VIVA ESTE POVO MARAVILHOSO (8)

JAcQUEs TOU AQUI!

A Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde era entidade não grata ao regime, por isso. Destinada a morrer. Há muito se decidira que era instituição para abater, mais cedo ou mais tarde! Determinado por quem mandava! Dúvidas? Um rol de evidências…

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

Óbanga mbote, sakidila xôto

Tradução: Fazes o bem e o agradecimento é um peido (Provérbio kimbundu)

1 – Hoje vou falar brevemente da vida e da morte. Elas não são contrárias, são irmãs. O que não provoca a minha morte, faz com que eu fique mais forte. Há milhares de frases sobre esse conceito. Lembrando a vida porque a morte é certa, preparo-me para a festeja do centenário da mais-velha Helena de Aguiar, que acontecerá daqui a poucos dias. 100 anos de cabeça fresca e lúcida. Viva a vida! A velha Helena é a mãe do meu irmão Quim, o Aguiar dos Santos, o que se antecipou, partiu sem avisar. 

Na quarta-feira, apanhei o metro na Estação do Oriente. Linha vermelha. Inesperadamente, travagem bruta, ferro-com-ferro a chiar, gritos, pessoal assustado. Tremenda confusão. Horas depois, a notícia a circular. Um suicida atirou-se à linha. Linha vermelha interdita. No dia seguinte, a Filomena Espírito Santo, querida amiga, enviou mensagem. Lacónica. O meu irmão Ruy suicidou-se. Atirou-se na linha do metro. Caraças! Precisamente no comboio em que eu viajava. Que coincidência. Tristeza não tem fim. Paz à sua alma!

 2 – À hora em que esta crónica circular, ainda não será conhecido o novo campeão mundial de futebol. Critiquei a qualidade do jogo ao longo do torneio. Porém, as meias-finais, foram duas grandes partidas. Viva o futebol bem jogado! Por razões objectivas, detesto o comportamento cívico dos futebolistas argentinos. Isso não tem nada a ver com a genialidade do Messi ou com a qualidade do Enzo e do Lautaro, e dos outros, inclusivamente do Prestianni, do meu Benfica! Quem vai ganhar o Mundial? Gostaria que fosse a Espanha. Por tudo e mais alguma coisa. 

3 – Vem a propósito. Por isso, segue mais um respigo do meu livro “Viva este povo maravilhoso”. Este, retirado do capítulo “Maldito preconceito”:

“… Houve neste percurso um momento negativo, ainda hoje recordado, passados tantos anos. Não conseguiam esquecer. Aconteceu num dia em que os sete, incluindo até o mais velho Firmino Da Silva, se juntaram à porta do Nacional Cine-Teatro. Estavam ali, ansiosos, na esperança de assistir à estreia da peça As Orações de Mansata”, obra do guineense Abdulai Sila. Inspirada por Macbeth, de William Shakespeare, que abordava o tema da corrupção. A expectativa da estreia levou público considerável à velhinha sala de espectáculos. Um público selecto, com embaixadores e figuras da cultura e da intelectualidade local presentes, aguardando a entrada na sala. Inesperadamente, pelas vinte horas, foi anunciada uma ordem superior, que deixou toda a gente perplexa! A peça não seria exibida porque a sala não oferecia condições de segurança aos espectadores!

         – O edifício tem fissuras, o tecto não oferece segurança, corre o risco de desabar – uma série de explicações mal forjadas foram lançadas para justificar a cena.

Caramba! Como foi que não se deu pelo perigo no período de ensaios? Que vergonha, que triste figura! Os artistas desencantados e o público frustrado, todos reunidos na rua, frente à porta do Nacional, comentando a bizarra cena, não deixando de reclamar e mostrar a sua indignação.

