
Como é de praxe, publico as minhas crónicas no sábado, aproveitando o sossego do fim de semana. E, juro que ganhei o hábito. Todavia, aprendi que “o hábito faz o ladrão”… Essa expressão popular tem aquele veneno doce de quem já viu muita coisa e aprendeu a rir para não engolir o sapo. O hábito faz o ladrão. Sim senhora! E, o hábito faz de mim um candongueiro de palavras. Pois, fui obrigado a escrever a presente crónica fora do contexto, numa segunda-feira, dia 1 de Junho, por ser o famoso Dia Internacional dos Kandengues e, além disso, o meu mês natalício. Pois, nasci num certo dia 16 de Junho.
Junho chegou outra vez, malembe malembe, como candongueiro sem travão na hora do calor. E logo o País inteiro virou “especialista em criança”, como se durante o resto do ano a infância fosse um boato. Aí aparecem os mesmos figurões de sempre: o “Doutor Discurso”, o “Engenheiro Promessa” e o “Deputado Fotogénico”, todos alinhados com sorriso de catálogo, a dizer que “a criança é prioridade”. Prioridade de quê? Isso já ninguém explica, mas soa bonito no microfone.
No bairro do Kaputo, o tio Zé Kizomba do Asfalto já sabe como a coisa funciona: “ah, chegou Junho… vai ter sumo e pão doce, depois Julho já voltamos ao pão seco com chá de nada”. Ele até brinca: “isso é tipo aluguer de alegria por 30 dias, depois vence o contrato”.
Na escola primária 14 de “Promessas Renovadas”, a professora Tia Benvinda ‘Chalk Power’ tenta ensinar matemática numa sala onde o quadro parece mapa do deserto do Namibe. Mesmo assim, o Ministério manda visita em Junho, tira foto, abana cabeça e diz: “excelentes condições!”, com ar de quem nunca sentou numa carteira partida.
Enquanto isso, os miúdos do bairro continuam no modo sobrevivência criativa: bola feita de meias, chinelo rasgado como chuteira profissional, e talento nível Champions League… mas só até a chuva chegar e transformar o campo em piscina olímpica sem medalhas.
E não falta o “evento oficial”. No salão municipal, o soba urbano “Doutor Beleza Social” organiza festa: balões, refrigerante quente e música alta do kuduro institucional. Ele fala alto no microfone: “As crianças são o futuro”!
E o miúdo Quim do Areal, que estava lá atrás a tentar apanhar um pacote de bolacha, responde baixinho: “Tio, mas o futuro come o quê hoje”? Silêncio. Mas silêncio de discurso, não de resposta.
No bairro da Palanca, a senhora Dona Matondo ‘Guerra do Mercado’ resume tudo enquanto vende tomate: “Esses Junho aí são bons… o problema é que acaba o mês, acaba o amor também. Amor de governo é tipo recarga: só dura enquanto há saldo de campanha”.
No fim, Junho passa rápido. Mais rápido que orçamento de projecto. E assim, mais um Junho vai passar na mesma toada de sempre: festa na superfície, poeira na base, promessa no ar e realidade no chão. Os meninos continuam ali, à volta da fogueira, ora a rir, ora a aprender cedo demais aquilo que nenhum adulto devia normalizar.
Mas o mais estranho, e talvez o mais angolano de tudo isto, é que essa fogueira não apaga. Já se tentou vento de discurso, balde de promessa, chuva de campanha, e até água de conferência internacional… mas nada. Ela não morre. Só muda de cor.
E no meio dessa chama teimosa, há uma esperança que já anda cansada, quase a dormir em pé, com os olhos meio fechados, mas ainda a respirar. Uma esperança moribunda, sim, daquelas que já viu muita coisa, já acreditou demais, já se desiludiu várias vezes… mas ainda insiste em não se deitar totalmente.
E, voltando ao papel do “candongueiro da palavras”, esse tipo de pessoa que não tem diploma de opinião, mas tem matrícula na vida real. Ele escreve com tinta de esquina, revisa com conversa de mercado e publica no grupo do bairro antes mesmo de pensar em editor.
E no meio disso tudo, vai sobrevivendo: rindo do que dói, exagerando o que já é exagerado por natureza, e tentando não perder a sanidade num País onde até a confusão tem estatuto próprio.
Porque no fim das contas, se o hábito faz o ladrão, o nosso hábito faz outra coisa bem mais perigosa: faz memória. E memória, quando bem temperada com humor, vira crónica, dessas que ninguém pede, mas toda a gente reconhece.
Enfim… no fundo, mesmo quando tudo parece repetição, ainda há um miúdo qualquer que continua a sonhar que um dia a fogueira vai virar lareira de casa boa, com comida certa, escola firme e futuro sem gambiarras.
Só que, até lá… a fogueira continua lá, teimosa, como político em campanha: promete apagar-se, mas volta sempre a acender no dia seguinte.
Bem-haja a criança angolana!
*Menfa-Ma-Kimfumu











