O CACHIMBO DA UTOPIA

A verdadeira utopia não é acreditar que Angola pode ser melhor. Essa é uma esperança legítima. A verdadeira utopia é acreditar que Angola mudará sem que cada cidadão mude também a sua forma de participar, fiscalizar, exigir e servir.

POR CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

Há quem diga que o angolano fuma muito. Não necessariamente o tabaco. Fuma a esperança. Fuma as promessas. Fuma os discursos. Fuma as inaugurações que acabam antes da fita ser cortada. Fuma as estatísticas que só existem nos relatórios. E, sobretudo, fuma o velho e gasto cachimbo da utopia.

É um cachimbo especial. Não se compra no Quicolo, nem no Asa Branca, nem no São Paulo. Passa de mão em mão nos gabinetes refrigerados, nos comícios, nas mesas-redondas, nos programas televisivos e, por fim, chega ao cidadão comum, que, já cansado, dá mais uma passa e acredita que “agora é que vai”.

Assim nasceu um novo costume nacional: viver da próxima promessa.

Na Mutamba, o taxista suspira: “Meu kota, aguenta só mais um bocadinho…”. No Panguila, a zungueira responde: “Já estamos habituados”. No Huambo, o camponês continua à espera da estrada prometida. No Moxico, espera-se pela energia. No Cunene, espera-se pela água. Em Cabinda, espera-se por um diálogo mais profundo. No Uíge, espera-se pela industrialização. No Cuando Cubango, espera-se pelo desenvolvimento. Em Luanda… espera-se que o trânsito acabe antes da reforma. Espera-se tudo…

A utopia deixou de ser um sonho inspirador. Transformou-se num modo de governação e, pior ainda, num modo de sobrevivência.

A política transformou-se, demasiadas vezes, numa fábrica de expectativas. A economia produz riqueza, mas nem sempre consegue distribuí-la de forma suficientemente ampla. A juventude, rica em talento, continua frequentemente à procura de oportunidades. O diploma tornou-se um bilhete para uma longa fila de espera.

Enquanto isso, o cidadão vai aprendendo um novo provérbio angolano: “Quem espera… espera mais um mandato”.

O mais preocupante, porém, não é apenas a situação política ou económica. É a erosão moral.

Quando a mentira começa a ser vista como estratégia. Quando a corrupção deixa de escandalizar. Quando o compadrio substitui o mérito. Quando o silêncio passa a ser confundido com a sabedoria. Quando o oportunismo recebe medalhas e a competência pede autorização para entrar. Quando já ninguém pergunta “é correcto?”, mas apenas “quem é o padrinho”?

É aí que o cachimbo da utopia produz o seu efeito mais perigoso: anestesia a consciência.

Depois chega a crise espiritual. As igrejas enchem. As redes sociais fervilham. As campanhas multiplicam-se. Mas continuam a faltar justiça, solidariedade, perdão, humildade, ética e responsabilidade.

Ora-se muito. Mas escuta-se pouco. Canta-se muito. Mas pratica-se pouco. E um país não se reconstrói apenas com orações; reconstrói-se com consciência, trabalho, honestidade e compromisso.

O povo angolano não é pobre de inteligência. Nunca foi. É um povo criativo, resiliente, trabalhador e capaz de transformar as dificuldades em oportunidades.

Foi assim durante a luta de libertação. Foi assim durante a reconstrução. E continua a sê-lo todos os dias, quando uma mãe consegue alimentar cinco filhos com um orçamento que desafia qualquer economista.

O problema nunca foi a capacidade do povo. O problema é quando a utopia substitui o planeamento, quando o discurso ocupa o lugar da execução e quando a propaganda tenta fazer o trabalho das políticas públicas.

Chegou a hora de pousar o cachimbo. Respirar o ar fresco. Trocar a ilusão pela visão. Trocar as promessas por resultados. Trocar os favoritismos por competência. Trocar a cultura do improviso pela cultura da responsabilidade.

Os grandes antidotos para Angola não são secretos. São antigos, mas continuam actuais: educação de qualidade; instituições fortes e independentes; justiça célere e imparcial; combate efectivo à corrupção; valorização do mérito; diversificação da economia; apoio sério à agricultura e à indústria; investimento consistente na juventude;

ética na política; espiritualidade acompanhada de responsabilidade social.

Nenhuma destas medidas produz milagres de um dia para o outro. Mas todas produzem futuro.

A verdadeira utopia não é acreditar que Angola pode ser melhor. Essa é uma esperança legítima. A verdadeira utopia é acreditar que Angola mudará sem que cada cidadão mude também a sua forma de participar, fiscalizar, exigir e servir.

O país não pertence apenas aos governantes. Pertence igualmente aos governados. Porque um líder sem cidadãos conscientes torna-se facilmente um chefe. E um povo que delega completamente o seu destino acaba por fumar, eternamente, o cachimbo da utopia.

Que chegue o dia em que esse cachimbo seja colocado num museu da nossa História. Não como símbolo dos sonhos perdidos. Mas como lembrança de um tempo em que Angola decidiu trocar a fumaça pela realidade.

E, eu já jurei que não aceitarei pertencer a geração da utopia. Pois, sou da geração dos que perseguem o sonho. Por isso, digo: Amém

Bom final de semana gente.

*Menga-Ma-Kimfumu

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