ANGOLA: O CAFÉ DO MOSTEIRO ENTROU EM SESSÃO EXTRAORDINÁRIA!

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

A verdade é que o desenvolvimento precisa de ser sentido. Não basta existir no papel, nas estatísticas ou nos discursos oficiais. Deve traduzir-se em melhores condições de vida, oportunidades reais e maior confiança no futuro.

No Café do Mosteiro, onde o café é preto, as conversas são castanhas e a política vem sempre acompanhada de espuma, o sábado amanheceu com cheiro a reflexão, sabor a polémica e uma pitada de kizomba política. O ambiente estava mais quente do que panela de funje ao lume, porque Angola, meus kotas, continua a oferecer matéria-prima suficiente para alimentar cronistas, comentadores, bajuladores e especialistas em descobrir virtudes até nas pedras da calçada!

Desta vez, o Café entrou em sessão extraordinária para analisar uma questão que divide opiniões, provoca aplausos e levanta poeira: “como reconhecer as conquistas do Executivo angolano sem fechar os olhos ao muito que ainda falta fazer”?

A resposta parece simples, mas, no nosso mambo político, até uma chávena de café pode transformar-se numa batalha ideológica!

Há realizações que merecem reconhecimento. Há obras, projectos e iniciativas públicas cujos resultados devem ser avaliados com justiça. Seria intelectualmente desonesto negar tudo o que foi feito apenas porque se discorda de quem governa. Afinal, meu kota, nem tudo o que vem do Executivo é maka, assim como nem tudo o que vem da oposição é ouro embrulhado em papel de campanha!

“O problema começa quando o aplauso se transforma em profissão e a crítica passa a ser considerada crime de lesa-pátria”.

Alguns compatriotas parecem ter sido contratados pelo Ministério das Palmas: aplaudem antes da inauguração, durante o discurso e até depois de o microfone ser desligado! Se o Executivo constrói, batem palmas; se anuncia, batem palmas; se promete, batem palmas antecipadas, como quem recebe o salário antes de começar o trabalho.

Outros, porém, vestiram a camisola do pessimismo permanente. Para esses, nada presta, nada funciona, nada merece reconhecimento. Se aparece uma estrada, descobrem imediatamente um buraco; se surge uma ponte, procuram uma pedra fora do lugar. São os fiscais do apocalipse, especialistas em transformar qualquer conquista numa tragédia nacional!

No meio desta maka, o cidadão comum continua a fazer contas à vida, com a calculadora numa mão e a esperança na outra.

Porque uma estrada construída é importante, mas também importa saber se o cidadão tem dinheiro para comprar o combustível ou pagar o transporte. Uma escola inaugurada merece aplausos, mas precisa de professores, carteiras, livros e condições para ensinar. Um hospital moderno é uma conquista, mas a sua verdadeira grandeza mede-se também pelos medicamentos disponíveis, pelo atendimento prestado e pelas vidas que consegue salvar.

E a energia, a água, o emprego, a alimentação, a habitação e o custo de vida? Esses não podem continuar eternamente sentados na sala de espera do desenvolvimento!

“Uma obra pode ser inaugurada num dia; melhorar a vida das pessoas é uma missão que exige continuidade, competência e resultados”.

É aqui onde o Café do Mosteiro serve a sua especialidade: café sem açúcar, acompanhado de verdade sem adoçante.

Reconhecer os méritos do Executivo não significa passar uma borracha sobre as insuficiências. Denunciar os problemas não significa desejar o fracasso de Angola. Pelo contrário, quem deseja uma Angola melhor deve ter coragem para aplaudir o que funciona e responsabilidade para apontar o que precisa de ser corrigido.

O patriotismo não pode ser confundido com bajulação, nem a cidadania com o hábito de reclamar por tudo e por nada. A crítica séria procura soluções; a bajulação procura benefícios; e o pessimismo militante, às vezes, parece ter medo de perder o emprego de anunciar desgraças!

