
Para garantir que a transição económica ocorra sem sobressaltos políticos, o regime apertou a repressão. O espaço cívico foi blindado: a censura na internet aumentou e a perseguição já não vai só aos dissidentes históricos, mas também a jovens criadores de conteúdo digital e às famílias, usados como reféns políticos pela Segurança do Estado.
Recentemente, as agências de notícias internacionais correram para cobrir a visita do secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, e do chefe do Comando Sul (SOUTHCOM), general Francis Donovan, à Base Naval de Guantánamo. O frenesim mediático habitual ressuscitou os velhos fantasmas da “variante armada” e de um confronto militar iminente nas Caraíbas. No entanto, para os analistas atentos ao jogo da geopolítica económica, essa movimentação de tropas não passa de uma cortina de fumaça. Enquanto o mundo olha para as fardas e para as baionetas em Guantánamo, a verdadeira “invasão” de Cuba está a ser assinada em gabinetes com ar condicionado, usando ordens executivas, algoritmos financeiros e fundos de investimento baseados no Texas e em Wall Street.
O exemplo mais forte desta nova era de guerra jurídica e financeira aconteceu em Maio de 2026, com a empresa canadiana Sherritt International, mostrando uma estratégia assustadora: asfixia regulatória e cerco militar psicológico para forçar a transferência de activos estratégicos soberanos para mãos norte-americanas.
O Caso Sherritt e a dança dos Porta-Aviões
A Sherritt International, que trabalhava há mais de 30 anos na extração de níquel e cobalto na mina de Moa (Holguín) em parceria com o Estado cubano, viu tudo desabar a 1 de Maio de 2026, quando a administração de Donald Trump alargou as sanções secundárias e apertou o bloqueio de combustíveis. Bloqueada no acesso ao sistema bancário internacional e sufocada por um colapso logístico, a empresa canadiana anunciou a suspensão das operações e a intenção de encerrar os negócios na ilha.
O colapso foi acompanhado de exibição de força: envio do porta-aviões nuclear USS Nimitz (CVN 68) e do seu grupo de ataque (incluindo o contratorpedeiro USS Gridley e a Ala Aérea Embarcada 17) para o Mar das Caraíbas, juntando-se aos blindados da 24.ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais (MEU). Depois de criar pânico financeiro na ilha, o USS Nimitz iniciou a retirada, em meados de Junho, atracando na Base Naval de Mayport, na Flórida, a caminho de Norfolk, Virgínia, para desmantelamento.
Por que recuar os navios? Porque o verdadeiro “salvador” já estava em cena: a Gillon Capital LLC, um escritório de investimentos de Dallas liderado por Ray Washburne — ex-chefe da Corporação de Investimentos Privados no Exterior (OPIC) de Trump e membro do Conselho Consultivo de Inteligência da Casa Branca.
Através de um acordo preliminar, a Gillon Capital propôs comprar 55% das ações da Sherritt a preço de saldo. O detalhe mais revelador? Os departamentos de Estado e do Tesouro dos EUA apressaram-se a dizer que “não se opunham” à negociação. Ao transformar a Sherritt numa empresa de capital maioritariamente americano, a Casa Branca abre caminho para que a OFAC (Gabinete de Controlo de Activos Estrangeiros) emita licença especial para operar em Cuba. É colonialismo corporativo disfarçado de negócio.
Das desistências hoteleiras ao xadrez da Sonangol e Elon Musk
Este modelo de “asfixia, ameaça e substituição” não se limita à mineração e explica o que muitos viram como “retirada por derrota” de outros investidores estrangeiros:
O Sector Turístico e os Hotéis Espanhóis: Grandes cadeias hoteleiras espanholas (como a Meliá ou a Iberostar), sob pressão constante do Título III da Lei Helms-Burton e das restrições de voos, têm reduzido a presença em Cuba, mostrando perdas na superfície. Nos bastidores, fundos de investimento com capitais norte-americanos camuflados esperam o momento exacto do colapso para comprar essas infraestruturas turísticas a preço de saldo.
A Conexão Angolana (Sonangol): Até interesses de África estão nesta rota. A petrolífera estatal angolana, Sonangol, que sempre manteve investimentos e cooperação na exploração petrolífera e refinação em Cuba, enfrenta o mesmo problema de conformidade bancária imposto pelo dólar. A pressão americana quer travar a cooperação Sul-Sul, para que o controlo energético da ilha passe depois para empresas americanas, usando licenças específicas como já fazem com a Chevron na Venezuela.
O Factor Elon Musk e as Terras Raras: No século XXI a corrida não é só pelo petróleo, mas pela transição energética. O níquel e o cobalto cubanos são chave para baterias de carros elétricos. Elon Musk, dono da Tesla e conselheiro próximo da actual administração de Washington, está de olho nestes recursos. Vale lembrar que Musk já mostrava interesse na região, quando integrou a comitiva de empresários que acompanhou o Presidente Barack Obama na visita histórica a Cuba. O que Obama tentou abrir com diplomacia, a administração actual está a tirar à força através do colapso financeiro.
