
RECADOS DA CESALTINA ABREU (14)
“Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara” — Saramago
Em Ensaio sobre a Cegueira (1995), ensaio-metáfora sobre a nossa contemporaneidade, — de leitura obrigatória devido à sua gritante intemporalidade —, a primeira frase que José Saramago (-2010) escreve é: “Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara”, em jeito de aviso aos que têm a responsabilidade de ter olhos, e ver, quando os outros os perderam.
O verdadeiro significado da frase está associado com o tema do livro: a intenção da metáfora é demonstrar que a cegueira é a condição natural do ser humano contemporâneo. A metáfora ‘cegueira branca’ é usada para expor, como seria um mundo de cegos, onde não se respeitam os direitos e as garantias fundamentais, o que provoca o declínio do Estado Democrático de Direito e o retorno do ser humano a um estágio primitivo.
Saramago traça um retrato do desmoronar da sociedade, causado pela cegueira que, aos poucos, assola o mundo, reduzindo-o ao obscurantismo de meros seres extasiados na busca incessante pelo poder. Tudo é descartável e, nas relações com o colectivo, o indivíduo não ‘vê’ o outro. Por analogia, a epidemia apresentada pode ser definida como uma epidemia de ‘cegueira moral’: a sobrevivência individual é o que mais importa para os cegos.
No livro, um habitante de uma grande metrópole, que conduzia um carro e estava parado num semáforo, fica cego repentinamente. É o primeiro caso da “treva branca” que depressa se espalhou, cegando um por um os habitantes da grande cidade. Uma espécie de pandemia. Diante dessa situação, as autoridades colocam as pessoas “em quarentena” num manicómio, para evitar o contágio. Isolados, os que vão ficando cegos tornam-se párias sociais, prisioneiros que tateiam um caminho sem fim e sem futuro. ‘Guardados’ em quarentena, os cegos percebem-se reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem ‘às trevas’.
A narrativa do ensaio mostra que tudo que ocorre no manicómio transcorre diariamente nas nossas sociedades e que, em geral, passa desapercebido, e/ou as pessoas não veem o que acontece, se fazendo de cegas.
O autor traduziu, em palavras, a sua visão de tempos sombrios, em que as condições de produção de desumanidade não param de se reproduzir, num cenário mais amplo de uma igualdade jurídica, convivendo com uma escancarada desigualdade económica e social, e em que o crescimento do capital é acompanhado da crescente pauperização relactiva dos trabalhadores.
O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia do autor para nos lembrar “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. A impossibilidade de as pessoas conseguirem reparar e apreciar a essência do que as rodeia, acontece por estarem sempre atarefadas, no corre-corre diário, mas também por estarem acostumadas a passar por aqueles lugares, viverem naquela cidade, por isso já não lhes dão o devido valor. É um retrato das sociedades contemporâneas, dos efeitos da falta de empatia num ambiente de exacerbado individualismo que resulta na desumanização de parte significativa dos seus habitantes.
Nesta 5.ª feira, saúde, cuidados e coragem para ‘continuar a ver’ mais que olhar, reparar no/a outro/a, contribuindo para que o ser humano se humanize de novo. “Aprender a ler o que um olhar diz, é alfabetizar sentimentos” (autor desconhecido)!
Kandando daqui!










