NO DIA DE MANDELA!

Cabe às novas gerações decidir se permitirão que o medo e a divisão continuem a moldar a África do Sul, o continente e a sua relação com o mundo, ou se escolherão a compaixão, a justiça e a responsabilidade.

RECADOS DA CESALTINA ABREU (120)

Madiba (Nelson Mandela) ensina-nos que sentir medo é natural, mas a verdadeira vitória está em não permitir que esse sentimento paralise as acções estratégicas essenciais. Reconhecer o medo como uma reacção humana permite agir mesmo sob pressão. Transformar a hesitação em acção é o que produz mudanças reais, porque vencer a hesitação é o primeiro passo para exercer uma influência positiva na colectividade.

Liderar em tempos de incerteza exige flexibilidade, capacidade de adaptação e um compromisso inegociável com elevados padrões éticos. A firmeza de propósitos atrai aliados e enfraquece a resistência dos opositores ao progresso humanitário. É a força de espírito perante a adversidade que distingue líderes de ‘chefes’.

A sobrevivência e o fortalecimento de qualquer movimento político dependem de uma sólida base de princípios humanistas. Sem ela, corre-se o risco de, com o tempo, resvalar para o autoritarismo e a exclusão. O combate às desigualdades e a construção da equidade têm de caminhar lado a lado com uma vontade colectiva de justiça social para todos.

E foi precisamente isso que não aconteceu na África do Sul. A principal razão pela qual o país não conseguiu superar plenamente as suas divisões é a persistência da desigualdade. O apartheid político terminou, mas persistiram as estruturas económicas e as relações de poder que produzem desigualdade.

A visão de Mandela continua a confrontar-se com as realidades do pós-apartheid. O surgimento de grupos de vigilantes, como o March and March e a Operação Dudula, ilustra essa realidade, alimentando a violência, a intimidação e a exclusão.

A construção de uma sociedade livre exige direitos fundamentais protegidos por leis eficazes, mas, acima de tudo, uma cultura de respeito mútuo traduzida em práticas quotidianas que deem sentido aos discursos sobre igualdade e direitos. Por isso, Nelson Mandela acreditava que a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo e o rumo dos países africanos. O conhecimento crítico liberta do preconceito e da ignorância e permite construir uma verdadeira nação.

O legado de Mandela permanece vivo, mas não é estático. É um património público em permanente construção, aberto a novas leituras. Entre os seus maiores desafios continua a estar o compromisso genuíno de desmantelar as estruturas do apartheid que ainda persistem. Exige também superar o ego para servir uma causa maior do que a própria sobrevivência.

O sonho da “nação arco-íris”, assente na reconciliação, no respeito, na dignidade humana e na solidariedade africana, bem como a convicção de que o futuro de África depende da unidade e não da divisão, exige uma abordagem sistémica que coloque a governação e a economia ao serviço do progresso e do bem-estar dos seus povos. Cabe às novas gerações decidir se permitirão que o medo e a divisão continuem a moldar a África do Sul, o continente e a sua relação com o mundo, ou se escolherão a compaixão, a justiça e a responsabilidade.

O legado de Mandela é, acima de tudo, um convite à reflexão e à escolha: perpetuar as desigualdades estruturais de um sistema capitalista predatório ou construir um mundo mais justo, equilibrado e solidário.

Bom sábado. Saúde, cuidados e coragem para transformar a visão de Mandela em realidade. 

Kandando daqui!

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