
– JAcQUEs TOU AQUI!
Quem tem vontade, não tem razão.
Da sabedoria popular portuguesa
1- Desde que o Mundo é Mundo, todos os meses, guardam na memória dos seus velhíssimos armários e bafientos arquivos, os acontecimentos registados no decurso dos incontáveis dias da sua longa história. Na vida dos anos, os meses escondem verdades. Seja na consequência de revoluções, seja por mudanças de regimes políticos. Tornam-se fiéis depositários do rescaldo de lutas, de golpes e assassinatos. Abrigam tratados e traições. Guardam para a eternidade cinzas de eleições viciadas, enfim, tornam-se guardiães de corolários de vitórias e de frustrações de derrotas. As conquistas da humanidade, os marcos mais elevados da política, da cultura e do desporto, estão lá todos, bem guardados nos seus baús. Nesse contexto, prestem atenção ao mês de Outubro.
Em 25 de Outubro de 1917 – do calendário juliano – assinalou-se a Revolução Bolchevique, na Rússia, sob o comando de Vladimir Lenin e Leon Trotsky; no primeiro dia de Outubro de 1949, a República Popular da China foi proclamada por Mao Tse-Tung. E já na linha do nascimento do Reino de Portugal em 5 de Outubro de 1143, teve lugar, no mesmo dia de 1910, a implantação da República Portuguesa. Mil e um acontecimentos têm marcado o mês de Outubro, em todo o mundo. Tal como a chegada de Cristóvão Colombo à América ou a decapitação na guilhotina de Maria Antonieta, no auge da Revolução Francesa. Foi neste mês que se fundou oficialmente a Organização das Nações Unidas – 24 de Outubro de1945 – na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos da América. Em 3 de Outubro de 1968, Fidel Castro leu a carta em que Che Guevara disse adeus à Revolução cubana. Está provado, pois, que este mês tem grande marca e muita fama.

O prodigioso Outubro também deixa vestígios na cultura angolana. O velho Nacional Cine-Teatro, foi reaberto ao público no passado dia 8, por “Sua Excelência, Ministro da Cultura Dr. Filipe Silvino de Pina Zau”. Assim reza uma placa colocada na sua entrada renovada. A publicidade feita à volta do assunto, não menciona nomes ligados ao seu passado. Inexplicavelmente, transmite-se ao povo a falsa ideia de que só foi agora que a velha sala ressuscitou da morte imposta pelo colonialismo. Trinta e quatro anos do seu percurso pós-independência, foi olvidado, na campanha feita em redor do seu “renascimento”. Nenhum artista, nenhum dirigente, nenhuma instituição, nenhum dos intérpretes da cruzada que o retirou do passado crítico de lixeira e dos escombros, que permitiu à elevação do edifício a monumento, nenhum sujeito desse tempo, foi citado nos discursos. Deu-se, inclusivamente, a sensação de que os antigos inquilinos tinham sido os causadores da ruína do edifício! Daí o castigo, a punição usada nos tempos bárbaros. Ninguém lembrado ou convidado! Não sobrou convite para essa classe, na cerimónia de reabertura amplamente divulgada. Os artistas agora são outros. Para quê e porquê tanta ausência de memória e tão grande falta de respeito?!
Deixemos os maus gestos com quem os pratica, para continuarmos na senda do Outubro magnífico.
Num dia 6 antigo, desse mês fantástico, nasceu algures, numa sanzala do Libolo, no Kwanza-Sul, o cidadão Jacques Arlindo dos Santos (que somos nós) – parafraseando notável figura política angolana – e, anos mais tarde, nesse mesmo dia, mas em 1981, no Cairo, foi assassinado Muhammad Anwar Al Sadat, Presidente do Egito e Prémio Nobel da Paz de 1978. Como é fantástico o mês de Outubro que agora estamos com ele!
Trago a sua grandeza à memória, a este espaço de opinião aberta, não apenas por ser o meu mês de estimação. Destaco-o por acolher também a criação de instituições e movimentos como o “Outubro Rosa”, esta, uma organização dedicada à prevenção e diagnóstico precoce do cancro da mama, e ainda, para meu desgosto, por ter sido, neste mês auspicioso, atingida duramente a minha esperança na aposta da candidatura certa – não consegui fugir ao seu fascínio – nas eleições brasileiras da semana passada. O apuramento mostra a possibilidade da derrota do meu preferido, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na verdade, é mesmo fantástico, este mês de Outubro!
Por óbvias razões, agendei para o passado dia 6, a apresentação do último livro que escrevi. Para coincidir com a celebração dos meus 83 anos de vida, e dos 33 em que festejei os 50, quando dei à luz “Casseca – Cenas da vida em Calulo” e iniciei a minha aventura na escrita literária. Aconteceu no terraço da Ensa, na Marginal de Luanda, numa altura em que ainda era a Empresa Nacional de Seguros e Resseguros de Angola, UEE. A União dos Escritores Angolanos surgiu inevitavelmente no meu percurso. Como o tempo passou e como foi bom constatar que nunca é tarde para se começar!
