27 DE MAIO DE 1977. FLAGRANTES DA MINHA VIDA REAL

Abraçar e Perdoar 

FÉLIX MATIAS NETO (FELITO)*

Existe uma questão lógica e moral, que continua a ser levantada por familiares das vítimas e pelos sobreviventes: como se pode chegar ao perdão, se não se sabe exactamente quem praticou determinados actos, quem os ordenou e o que aconteceu aos desaparecidos? Abraçar quem?

1- O lema “Abraçar e Perdoar” é a expressão pública da CIVICOP — Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos criada em 2019, por iniciativa presidencial, para executar um plano de reconciliação relacionado com as vítimas dos conflitos políticos ocorridos em Angola, entre a Independência e o fim da guerra civil. A tentativa de golpe de estado de “27 de Maio de 1977”, está incluída nos actos cometidos no contexto dos conflitos políticos e armados, sendo o objectivo declarado homenagear as vítimas, localizar e identificar restos mortais, apoiar as famílias e promover a reconciliação nacional. 

2- A iniciativa foi, certamente, corporizada pelas propostas e sugestões e apresentadas ao Presidente da República, pelos seus auxiliares, assessores, bófias e sectores da sociedade civil, que aprovou e mandou publicar os objectivos e os termos de funcionamento da CIVICOP. Não conheço os termos de referência do projecto de criação da CIVICOP, no que respeita ao “27 de Maio”, nem quem os elaborou e levou à despacho do CHEFE para apreciação e aprovação!

3- Presenciei e ouvi na primeira pessoa, nas cadeias de São Paulo e da Casa da Reclusão, em Luanda, alguns dos episódios de enorme violência policial, repressão, tortura e, posteriormente, dos assassinatos dos presos acusados de fraccionismo. Fiquei, uma noite, no Sector 2 (corredor da morte) da Casa da Reclusão, com os oficiais, operativos, delegados provinciais e chefes de operações da DISA – Direcção de Informação e Segurança de Angola. Quase todos foram “limpiados”! Safaram-se dois ou três, que não eram da DISA, um dos quais (Brito Júnior) morreu por doença. Não revelo os nomes do companheiro que entrou, comigo, no corredor da morte, nem dos outros sobreviventes…

4- Tive o privilégio de falar/contar sobre a minha vivência nas cadeias acima referidas ao Presidente Neto e ao Presidente João Lourenço, na altura Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Gestão de Fundos SARL e eu Administrador Executivo e seu amigo. O Presidente Neto me confidenciou que iria exonerar os chefes da DISA (Ludy e Onambwé) e nomear o camarada Diadengue, Secretário de Estado para a Segurança. Pensei que fosse ser chamado pelo Presidente João Lourenço, para integrar a comissão da CIVICOP que preparou o processo de criação. 

Abraçar e Perdoar

5- Pelo que sei, até agora, ninguém abraçou ninguém! 

Abraçar pode ser um acto público e/ou privado, pois, é tangível, palpável, podendo ser caloroso ou não. O abraço é um gesto de afecto que envolve alguém com os braços, transmitindo apoio, carinho e conexão emocional de paixão, fraternidade, solidariedade e/ou de perdão (o que a iniciativa presidencial pretendia).

6- Perdoar é uma decisão subjectiva, íntima, consciente e voluntária de soltar sentimentos negativos, como a mágoa, o ressentimento e o desejo de vingança contra quem causou um erro ou uma ofensa. Mas, perdoar não é esquecer. Não é concordar ou justificar. Não elimina a justiça. Não exige reconciliação imediata. 

7- O Estado angolano deu um passo muito importante em 2021, quando o Presidente João Lourenço pediu, em nome do Estado, desculpas às famílias das vítimas pelos excessos cometidos depois do “27 de Maio”. A CIVICOP participou na preparação desse processo. O meu amigo Presidente, esteve muito bem! Lamento não ter sido indicado para participar na criação da CIVICOP, depois das conversas a sós que tive com os Presidentes acima referidos sobre o “27 de Maio”. Existe uma questão lógica e moral, que continua a ser levantada por familiares das vítimas e pelos sobreviventes: como se pode chegar ao perdão, se não se sabe exactamente quem praticou determinados actos, quem os ordenou e o que aconteceu aos desaparecidos? Abraçar quem? Coloquei esta pergunta, num dos meus “Flagrantes” juntando a minha voz à das famílias, aquando da entrega formal dos restos mortais às famílias, em Maio passado, encontrados na vala comum do Cemitério do 14/Mulemba. 

