A TRAGÉDIA DE 1965 NA INDONÉSIA

Um genocídio silenciado e a sua sombra global

POR JOAQUIM SEQUEIRA

Em 30 de Setembro de 1965, o assassinato de seis generais do exército indonésio serviu como pretexto para um dos massacres mais brutais do século XX. Nos meses seguintes, uma campanha de extermínio sistemático, instigada pelo exército e apoiada por potências estrangeiras, resultou na morte de entre 500 mil e 1 milhão de pessoas. As vítimas eram acusadas de serem membros ou simpatizantes do Partido Comunista da Indonésia (PKI) que, com cerca de 3 milhões de militantes, era o maior partido comunista fora da União Soviética e da China.

Os acontecimentos na Indonésia não foram um trágico acidente histórico, mas sim um modelo eficaz de repressão que foi observado, apoiado e, posteriormente, replicado noutros países. Este “método” (que consistia em usar uma retórica anticomunista para justificar o extermínio em massa de opositores políticos, intelectuais, sindicalistas e minorias) cruzou oceanos, deixando marcas profundas na América Latina e ajustando a geopolítica global no período que ficou conhecido como “Guerra Fria”.

O que aconteceu?

(Anatomia de um massacre)

A Indonésia pós-independência era governada pelo presidente Sukarno, que mantinha um delicado equilíbrio de poder entre o exército, os grupos islâmicos e o crescente PKI. No meio das tensões económicas e sociais, um grupo auto-denominado “Movimento 30 de Setembro” sequestrou e assassinou seis generais. O então chefe do Exército, general Suharto, rapidamente assumiu o controlo, atribuiu a culpa ao PKI e iniciou uma purga generalizada. Foi este, pois, o contexto e o golpe.

O que se seguiu foi uma operação de terror em larga escala. O exército, frequentemente apoiado por milícias civis e grupos religiosos, começou a caçar suspeitos. As execuções eram sumárias. Os métodos variavam de fuzilamentos a decapitações. Prisões em massa lotaram campos improvisados, onde os detidos sofriam tortura e trabalhos forçados. Um sobrevivente, Martin Aleida, preso aos 21 anos, descreve um período de horror onde partidos, sindicatos e organizações culturais foram colocados na ilegalidade. Foi uma autêntica máquina da morte.

A violência espalhou-se de Jacarta para Java Central e Oriental, Bali e Sumatra. As vítimas não eram apenas militantes políticos. Qualquer pessoa acusada (por um vizinho, um colega invejoso, um piolho ou um inimigo pessoal) poderia ser alvo. Grupos marginalizados, como a etnia chinesa e os abangan (muçulmanos nominalmente não-praticantes de Java), também foram perseguidos. Um testemunho de um ex-prisioneiro político, Kusnendar, revela a arbitrariedade: ele foi preso e torturado simplesmente por ter comparecido a algumas reuniões sindicais, sem ser membro de nenhum partido.

Sukarno delegou seus poderes executivos ao general Suharto em 1967

A cumplicidade internacional e o “Método Jacarta”

Uma das facetas mais sombrias desses eventos foi o papel das potências estrangeiras. Documentos desclassificados e análises históricas comprovam que os Estados Unidos, Reino Unido e Austrália tiveram participação activa nos acontecimentos. Descrevendo alguns elementos desta participação:

  • Apoio material e de inteligência: os EUA forneceram ao exército indonésio listas com nomes de membros do PKI para serem perseguidos. A CIA conduziu campanhas de propaganda “negra” para desacreditar Sukarno e o PKI, e os governos ocidentais, incluindo o britânico, forneceram apoio militar e financeiro a oficiais anticomunistas, mesmo antes do golpe;
  • Aprovação tácita e alívio geopolítico: para o Ocidente, a ascensão de Sukarno e a força do PKI eram uma ameaça durante a Guerra Fria. O massacre, portanto, foi visto não como uma tragédia humanitária, mas como uma vitória estratégica. Um memorando interno da CIA de 1968, chegou a classificar os acontecimentos como “um dos piores assassinatos em massa do século XX”, mas o sucesso em eliminar a esquerda indonésia sem envolvimento directo de tropas americanas, fez com que o caso fosse amplamente ignorado e até celebrado nos círculos de política externa ocidental;
  • A exportação de um modelo: o sucesso da operação na Indonésia (a eliminação física quase completa de uma esquerda organizada e a instalação de um regime autoritário pró-Ocidente) tornou-se um modelo a ser seguido. O jornalista Vincent Bevins, no seu livro “O Método Jacarta”, argumenta que as lições aprendidas em 1965 foram aplicadas posteriormente em países como o Chile, Brasil, Argentina e outros na América Latina, onde golpes militares e campanhas de “segurança nacional” seguiram um roteiro semelhante de repressão anticomunista com apoio ou complacência internacional (a Ocidente).