O Executivo tem a responsabilidade de governar, prestar contas e transformar os recursos públicos em benefícios concretos. A oposição deve fiscalizar, apresentar alternativas e demonstrar que sabe fazer melhor. A sociedade civil deve mobilizar, propor e exigir transparência. E o cidadão precisa de avaliar os factos sem se tornar refém de paixões partidárias.

Porque, no fim da maka, a conta não é paga pelos discursos, pelas fotografias das inaugurações ou pelas guerras nas redes sociais. A conta chega ao bolso do cidadão, ao mercado, ao hospital, à escola e à mesa da família.

E, convenhamos, meu mwangolê: “não há comunicado de imprensa que consiga matar a fome, nem palmas suficientemente fortes para fazer baixar, por magia, o preço da fuba”!

O desenvolvimento não deve viver apenas nas estatísticas, nos relatórios ou nos discursos oficiais. Deve entrar nas casas, chegar aos bairros, alcançar as aldeias e produzir mudanças que as famílias consigam sentir. O povo não quer apenas ouvir que Angola está a caminhar; quer ter a certeza de que também está a chegar ao destino.

Por isso, o Café do Mosteiro recomenda moderação nas palmas, seriedade nas denúncias e menos guerra de megafones. Que os feitos sejam reconhecidos sem exageros, que as falhas sejam denunciadas sem manipulações e que as promessas sejam acompanhadas de prazos, responsabilidades e resultados verificáveis.

Afinal, “as conquistas não anulam as insuficiências, tal como as insuficiências não apagam automaticamente as conquistas.” A maturidade política começa quando conseguimos reconhecer as duas realidades sem perder o sentido crítico nem a honestidade intelectual.

No Café do Mosteiro, todos concordaram que governar não é participar num concurso de popularidade, muito menos numa competição de inaugurações.

O Executivo deve apresentar resultados, explicar as suas opções, corrigir os erros e ouvir as preocupações da população. As obras contam, mas a qualidade de vida também. Os números macroeconómicos têm importância, mas o preço da fuba, do óleo, do peixe e do transporte tem igualmente o seu peso no orçamento familiar.

Porque, convenhamos, meu kota: o cidadão pode até ficar impressionado com um grande projecto nacional, mas, quando chega ao mercado e descobre que o dinheiro só dá para comprar metade da lista, a sua admiração entra imediatamente em regime de austeridade!

E não adianta mandar o homem sorrir para a fotografia. O estômago não entende comunicados de imprensa!

A verdade é que o desenvolvimento precisa de ser sentido. Não basta existir no papel, nas estatísticas ou nos discursos oficiais. Deve traduzir-se em melhores condições de vida, oportunidades reais e maior confiança no futuro. Por isso, quando uma iniciativa do Executivo produz resultados positivos, que se reconheça o mérito. Quando uma política não alcança os objectivos, que se avaliem as causas. Quando uma promessa demora demasiado, que se pergunte pelo calendário. E quando os recursos públicos são mal utilizados, que se exijam explicações e responsabilização.

No Café do Mosteiro, a sessão extraordinária terminou sem unanimidade, como acontece em quase todas as boas conversas angolanas. Uns saíram aplaudindo, outros resmungando e alguns ainda discutiam quem tinha razão. Mas todos compreenderam uma coisa: o café pode ser servido quente, a política pode ser servida com pimenta, mas a verdade não deve ser servida às metades!

“Moral da crónica”: Angola não precisa de aplausos encomendados nem de denúncias fabricadas. Precisa de realizações, transparência, responsabilidade e resultados que melhorem a vida dos cidadãos.

Porque governar não é apenas inaugurar, criticar não é apenas destruir e fazer oposição não é viver de luto permanente. O verdadeiro desafio é construir uma Angola onde haja mais motivos para sorrir e menos razões para reclamar.

E, se no próximo sábado houver mais conquistas, que se aplauda. Se persistirem problemas, que se denunciem. Mas, pelo amor de Deus, que ninguém confunda o barulho das palmas com o som da barriga vazia!

Enquanto isso, vou tomar o meu café de mosteiro com os meus banzelos. 

Bom fim de semana a todos. 

Fuiiiiiii! 

*Menga-Ma-Kimfumu

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