Agora é hora de “Viva este povo maravilhoso”. O livro vai, finalmente, mostrar-se! Antes, recordo que foi no dia 6 de Outubro de 2004, que fui condecorado pela Embaixada do Brasil. No momento, foi-me entregue o documento que oficializa a minha admissão, com o grau de Grande Oficial, na Ordem de Rio Branco, a mais alta honraria diplomática do Brasil. Emocionado, aceitei a distinção consignada pelo Presidente Lula da Silva! Ouvi elogios aos meus serviços meritórios prestados à cultura angolana. Recebi a medalha, o diploma e a fita. E assim me tornei comendador!
Agora, dez dias depois dos meus anos, no próximo dia 16, portanto, com um atraso devido a ajustes a que um livro novo se sujeita, vai acontecer em Lisboa, na icónica Livraria Sá da Costa, no Chiado, às 18,30 horas dessa sexta-feira. As ilustres senhoras Luzia Moniz e Branca Clara das Neves, encarregar-se-ão de apresentar ao público o livro que apresenta uma bela capa, obra do grande Sérgio Piçarra! Eu estarei lá para os autógrafos da praxe, para os que o adquirirem. Tem mais. Brindaremos à nossa saúde e ao futuro de Angola e dos angolanos.
2 – No Brasil, o bolsonarismo, travestido de imagem nova, menos rústica que a de Jair, o primeiro, venceu a etapa inicial das eleições gerais deste ano. O resultado criou apreensão na comunidade lusófona. O PT perdeu por margem imprevista! No Senado e na eleição de governadores, um pequeno descalabro. Sob o olhar voraz dos Estados Unidos à espreita da hegemonia há muito sonhada no Sul da América, e do avanço da extrema-direita internacional, observa-se um certo desespero da esquerda que vai pecando por uma falta de estratégia global. Os partidários de Lula aguardam, inquietos, pelo segundo turno da peleja. Entretanto, o próprio presidente brasileiro, evidenciando agilidade e habilidades de um jovem político, assumiu a campanha para a nova fase, preparando, com discurso persuasivo, defesas para o contra-ataque esperado.
Eleições e resultados à parte, apreciei a eficácia e o profissionalismo da informação, o modo impecável como a Rede Globo seguiu a par e passo a eleição, e foi comunicando ao público os resultados. Tudo feito quase ao segundo! Porém, não conseguiu fugir às críticas, eternamente marcadas pela confrontação esquerda/direita.
Na condição de cidadão do terceiro-mundo, limito-me à mediocridade a que fui habituado. Aguardando por um tempo melhor, mas que tarda. Esperando que da costumeira forma de fazer as coisas, venha alguma sensatez na informação angolana, sem truques e, sobretudo, sem o anúncio deturpado e tardio dos acontecimentos, mormente dos resultados eleitorais em 2027! Com muita esperança no coração, manifesto-me positivamente sobre o que aconteceu no Brasil, neste capítulo da comunicação, aguardando que dias melhores contemplem os angolanos neste domínio!
Registo, entretanto, uma surpresa. Considero-a de elevado significado. Não me leva ao pasmo, porque já nada me espanta sobre o que acontece no mundo. Onde já vejo certos patrícios a mostrarem-se em ondas de mudança de comportamento inexplicáveis. Defendendo opiniões surpreendentes, não escondendo preferências pela direita radical! Aqui na Tuga, como em Angola, manifestam-se, com maior ou menor recato, os que alinham com o Chega de Ventura ou com o Liberal de Bolsonaro. Será o dinheiro a comandar pensamentos, ou serei eu a ver fantasmas?
Outra curiosidade: mais de vinte milhões de eleitores brasileiros declararam-se negros (pretos e pardos, ou seja, mulatos), número que é considerado o maior já registado nas disputas dos últimos anos. Em 2022 já tinham sido eleitos alguns parlamentares emergentes dessa classe. O que nos trará esta eleição e o que quererá dizer esta faceta do fenómeno da raça na sociedade brasileira? Estarei, a partir de agora, mais atento.
3- A esta hora, e caso não surjam surpresas como a do Dragão ou assuntos como o da novela Ronaldo & Jesus, o Benfica terá, sem qualquer maka, varrido o Vitória de Guimarães. Penso eu de que. Se tudo correr bem, o poderoso Porto dos Andrades, para desgosto do Fernando Pereira e seus seguidores, poderá passar mal nos Barreiros. O Sporting de Varandas lá se safou em Braga, mas não tarda a deslizar. Que assim seja! Pois então, carrega Benfica! Vamos ao 39, rumo ao 40!
Com os meus habituais cumprimentos de despedida, saúdo os estimados leitores, familiares, camaradas, companheiros de luta e amigos. Até ao próximo domingo, como sempre, à hora do matabicho.
Forte da Casa, Portugal, 11 de Outubro de 2026











