
Angola não é apenas Luanda. Há Angola da marginal, dos grandes edifícios, dos hotéis, dos carros de luxo e das avenidas iluminadas. Mas existe também Angola onde a estrada termina antes da aldeia, onde a água chega de bidão, onde a energia é visita de ocasião e onde uma escola pode estar mais longe que a promessa eleitoral.
Em Angola, meus manos, até a política já parece jogo de sinuca!
O jogador olha para a bola branca, calcula o ângulo, dá aquela tacada no bico de sinuca e espera que a bola faça a sua engenharia: bate aqui, ressuscita acolá, contorna a tabela e, se Deus ajudar, cai no buraco certo.
O problema é que Angola é uma mesa enorme, com 1.246.700 quilómetros quadrados, muitas bolas, várias tabelas e alguns buracos que parecem ter sido construídos pelo próprio diabo do urbanismo!
E governar este país é exactamente isso: calcular a tacada sem mandar a bola para o mato.
Nos últimos anos, o Executivo tem apresentado resultados e investimentos em áreas como infra-estruturas, educação, saúde, protecção social e diversificação económica.
Só em 2026, o Plano Anual de Desenvolvimento Nacional prevê cerca de 8 mil actividades, incluindo projectos de infra-estruturas, educação e saúde. Está prevista, entre outras metas, a construção ou reabilitação de cerca de 270 quilómetros de estradas, expansão de salas de aulas e aumento da capacidade hospitalar.
No primeiro trimestre de 2026, o balanço oficial do PDN indicava 194 prioridades materializadas, enquanto o investimento público registava centenas de projectos concluídos. As exportações de bens cresceram 12,3% no mesmo período.
Também há sinais de transformação económica. O Banco Mundial regista reformas destinadas à estabilidade macroeconómica e diversificação, destacando a redução da dívida pública de cerca de 116% do PIB em 2020 para aproximadamente 52% em 2025.
Quer dizer: algumas bolas estão mesmo a entrar no buraco! Só que… o bico de sinuca também tem tabela…
Aqui começa a parte em que o mwangolé olha para a mesa, coça a cabeça e pergunta:
— Chefe, essa bola vai mesmo para todos ou só para os VIP da bancada?
Porque Angola não é apenas Luanda. Há Angola da marginal, dos grandes edifícios, dos hotéis, dos carros de luxo e das avenidas iluminadas. Mas existe também Angola onde a estrada termina antes da aldeia, onde a água chega de bidão, onde a energia é visita de ocasião e onde uma escola pode estar mais longe que a promessa eleitoral.
O próprio Banco Mundial assinala fortes desigualdades, particularmente nas zonas rurais, e observa que cerca de 80% dos empregos continuam informais. Também destaca que o rendimento real per capita em 2025 permanecia abaixo do nível de 2014.
Então, meus manos, temos aqui uma verdadeira sinuca à mwangolé.
A bola da modernização bate na tabela de Luanda…
Pááá!
Vai para Benguela.
Pááá!
Desvia para Huíla.
Pááá!
E quando chega ao Moxico, ao Cuando, ao Uíge, ao Cunene ou ao Bié, já vem a perguntar:
— Ainda tem gasosa para continuar a viagem?
Angola não pode ser uma tacada de Luanda
O grande desafio não é apenas fazer obras. É fazer com que o desenvolvimento tenha geografia nacional; que a estrada construída no centro urbano tenha continuação no município; que a escola nova tenha professores; que o hospital tenha médicos, medicamentos e equipamentos; que a água chegue à população depois da inauguração e não apenas no discurso da inauguração; que a diversificação económica saia dos relatórios e chegue ao agricultor, ao pescador, ao pequeno comerciante, ao jovem empreendedor e àquele kota que produz mandioca mas continua a comprar quase tudo caro no mercado.
Porque uma economia pode crescer no papel e, ao mesmo tempo, o cidadão continuar a perguntar:
— “Mas afinal, onde está o meu crescimento, chefe?”
A sinuca do petróleo
E há outra bola que continua a dominar a mesa: o petróleo.
Angola procura diversificar a economia, mas a dependência petrolífera continua elevada. Segundo o Banco Mundial, o petróleo representava cerca de 20% do PIB, 60% das receitas fiscais e 95% das exportações.
É como aquele jogador que tem quinze bolas na mesa, mas insiste sempre na mesma!
— Joga outra, mano!
— “Não! Esta aqui dá confiança!”.
O problema é que quando o preço internacional do petróleo espirra, Angola começa logo a procurar o lenço.
A tacada do futuro
A governação actual tem, portanto, uma mesa cheia de desafios e algumas bolas já movimentadas.
Há obras. Há reformas. Há investimentos. Há programas sociais. Há avanços na educação, saúde, estradas e protecção social. Mas continuam profundas assimetrias territoriais, dificuldades de emprego, informalidade, pobreza e desigualdade no acesso às oportunidades.
O Banco Mundial, por exemplo, registava até Fevereiro de 2026 mais de 1,4 milhão de agregados familiares já pagos no componente de transferências monetárias do sistema nacional de protecção social.
A questão agora é saber se a próxima tacada conseguirá fazer a bola branca percorrer todo o país. Porque Angola não precisa apenas de uma boa tacada. Precisa de várias tacadas certas, sucessivas e coordenadas. E, sobretudo, precisa que a bola do desenvolvimento não entre apenas no buraco de Luanda.
Tem de entrar no buraco do Uíge, Malanje, Bié, Moxico, Cuando, Huambo, Huíla, Cunene, Namibe, Benguela, Cabinda, Zaire, Cuanza Norte, Cuanza Sul, Bengo e Lunda…
Todos!
Caso contrário, o nosso grande jogador continuará a fazer:
“Tááá!”
A bola bate na tabela…
“Pááá!”
Bate noutra…
E o povo, sentado na bancada, pergunta:
— “Eh pá, kota! Afinal estamos a jogar sinuca ou estamos só a aquecer a mesa?”
Moral da sinuca mwangolé
Governar Angola é saber dar o bico de sinuca: força suficiente para avançar, inteligência suficiente para não perder a bola e justiça suficiente para que a tacada chegue a todos.
Porque uma Angola que avança apenas numa ponta da mesa pode até fazer barulho… mas uma Angola verdadeiramente desenvolvida é aquela em que todas as bolas têm oportunidade de entrar no jogo.
Viva Angola! A mesa é nossa, agora é preciso acertar nas tacadas!
Enquanto isso, vou acertar nas tacadas com o tinto da adega do banzelo.
Bom fim de semana.
*Menga-Ma-Kinfumu










