LADIES FIRST NO LIBOLO: UMA LIÇÃO DE IGUALDADE NO CORAÇÃO DE ANGOLA

POR: LÁZARO CÁRDENAS

A educação, quando exercida com convicção, transforma não só os estudantes, mas também quem ensina. Justiça, igualdade e educação caminham juntas, mesmo nos lugares mais remotos, quando existe vontade real de as tornar realidade.

Cheguei ao Libolo (Calulo), uma pequena povoação rural situada no interior profundo da província do Cuanza-Sul (Angola), no início de Fevereiro de 2018. Tratava-se de um território historicamente relegado, isolado por vias de acesso degradadas e pela distância que o separa do litoral privilegiado, onde se concentram a capital provincial, a cidade do Sumbe, e a maioria das instituições de ensino superior. Nesse contexto, a criação do Instituto Superior Politécnico do Libolo, não foi apenas um projecto académico: foi um acto de justiça social, uma aposta consciente em levar o ensino superior a um território, que durante décadas fora esquecido.

No início de Março, contra todos os prognósticos, já se tinha concretizado aquilo que muitos chamavam de milagre: o Instituto abriu as suas portas e as aulas começaram. O mais notável é que, desde o primeiro momento, poucos acreditaram na viabilidade do projecto. Mesmo pessoas amigas, bem-intencionadas e movidas por afecto sincero, davam-no como perdido. Não falo sequer dos inimigos habituais, que viam em cada iniciativa, uma oportunidade para semear dúvidas ou desejar o fracasso.

No entanto, a visão que sustentava aquele centro era mais forte do que todo o cepticismo. E ela nasceu do confronto directo com a realidade concreta da região, onde se revelou, com profundidade humana, política e social, o pensamento de quem idealizou o projecto.

Inicialmente, fui contratado como secretário-geral, responsável pela estrutura administrativa. Contudo, a realidade do local — o isolamento, o meio rural envolvente e a escassez de docentes dispostos a permanecer ali — levou-me a retomar a minha antiga vocação docente. Anos antes, havia leccionado no Centro de Preparação de Especialistas da Força Aérea, no meu país, e formado doutorandos estrangeiros em língua espanhola. Essa experiência permitiu-me assumir, com responsabilidade, as disciplinas de Filosofia, Lógica, História de África e História de Angola.

Foi nesse processo que me deparei com um fenómeno que me marcou profundamente: um machismo enraizado, visível em gestos quotidianos e percebido como parte natural da ordem social. Observava-o na sala de aulas, nos corredores e, de forma particularmente evidente, na cantina. As estudantes, mesmo chegando primeiro, eram empurradas para o fim da fila pelos colegas do sexo masculino. Ninguém questionava tal prática; estava normalizada, aceite e transmitida de geração em geração.

Um dia, decidi intervir. Cheguei à cantina à hora do lanche e, mais uma vez, assisti à mesma cena. Sem fazer anúncio prévio, dirigi-me ao fundo da fila, onde as alunas aguardavam resignadas. Pedi-lhes que me acompanhassem e conduzi-as até ao início da fila dos rapazes. Em voz suficientemente alta para que todos ouvissem, proferi uma frase escolhida intencionalmente em inglês, para maior impacto: Ladies First. Acrescentei que, a partir daquele momento, em todas as filas da instituição — para o lanche, o almoço, o teatro ou qualquer outra actividade — as senhoras teriam prioridade.

Durante toda essa semana, acompanhei pessoalmente o cumprimento da nova norma. Em paralelo, convoquei a direcção da Associação de Estudantes. Inicialmente, os membros masculinos mostraram resistência e falta de apoio. Contudo, o diálogo persistente, a firmeza e o respeito abriram caminho à reflexão. Preparei palestras sobre cavalheirismo, respeito e o papel essencial da mulher na sociedade angolana e no mundo. Gradualmente, a prática deixou de ser imposição e passou a ser hábito, assumido pela comunidade estudantil.

Ao viver essas experiências, compreendi que a igualdade não se ensina apenas nas salas de aula: constrói-se no quotidiano, nos gestos simples, nas decisões aparentemente pequenas que, no entanto, transformam mentalidades. Compreendi também, que a educação, quando exercida com convicção, transforma não só os estudantes, mas também quem ensina. E percebi, com a clareza que só a vivência proporciona, a verdadeira dimensão do projecto que levou o ensino superior ao coração de Angola. Não se tratava de um acto administrativo nem de um gesto político circunstancial, mas de uma aposta firme na dignidade humana.

Anos depois, muitos daqueles jovens — homens e mulheres, hoje profissionais em diversas áreas — continuam a escrever-me. As suas mensagens começam ou terminam, quase sempre, com as mesmas palavras que marcaram um antes e um depois na sua formação: Ladies First.

Para mim, a experiência do Libolo permanece como uma das lições mais profundas e significativas da minha vida. Não apenas pelo que ensinei, mas, sobretudo, pelo que aprendi: que justiça, igualdade e educação caminham juntas, mesmo nos lugares mais remotos, quando existe vontade real de as tornar realidade.

Resta-me apenas uma nota final. Ao longo deste texto, optei conscientemente por não mencionar o nome da pessoa que teve a iniciativa e tomou a decisão de criar o Instituto Superior Politécnico do Libolo. Não foi omissão, nem esquecimento. Muitos foram — amigos, inimigos e adversários — os que anunciaram publicamente o fracasso inevitável do ISPTLO. A realidade, porém, impôs-se: a instituição existe, consolidou-se e é hoje uma fonte efectiva de quadros para o mercado angolano, motivo legítimo de orgulho. Quem conhece a terra que o viu nascer, quem compreende o alcance dessa decisão e quem acompanha o país de Cabinda ao Cunene, do mar ao Leste, sabe exactamente a quem me refiro. Direi apenas duas letras, suficientes para que não haja dúvidas: HCE.

Força aí!

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