As consequências duradouras

Impunidade, silêncio e resistência

Suharto depôs Sukarno e governou a Indonésia com mão de ferro por 32 anos (1967–1998). O seu regime, a “Nova Ordem”, foi construído sobre os ossos das vítimas de 1965. O anticomunismo virou doutrina de Estado, e qualquer menção aos massacres era estritamente proibida. Os sobreviventes e as suas famílias foram estigmatizados, marcados nos seus documentos como “ex-prisioneiros políticos” e excluídos da vida pública: característica importante da “Nova Ordem”, a ditadura de Suharto.

Apesar da queda de Suharto em 1998, a impunidade permanece quase absoluta. O governo nunca conduziu investigações oficiais, pediu desculpas ou compensou as vítimas. Iniciativas dos cidadãos e sobreviventes, como o Tribunal Popular Internacional (TPI) de 2015, concluíram que os massacres constituíram crimes contra a humanidade e que potências estrangeiras foram cúmplices, mas o seu veredicto não é vinculativo. A arte tem sido um canal crucial para romper o silêncio: o documentário The Act of Killing (2012), de Joshua Oppenheimer, como parte da luta pela Memória e Justiça, chocou o mundo ao mostrar os próprios assassinos reencenando os seus crimes com orgulho.

O massacre não apagou apenas vidas, mas também um florescente movimento cultural. O Lekra (Instituto para a Cultura do Povo), braço cultural do PKI, com 200 mil membros, foi aniquilado. A sua proposta de uma arte engajada com camponeses e trabalhadores foi silenciada, criando um vazio na memória cultural do país que perdura até hoje. Destruiu-se uma herança cultural.

Porquê lembrar?

Lições para um mundo contemporâneo

Lembrar o massacre na Indonésia não é um exercício de arqueologia histórica. É um antídoto necessário contra a repetição. Pelo facto, vamos enumerar algumas questões relevantes para memória:

  1. O perigo da desinformação e do ódio ideológico: os acontecimentos foram impulsionados por uma narrativa simplista e maniqueísta que transformou adversários políticos em “inimigos do Estado” a serem eliminados. Esse padrão de desumanização do outro, infelizmente, ressoa em discursos políticos actuais em diversas partes do globo;
  • A responsabilidade da comunidade internacional: a cumplicidade estrangeira demonstra como questões de realpolitik e interesses geopolíticos podem levar à negligência de atrocidades em massa. Isso impõe um dever de vigilância constante sobre as acções dos nossos próprios governos em cenários internacionais;
  • A importância da Memória contra o autoritarismo: o silêncio imposto por décadas pela ditadura de Suharto, mostra como regimes autoritários controlam o passado para controlar o presente. A recuperação da memória histórica, portanto, é um acto de resistência democrática. Como alertou o documentarista Joshua Oppenheimer, a Indonésia vive uma situação onde “os vencedores seguem tendo muito poder e toda a impunidade do mundo para perpetuar a sua versão dos factos”;
  • O “Método” não está confinado à História: a lógica do “Método Jacarta”, a eliminação sistemática da oposição política sob um pretexto, pode adaptar-se a novos contextos. Reconhecer o seu padrão histórico, é essencial para identificar e combater as suas manifestações actuais.

A tragédia indonésia de 1965–66 permanece como uma ferida aberta na consciência global. É um lembrete sombrio do que pode acontecer quando o fanatismo ideológico, a ambição pelo poder e a conivência internacional se unem. Honrar a memória das centenas de milhares que pereceram exige mais do que recordação; exige um compromisso activo com a verdade, a justiça e a defesa intransigente da dignidade humana contra todas as formas de perseguição e extermínio. Só assim poderemos evitar que o “Método Jacarta”, em qualquer uma de suas novas roupagens, volte a triunfar.

Bibliografia

  1. Bevins, Vincent. O método Jacarta: a cruzada anticomunista e o programa de assassinatos em massa que moldou o nosso mundo. 2020. 2024 (ver. Port.);
  2. Bozza, Juan Alberto. Desenterrar el pasado: la masacre de los comunistas de Indonesia en 1965. Artigo de análise académica, publicado na Revista Aletheia (Vol. 16, Nº 30). 2025;
  3. Aleida, Martín. Dossiê nº 35 do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Entrevista ao sobrevivente Martín Aleida. 2020;
  4. Roosa, John. Pretext for mass murder: the September 30th movement and Suharto’s coup d’Etat in Indonesia. Kindle Edition. 2006;
  5. Roosa, John. Buried histories: the anticommunist massacres of 1965-1966 in Indonesia. Kindle Edition. 2020

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