8- A CIVICOP não é uma “Comissão da Verdade”. O seu mandato privilegia: memória → identificação → homenagem → reparação simbólica → reconciliação → perdão. Uma verdadeira Comissão da Verdade, em sentido mais clássico, teria normalmente uma missão muito mais ampla de: investigar → ouvir vítimas e testemunhas → estabelecer factos → identificar responsabilidades → produzir um relato histórico documentado → formular recomendações sobre justiça e reparação. É precisamente aqui que está uma das principais controvérsias.

9- Um estudo académico recente sobre a CIVICOP, considera que ela não assumiu plenamente a função de uma comissão de justiça transicional ou de verdade, e observa que a comunicação e participação pública no processo foram limitadas. Por outro lado, organizações de familiares das vítimas e de sobreviventes do “27 de Maio”, criticam a CIVICOP por não ter conseguido responder satisfatoriamente às perguntas: “a quem abraçar, como, onde e para quê”?

10- Como sobrevivente do “27 de Maio”, convidei, para desagrado do meu companheiro e amigo Reginaldo Silva, o “Kamu”, também sobrevivente deste Maio sangrento, o famigerado Carlos Jorge ex-Chefe das Operações da DISA e os seus adjuntos, para um abraço público. Já havia abraçado, em 1978/80, o seu chefe, o Comandante Onambwé, quando me visitou na sede da Gestão de Fundos, na Marginal, onde eu era Administrador Executivo. Porque não abraçar, também, o seu Chefe de Operações, o Toninho Carlos Jorge, meu conhecido desde os anos 60, na altura, “amigo/irmão” do Zé Vandunem. Onde estava um, estava outro. Qual amizade/irmandade de Zeca Vandunem e Felito (ManFelas)! 

11- Que eu saiba, até agora, ninguém abraçou ninguém sob os auspícios do lema da CIVICOP. Será que o lema foi mal pensado e mal lançado, ou há recusa em cumprir a ordem presidencial de “Abraçar e Perdoar”? Será que a ordem não foi bem dada, para dizer: “ordem mal dada, não se cumpre”. Como disse antes, abraçar não esquece, não perdoa e não elimina a justiça. A acontecer (abraços), os mandantes e os executores sairiam da “clandestinidade” e seriam, publicamente, conhecidos. Os desaparecidos localizados e a cadeia de responsabilidade seria conhecida. 

Os “alicates” sabem como apertar, mas não querem sentir o abraço “apertado” dos familiares das vítimas e dos sobreviventes do 27 de Maio…

12- Continua no ar o meu convite para o abraço público ao Carlos Jorge, com ou sem os seus “alicates” operativos. Talvez pudéssemos sugerir também aos membros vivos da tal Comissão de Lágrimas, constituída por “intelectuais revolucionários”, que se juntassem ao “kudisanga” de abraços.

13- Falando em Comissão de Lágrimas, na pesquisa que fiz, a sua existência, composição e função não estão documentadas de forma suficientemente uniforme, para que se possa apresentar uma lista fechada de membros como facto incontroverso. A versão mais consistente é que a Comissão foi criada pelo Bureau Político do MPLA, no rescaldo do 27 de Maio, para ouvir e seleccionar depoimentos de pessoas presas ou suspeitas de ligação aos acontecimentos, particularmente intelectuais e quadros. 

Há, contudo, testemunhos segundo os quais, ela fazia mais do que simplesmente recolher depoimentos: interrogava os detidos, avaliava as informações obtidas, e encaminhava-os para os órgãos militares e de segurança, onde poderiam ser submetidos à tortura ou outras formas de repressão. Dalila Cabrita Mateus, autora do livro “A Purga”, descreve-a precisamente como uma espécie de instância preliminar antes da entrega dos presos aos militares e polícias. 

14- Voltaremos a falar sobre a Comissão de Lágrimas, num próximo “Flagrantes…”: objectivo, quem integrou (não há lista oficial pública), funcionamento, etc. Contudo, se algum ex-membro vivo da Comissão quiser dar alguns subsídios, por favor, não hesitem “feel free…”

*ManFelas (Facebook)

10.10.2026 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR