A NOVA DISPUTA PELAS REGRAS DO MUNDO: DE DAVOS À GRONELÂNDIA, COM ANGOLA NO CENTRO DO TABULEIRO

POR LÁZARO CÁRDENAS

Introdução

O mundo entrou, definitivamente, numa fase em que as regras que durante décadas estruturaram as relações internacionais, deixaram de ser referências estáveis para se tornarem instrumentos flexíveis ao serviço do poder. O discurso do multilateralismo persiste, mas a prática revela uma competição aberta entre grandes potências, onde a força militar, a pressão económica e a instrumentalização das alianças, voltam a ocupar um lugar central. Os acontecimentos recentes em Davos e a polémica em torno da Gronelândia, não são episódios isolados ou excentricidades momentâneas: são sinais claros de uma ordem internacional em mutação acelerada. É neste contexto que Angola — e a África em geral — devem ser pensadas não como espectadores distantes, mas como actores potenciais de um tabuleiro global onde território, recursos e soberania voltaram a ser objecto de disputa directa.

I. Angola no Centro das Novas Disputas Globais

Angola ocupa hoje uma posição que já não pode, honestamente, ser pensada apenas em termos regionais. Situado no Atlântico Sul, com uma costa extensa voltada para as rotas marítimas que ligam o Hemisfério Sul ao Hemisfério Norte, o país é um ponto de observação privilegiado — e inevitável — das novas tensões globais. Mas não é apenas a geografia que lhe confere importância estratégica. O subsolo angolano, rico em petróleo, gás, diamantes, ferro, fosfatos, ouro, urânio (hoje dormido, à espera de ser acordado por quem o pode) e, cada vez mais relevante, minerais críticos e terras raras, inscreve Angola no mapa silencioso da cobiça tecnológica do século XXI.

É a partir deste lugar — Angola como país atlântico, africano e estratégico — que faz sentido olhar para o que se passou recentemente em Davos, para a polémica em torno da Groenlândia, e para a forma como os Estados Unidos, a Europa e a NATO estão, na prática, a reescrever as regras do jogo internacional.

II. Davos e o Fim da Inocência Diplomática

No Fórum Económico Mundial de Davos, realizado recentemente, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, chamou a atenção para o fim de uma certa inocência diplomática que muitos ainda insistem em preservar. Em declarações amplamente reproduzidas por órgãos de imprensa internacionais, como a BBC e o New York Times, insistiu que já não vivemos numa “ordem internacional baseada em regras” aplicada de forma igual para todos, mas num sistema marcado pela “rivalidade aberta entre grandes potências”, onde a interdependência económica passou a ser usada como instrumento de pressão e não apenas como ponte de cooperação.

Ao apelar a que as democracias “vivam na verdade” e ao afirmar que a “interdependência está a ser transformada em arma”, o dirigente canadiano, citado também pelo diário espanhol El País, não falava em abstracto. Estava, na verdade, a reconhecer que é ilusório esperar o regresso do velho multilateralismo, e que países médios e emergentes precisam de construir alianças flexíveis, coerentes e baseadas em princípios, em vez de dependerem de garantias que já não são tão sólidas como pareciam.

III. A Retórica Estratégica dos Estados Unidos e o Caso da Gronelândia

Foi neste mesmo conclave de Davos que o presidente dos Estados Unidos levou ao extremo, a lógica transaccional da sua política externa. Depois de semanas de escalada verbal em torno da Gronelândia, sugerindo a possibilidade de adquirir o território e ameaçando aliados europeus com tarifas adicionais caso não apoiassem a sua posição, o Donald Trump declarou, segundo a cobertura da BBC e do New York Times, que não recorrerá à força militar para tomar a ilha: “People thought I would have to use force, but I do not have to use force, I do not want to use force, I will not use force”.( “As pessoas pensaram que eu teria que usar a força, mas eu não preciso usar a força, eu não quero usar a força, eu não vou usar a força”).

