nas minhas andanças caxindenses, cheguei a escrever letra de música. Foi para “Os Unidos do Caxinde” desfilarem na Marginal. Com Ngola Ritmos e saudade. Um atrevimento, na opinião dos puristas do Carnaval de Luanda. Presunção e água benta… mas o Dionísio cantou:
Estamos aqui, Unidos Caxinde…
A malta fez côro
Estamos aqui…
Tanta saudade, meu Deus. Beto Gourgel chamado de Ngajeta, e a sua desilusão na hora da derrota injusta. Perdemos, pá! Olha a Luísa, a Idalina Costa, a Ratinha, o Mateus Pelé. Estamos velhos e cansados, mas o Amadeu Amorim é um caso sério de resistência. Lucidez no discurso, agilidade nas pernas, força nos braços para abraçar. E aquela lembrança da Casa dos Panfletos do Bê Ó que ninguém recorda mais! Parece em tudo o Eurico Pires, amigo de todas as horas. Os dois estiveram comigo em vários momentos. Por exemplo quando Ruy Mingas, então vice da Cultura, apresentou o meu “ABC do Bê Ó”. Mangalha meteu disco para convocar Mateus Pelé do Zangado com a sua dama. O ministro António Burity da Silva Neto exclamou, que grande passada! Antigamente havia tempo e respeito por essas manifestações. Hoje, por óbvias razões, por alegado progresso e resiliência, não se consegue estar em todas. Há lançamentos todos os dias, ou quase todos os dias. Mesmo não havendo dinheiro para se comprar livros. Atenção, o povo está mesmo muito mais pobre!
Lancei os meus dois últimos na União dos Escritores Angolanos. Estive bem acompanhado. Foi bom sentir o ambiente, os livros, os poetas, o envolvimento das pessoas, o espaço a relembrar o passado. Lá permanece o tapete de parede com Agostinho Neto a olhar silenciosamente. Faltou qualquer coisa, não sei bem o quê. Obrigado, David Capelenguela e sua equipa. No quintal, a minha árvore cresceu e está firme, ao lado das outras plantadas por confrades e confreiras. Contudo, a confraria não está bem. Está desunida. Seja o que Deus quiser!
Levo comigo um questionário de 20 perguntas difíceis. O Raimundo Salvador preparou uma entrevista. Verei se consigo responder quando chegar a Lisboa. Recordo agora com tristeza, o meu amigo Zeca Parra, médico ortopedista, angolano do Golungo Alto. Faleceu sem que eu contasse. Fica comigo a recordação de um homem bom, um patriota íntegro. Já sinto saudades dele e das suas sábias reflexões. As minhas sentidas condolências para a família!
Termino abraçando a Maravilha do Grupo de Carnaval e a Banda Maravilha, o Xa-Kimona, filho do meu amigo Zeca Agostinho, sentindo o calor do Prova d’Arte. Também Rui Pombo e a sua TOPSPOT. Impagáveis. O Certificado que ambos subscreveram mais a oferta de um novo mapa de Angola artesanal são provas de amizade e respeito. A Chá de Caxinde e os associados recebem aqui o meu agradecimento pelo que conseguiram fazer.
Para a semana voltarei, mas a falar noutro tom. O tempo exige que falemos diferente e que, sobretudo, que não fiquemos calados. Despeço-me dos meus leitores, dos amigos, camaradas e dos companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.
Luanda, 19 de Abril de 2026