As ordens superiores expressas pela Senhora Ministra da Cultura, doutora Rosa da Cruz e Silva, não convenceram nem encontraram respaldo em nenhuma das verdades inventadas. Ficava bastante claro que tudo o que se relacionasse com denúncias da corrupção devia ser vetado. Não se incomodavam com o escândalo. E relativamente à Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, que para lá da cedência da sala nada tinha a ver com o espectáculo, havia uma ordem que já não podia ser ocultada. Devia ser impedido o seu trabalho, tudo o que lhe desse visibilidade! Obedecia-se cegamente a uma ordem superior, emanada há bastante tempo. Era entidade não grata ao regime, por isso. Destinada a morrer. Há muito se decidira que era instituição para abater, mais cedo ou mais tarde! Determinado por quem mandava! Dúvidas? Um rol de evidências: a escondida orientação às petrolíferas para negarem apoios à agremiação; a proibição à Comunicação Estatal de destacar actividades da Associação; a permanente negação do Estatuto de Entidade Pública à Caxinde, mesmo apoiada por pareceres favoráveis dos Ministérios das Finanças e da Justiça; a vergonhosa exclusão do grupo de Carnaval “Unidos do Caxinde” dos festejos da inauguração do Estádio 11 de Novembro, e os ridículos argumentos públicos, pobres, preconceituosos e discriminatórios, do responsável provincial da Cultura, doutor Manuel Sebastião, para além das dissimuladas mas nunca assumidas tentativas de retratação, de fazerem regressar à Festa do Carnaval, o “Unidos do Caxinde”, vencedor da competição em 2005 e 2010. Enfim, uma vergonha sem paralelo no domínio da cultura angolana! 

A vida continuou, “As Orações de Mansata” não subiram à cena, mas o Nacional Cine-Teatro não caiu. O castigo prosseguiu na sua maldade, com a sala a não ser reaberta ao público. A mentira e as suas pernas muito curtas, foram apanhadas, mais uma vez, em flagrante delito. Tristemente, nas ruas da amargura e do descaramento. Passaram-se mais de dez anos e o Nacional Cine-Teatro manteve-se de pé, para merecer nos dias que correm, honras de restauração e de apoteótica glória a novos figurantes. Angariou-se dinheiro do Estado e foi-lhe dado, felizmente, tratamento merecido, o novo rosto que necessitava. As obras de restauro estão praticamente concluídas, mas têm, contudo, uma marca que as desvirtua e que jamais será apagada. Um conjunto de gestos inqualificáveis, inamistosos, repletos de atitudes impensáveis, numa mistura em que o esquecimento e o modo grosseiro como foi tratada a entidade que cuidou do edifício e o suportou durante trinta e muitos anos tiveram realce; sem o aviso prévio, sem negociação, sem a prestação de contas que a Lei estabelece e obriga todos, o Estado inclusive, quando existem contratos estabelecidos; sem o respeito a que se obrigam os subscritores de contratos legais que defendem quem geriu dignamente, num passado de prestígio, cuidando durante o longo período, a relíquia cultural, sem nenhum apoio estatal, hoje ostentada como se fosse obra particular de um Ministério que, a bem da verdade, esteve sempre alheio a tudo o que dissesse respeito à velha sala de espectáculos. 

Apesar de todos os pressupostos, nunca foi reconhecido o merecido mérito à entidade que a protegeu, desconhecendo-se o motivo dessa decisão, embora se desconfie dela por óbvias razões. Jamais mereceu quaisquer pedidos de desculpas de ninguém e nessa maka, venceram apenas e como sempre, o oportunismo, a arrogância e as vaidades conhecidas dos eternos mestres da prepotência, do oportunismo e da exclusão.”

Fico por aqui. Com os habituais cumprimentos aos parentes, amigos, camaradas e companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 19 de Julho de 2026

One Comment
  1. EXCELENTE E ESCLARECEDOR O PRESENTE ARTIGO.
    Sobre as “famosas” ORDENS SUPERIORES, o nosso Povo precisa que “QUEM MAIS ORDENA” deixe(m) de ser INADIMPLETE(S), que arregace(m) as mangas e ponha(m)-se a REALIZAR A FELICIDADE DE TODOS SEM EXCEPÇÃO…
    Que aprendam com os governantes do Butão -País asiático- que tem instituída como “bitola” de sua governança, não os índices de economia PIB(Produto Interno Bruto), mas os índices de Felicidade FIB(Felicidade Interna Bruto(a)…

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