Na mesma intervenção, de acordo com a imprensa internacional, acrescentou que, se quisesse, os Estados Unidos seriam “francamente imparáveis” ao usar “força excessiva”, frase que o New York Times destacou como síntese da sua visão sobre a superioridade militar norte-americana.

Segundo relatou o El País, o presidente americano referiu ainda, ter realizado uma “reunião muito produtiva” com o secretário-geral da NATO, da qual teria resultado “um quadro de entendimento para um acordo futuro” sobre a Gronelândia, sugerindo que a questão deixaria de ser apenas um capricho presidencial, para se inscrever num entendimento mais amplo no seio da Aliança Atlântica.

A combinação é reveladora e merece de leitura crítica: primeiro, a ameaça implícita do uso da força; depois, a ameaça explícita de tarifas; por fim, a retirada parcial dessas ameaças, apresentada como gesto de moderação, mas sem nunca abandonar o objectivo estractégico de obter “acesso total” à ilha e às suas infra-estruturas militares.

IV. O Acordo de Defesa de 1951: o que realmente diz e o que revela

O que torna esta polémica ainda mais significativa é o facto de os Estados Unidos já disporem, desde 1951, de um enquadramento jurídico sólido para a sua presença militar na Gronelândia. O Acordo de Defesa da Gronelândia, assinado a 27 de Abril de 1951 entre os Estados Unidos e o Reino da Dinamarca, e hoje acessível em arquivos como o Avalon Project da Universidade de Yale, começa por recordar, no seu preâmbulo, que ambos os governos, “sendo partes do Tratado do Atlântico Norte”, desejam contribuir para a defesa da área do Tratado “em conformidade com os princípios de auto-ajuda e assistência mútua”.

O Artigo II é particularmente elucidativo. No parágrafo 3(b), o acordo concede aos Estados Unidos o direito, “without prejudice to the sovereignty of the Kingdom of Denmark” (“sem prejuízo da soberania do Reino da Dinamarca”), de adaptar a área para uso militar, construir e operar instalações, estacionar pessoal e garantir a segurança interna das zonas de defesa.

O mesmo artigo determina ainda que “The national flags of both countries shall fly over the defense areas” (“As bandeiras nacionais de ambos os países deverão ser hasteadas sobre as áreas de defesa”), sublinhando, de forma simbólica, mas politicamente relevante, que a presença militar norte-americana não elimina a soberania dinamarquesa.

Perante este enquadramento, a dramatização recente em torno da “compra” da ilha revela menos uma necessidade jurídica ou militar, e mais um estilo de liderança que privilegia a pressão, a teatralização e a lógica de negócio em detrimento da continuidade institucional.

V. A Resposta Europeia e a Crise das Regras Internacionais

A resposta europeia, embora não totalmente unânime, foi mais firme do que muitos antecipavam. Não se limitou a notas diplomáticas ou a declarações de desagrado. A Dinamarca, com o apoio de aliados europeus, autorizou e participou em manobras militares na própria Gronelândia, envolvendo o envio de tropas e meios logísticos para reforçar a presença da NATO no território.

O sinal político foi inequívoco: qualquer tentativa de alterar o estatuto da ilha por via unilateral, colocaria Washington perante uma disjuntiva insustentável — ou recuar, ou considerar o cenário impensável de atacar um território de um Estado-membro da NATO, o que equivaleria, na prática, ao colapso político da própria Aliança Atlântica.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, classificou a ideia de vender a Groenlândia como “absurda”, e reafirmou que “Greenland is not for sale” (“A Gronelândia não está à venda”). Dirigentes da própria Gronelândia foram igualmente claros: “We are not for sale” (“Não estamos à venda”). A soberania constitui uma linha vermelha.

Mesmo com divergências internas, a Europa deixou claro que a defesa da soberania de um dos seus membros não é matéria negociável.