O factor eleitoral: O teatro das “Operações Relâmpago”
Se a invasão militar total está fora de questão pelo custo e destruição, por que Washington mantém a retórica agressiva? A resposta está nas eleições de meio de mandato nos EUA.
Para garantir o voto da forte comunidade cubano-americana na Flórida, a administração Trump precisa de “espetáculo”. Daí o risco real de uma acção militar cirúrgica curta — operação relâmpago de forças especiais, para capturar e levar um alto dirigente cubano para julgamento nos EUA, imitando o que fizeram com lideranças na Venezuela.
Muitos analistas em Miami apontam o general de Exército Raúl Castro, recentemente indiciado pelo Departamento de Justiça dos EUA pelo derrube de aviões civis em 1996. Mas a tese falha na tática. Pela idade avançada (95 anos) e saúde frágil, o risco biológico e político de uma extração contra Raúl Castro seria contraproducente: a morte dele em custódia ou na operação transformá-lo-ia em mártir, unindo o povo cubano e criando uma crise diplomática internacional que destruiria as chances eleitorais dos Republicanos. Se houver extração, será de figuras mais jovens da inteligência ou do governo actual, cujo julgamento nos EUA possa virar um reality show político antes das eleições.
O factor humano: Entre o desespero das ruas e o “mais do mesmo” de Díaz-Canel
Enquanto os estrategistas em Washington e os burocratas em Havana mexem os peões, quem paga a conta mais alta é sempre o povo cubano. A vida diária na ilha virou sobrevivência extrema, com apagões longos, falta grave de comida e inflação que empurrou mais de 10% da população para a migração nos últimos anos.
Para travar o colapso e responder à onda de protestos e panelaços que sacudiram bairros desde Arroyo Naranjo até à província de Ciego de Ávila, o Presidente Miguel Díaz-Canel aprovou um pacote de emergência com 176 medidas económicas. O plano autoriza pela primeira vez bancos privados a criação de empresas por acções, tentando imitar o modelo de mercado controlado de Pequim ou Hanói. Mas para a maioria dos analistas e para o cidadão comum, são o “mais do mesmo”: manobra tardia que não resolve a fome imediata nem a falta de energia, servindo apenas para legalizar a elite empresarial local e facilitar a fusão com novos capitais estrangeiros com aprovação da OFAC.
Para garantir que a transição económica ocorra sem sobressaltos políticos, o regime apertou a repressão. O espaço cívico foi blindado: a censura na internet aumentou e a perseguição já não vai só aos dissidentes históricos, mas também a jovens criadores de conteúdo digital e às famílias, usados como reféns políticos pela Segurança do Estado. É o paradoxo de Cuba hoje: abertura forçada ao grande capital privado ao mesmo tempo que esmagam as liberdades individuais.
Conclusão: Adeus às armas, bem-vindo ao capitalismo predatório
A ideia de que os EUA planeiam uma intervenção militar tradicional em Cuba está ultrapassada. O Pentágono sabe que guerra destruiria os recursos que querem controlar. A estratégia actual é mais limpa para Washington: usar o Pentágono e o USS Nimitz para assustar, desvalorizar a moeda e os activos da ilha com sanções, forçando parceiros internacionais (canadianos, espanhóis ou angolanos) a cederem aos fundos de investimento norte-americanos.
Em 2026, as fronteiras da influência já não se mudam com tanques em Guantánamo, mas com assinaturas de ordens executivas que transformam recursos soberanos em propriedade privada de Wall Street, enquanto encenam pequenas operações de Hollywood para ganhar votos na Flórida.
Luanda, Junho de 2026
Fontes seguras e credíveis:
1. Navy Times / U.S. Southern Command (SOUTHCOM): “USS Nimitz arrives in Caribbean as US-Cuba tension mounts” (Maio de 2026). Detalhes sobre implantação do grupo de ataque CVN 68 e movimentação para Base Naval de Mayport.
2. Associated Press (AP News): “Sherritt agrees to sell stake in Cuba mining business to company linked to former Trump adviser” (Maio de 2026). Acordo com Gillon Capital de Ray Washburne e indiciamento de Raúl Castro.
3. Center for Strategic and International Studies (CSIS): “The Next Caribbean Crisis? Assessing U.S. Military Options Toward Cuba” (Junho de 2026). Cenários de pressão por bloqueio de combustível e sobrevoos de inteligência.
4. Americas Quarterly: “Cuba’s Crisis: Four Near-Term Scenarios” (Junho de 2026). Visitas de Pete Hegseth e General Francis Donovan a Guantánamo e uso de pressão limitada para fins políticos.
5. U.S.-Cuba Trade and6 Economic Council (CubaTrade.org): Relatórios sobre impacto do Título III da Lei Helms-Burton em empresas espanholas e angolanas em Cuba (2025-2026).
6. Revista Jacobin: “The Imperial Plunder of Cuba Has Begun” (Junho de 2026). Análise sobre guerra regulatória no caso Sherritt e Gillon Capital.










