
O futebol angolano merece mais. Merece profissionalismo, responsabilidade institucional e, sobretudo, liderança à altura da sua história e do entusiasmo dos seus adeptos.
A Federação Angolana de Futebol (FAF) atravessa um dos momentos mais preocupantes da sua gestão recente. O fraco desempenho administrativo e comunicacional tornou-se cada vez mais evidente, enquanto a direcção do futebol nacional parece avançar aos tropeços, reflexo preocupante de desorganização institucional.
A decisão de afastar os Palancas Negras da última Data FIFA está a ser justificada com um argumento pouco convincente, relacionado com a guerra no Médio Oriente. A explicação surgiu envolta num alegado “dossiê ultra-secreto”, uma narrativa que, longe de esclarecer, apenas aumentou as dúvidas e alimentou a desconfiança entre adeptos, analistas e observadores do futebol nacional.
Num contexto em que a transparência é essencial, a comunicação institucional da FAF tem sido, no mínimo, insuficiente. O silêncio prolongado, aliado a justificações vagas e contraditórias, contribui para um clima de incerteza que fragiliza a credibilidade da instituição.
Desde que o comissário da polícia, Alves Simões, assumiu a liderança da Federação, a gestão da selecção nacional tem revelado sinais de regressão. Liderar uma federação de futebol exige visão estratégica, diálogo permanente com os adeptos e clareza institucional. Não se trata de comandar uma parada policial, mas de gerir um dos principais patrimónios desportivos do país.
Os episódios recentes reforçam essa percepção de instabilidade. A demissão de Pedro Gonçalves, a apenas dois meses do Campeonato Africano das Nações (CAN), surpreendeu muitos sectores do futebol angolano. Para o seu lugar foi nomeado Patrice Beaumelle, num contrato que rapidamente gerou críticas, por, alegadamente, não salvaguardar plenamente os interesses da Federação e incluir cláusulas de confidencialidade pouco habituais para este tipo de vínculo.
No CAN, Angola teve uma prestação decepcionante, sendo eliminada ainda na fase de grupos, com apenas dois pontos somados. Apesar do resultado modesto, Alves Simões assegurou publicamente que Beaumelle teria um papel central no desenvolvimento do futebol angolano, envolvendo-se não apenas na selecção principal, mas também na estruturação das camadas de formação e na futura liga profissional.
Contudo, a sequência de acontecimentos que se seguiu expôs novamente fragilidades na gestão federativa. A FAF anunciou um estágio da selecção nacional destinado a permitir que o treinador observasse jogadores do Girabola. Apenas 48 horas depois, a federação recuou na decisão, justificando, em comunicado, que o seleccionador se encontrava na Europa a cumprir agendas ligadas à selecção.
Três dias mais tarde, veio a confirmação de um desfecho inesperado: Patrice Beaumelle rescindiu contrato com a FAF e assinou pelo Espérance de Tunis, sem qualquer compensação financeira conhecida para a Federação. Um episódio que levantou sérias interrogações sobre os termos contratuais e a capacidade de negociação da instituição.
A situação actual é reveladora da instabilidade que marca este início de ciclo. Angola encontra-se há cerca de um mês sem seleccionador nacional e, paradoxalmente, não terá jogos na próxima Data FIFA após o CAN.
Enquanto isso, a FAF continua a ser alvo de críticas pela falta de transparência e pela sucessão de comunicados contraditórios que apenas ampliam as dúvidas.
Para os adeptos e amantes do futebol angolano, o início desta liderança tem sido tudo menos tranquilizador. Até agora, o que se observa é um cenário marcado por decisões pouco claras, gestão instável e comunicação deficitária.
O futebol angolano merece mais. Merece profissionalismo, responsabilidade institucional e, sobretudo, liderança à altura da sua história e do entusiasmo dos seus adeptos.