VI. Possíveis Implicações para África e Angola

Convém ser claro: o subsolo africano não é um território virgem. Há décadas que empresas estrangeiras exploram petróleo, gás, diamantes, ouro, coltan, cobalto, manganês, fosfatos, urânio (hoje dormido, à espera de ser acordado por quem o pode) e terras raras em praticamente todo o continente.

O que está agora em causa não é a continuidade dessa exploração económica, mas algo mais profundo e politicamente sensível: a possibilidade de que o cenário da Gronelândia se replique em África, não sob a forma de simples concessões mineiras, mas através de pressões directas sobre territórios estratégicos, bases militares, corredores logísticos ou zonas críticas para a transição energética global.

Num mundo em que as grandes potências voltam a disputar espaço físico, a ambição de controlar território — e não apenas recursos — regressa sob novas justificações e novos instrumentos de pressão.

VII. Quando chegar a nossa vez, que resposta poderão dar Angola e África?

A firmeza europeia — diplomática, jurídica e militar — contrasta com o cenário africano, onde a capacidade de dissuasão é desigual e a arquitectura de segurança continental permanece fragmentada. A Europa respondeu com alianças consolidadas e o peso político da NATO. Angola e África enfrentam um contexto distinto: menor integração militar, maior vulnerabilidade económica, dependência tecnológica e financeira, e uma longa história de intervenções externas.

Mas a ambição de “fagocitar” territórios, recursos e posições estratégicas é a mesma.

A pergunta impõe-se: quando o interesse externo tocar o subsolo africano, as suas águas, as suas rotas ou a sua soberania, reagirão Angola e África com a mesma firmeza — diplomática, jurídica e, se necessário, militar — demonstrada pela Dinamarca, pela Gronelândia e pela Europa? Ou continuarão a ser tratadas como espaços de disputa onde as grandes potências testam os limites das suas ambições?

Se esta questão parecer futurista, basta olhar para o mundo em rápida mutação em que vivemos. O que ontem parecia impensável tornou-se rotina. E o que hoje antecipamos como hipótese, poderá amanhã apresentar-se como facto consumado. Os detalhes, como sempre, serão dados pela própria vida.

Citações e Referências

– Defense of Greenland: Agreement Between the United States and the Kingdom of Denmark, 27 de Abril de 1951, reproduzido em American Foreign Policy 1950–1955, Basic Documents, Department of State, Washington.

– Cobertura do discurso do presidente dos Estados Unidos em Davos sobre a Gronelândia, The New York Times, Janeiro de 2026.

– Reportagens da BBC News (Londres) sobre a declaração “I will not use force” relactiva à Gronelândia, Davos, Janeiro de 2026.

– Artigos de e do diário El País (Madrid) sobre a polémica da Groenlândia, a reacção da Dinamarca, da Gronelândia e da NATO, 2019 e 2026.

– Cobertura internacional do discurso do primeiro-ministro do Canadá em Davos sobre a “rules-based international order”, a rivalidade entre grandes potências e a “interdependência transformada em arma”, em The New York Times, BBC News e El País.

Nota Metodológica Final

Algumas das fontes jornalísticas internacionais aqui citadas — nomeadamente o The New York Times, a BBC de Londres e o diário El País de Madrid — foram utilizadas apenas como referência contextual para situar declarações públicas de dirigentes políticos e para confirmar a sua circulação na imprensa de prestígio. Por razões de rigor académico e de respeito pelos direitos de autor, não reproduzimos integralmente os artigos originais, nem incluímos dados específicos como número de página, título exacto ou nome do jornalista, que pertencem aos respectivos órgãos de comunicação.

As citações textuais incluídas no corpo do artigo correspondem a declarações públicas amplamente divulgadas e verificáveis, sendo apresentadas de forma limitada e enquadrada, em conformidade com o uso legítimo para fins de análise crítica, comentário e investigação. Qualquer aprofundamento bibliográfico deverá ser feito directamente a partir dos arquivos  jornalista, que pertencem aos respectivos órgãos de comunicação.

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