“Onde irá parar o país com essa Segurança de Estado?”
EDIÇÃO DE RAMIRO ALEIXO
Uma pergunta formulada por Brito Júnior numa das fases mais difíceis do período de tortura que viveu sob cativeiro da DISA, que, decorridos 50 anos de independência, continua a não ter resposta, num Estado Democrático e de Direito, como estabelece a CRA, uma vez que o funcionamento das instituições, tal como naquela fase, continua a ser em defesa do partido governante e não do Estado.
Com esta IV parte, prosseguimos com a publicação da carta escrita pelo falecido nacionalista Mateus Morais de “Brito Júnior”, na sequência da sua detenção, aos 30 de Junho de 1977, por suposto envolvimento na tentativa de golpe de Estado de 27 de Maio, quando, como refere, apenas tinha lido uma cópia das teses de defesa de Nito Alves em casa de um amigo, quadro efectivo da Rádio Nacional de Angola.
Na carta, Brito Júnior descreve, com clareza, a tortura a que foi submetido, sobretudo pelo “chefe Carlos Jorge”, condecorado pelo Presidente da República e do MPLA, João Manuel Gonçalves Lourenço – como reconhecimento pelos elevados serviços prestados à Nação -, que se considerava o terceiro homem na estrutura de mando da DISA, “com poderes de vida e de morte” sobre todos os detidos. E, de facto, o “chefe Carlos Jorge” não só torturou, pessoalmente, como participou na direcção de uma máquina responsável pelo assassinato de mais de 30 mil angolanos (e portugueses) por todo o país, condenados sem qualquer julgamento. Como está patente nesta quarta parte da carta de Brito Júnior, concluída aos 18 de Julho de 1980, três anos depois, com cópias restritas dirigidas ao então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, e ao Procurador-Geral da República, Antero de Abreu.
“O terceiro homem na hierarquia da DISA é um sádico torturador”

Vi o chefe Carlos Jorge com um objecto de arame na mão, em forma de alicate, com duas pontas afiadas e senti dores violentas quando ele começou a picar-me nas orelhas.
Dia 13/Julho/1977. Ninguém apareceu para nos levar ao posto médico. Cada um de nós via os outros com aspectos horríveis. Caras inchadas, sangue coagulado e ressequido nas barbas, nas roupas. Continuávamos sem higiene de espécie alguma. Não tínhamos toalha, não tínhamos sabão, nem escova de dentes. Para as necessidades maiores rasgávamos folhas dos cadernos da UNICEF que nos davam. A pior tortura era a do sono. Desde o dia 7 até este dia só estive na cela geral no dia 9. Todos estes dias era obrigado a permanecer assentado, vigiado de dia e espancado de noite, sempre sem dormir. Nem sequer nos deram uma manta para pormos sobre os ombros maltratados. Os maxilares não me permitiam mastigar e limitava-me a chupar uma “espécie” de leite que nos davam de manhã.
De vez em quando um militar espreitava. Eu decidi utilizar aqueles cadernos da UNICEF para redigir a minha defesa e, conforme me permitiam as dores do corpo maltratado e a vista, fui descrevendo todas as fases da minha vida, o passado colonial lá no mato, o esforço para estudar e conseguir um emprego, o meu trabalho militante na clandestinidade e depois do 25 de Abril, as minhas viagens ao estrangeiro; escrevia afanosamente.
Anoiteceu. O medo fazia-me vibrar de nervosismo. A noite significava espancamento e depois das 22 horas começamos a aguardar a entrada dos torturadores habituais. 23 horas, 24, 1, 2, 3 horas, o chefe Carlos Jorge não aparecia. Que alívio! Cerca das 3 e 30 da madrugada apareceram 4 militares. Notei que estavam embriagados. Um deles disse: hoje fizeram a comunicação da Declaração do Bureau Político sobre o Fraccionismo; vocês estão fodidos, os vossos nomes estão lá. Nenhum de nós abriu a boca. Eu estava tão ciente da minha inocência que não acreditei nem um bocado que o meu nome viesse ligado ao fraccionismo. Subitamente um dos militares, de pistola em punho, foi para junto da porta e os outros três aproximaram-se mais de nós e começaram a dar-nos coronhadas de pistola e socos. Um deles subiu sobre a mesa e rodopiando sobre um pé dava golpes de karaté com a outra perna, atingindo-nos na cara; quando recuássemos os corpos os outros dois davam-nos tremendos socos nas costas. Nós gritamos, gritamos. O militar que estava junto à porta fez um sinal e os outros pararam de nos bater e desapareceram. Vimos então chegar o chefe Osvaldo Inácio. Confirmou-nos que nessa noite tinha sido feita a Comunicação do Bureau Político. Ordenou que continuássemos a escrever e saiu. Dos 4 militares dessa noite só me recordo ter ouvido pronunciar um nome: Brazzaville, um jovem com aspecto de ter 18 a 20 anos.
Dia 14/Julho/1977. A situação permanecia inalterável. Ninguém nos tirava daquele maldito lugar. Durante o dia lá aparecia o chefe Inácio ou um outro militar para vigiar-nos se estávamos a escrever ou não. Anoiteceu. Nunca odiei tanto a noite. Noite era para mim sinónimo de torturas selváticas. Tremia de medo e frio. Como seria esta noite?
Cerca das 23 horas surgiu o chefe Carlos Jorge e, como habitualmente, acompanhado de 4 militares. Dirigindo-se para mim, perguntou: (vou reproduzir)
– Quem manda na DISA?
– O Comandante Ludi, respondi.
– Quem manda a seguir ao Comandante Ludi, tornou a perguntar.
– Creio que é o comandante Onambwe.
– E a seguir ao comandante Onambwe, continuou a perguntar.
– Sinceramente não sei quem é, respondi.
– Pois fica sabendo que sou eu. Sou a terceira pessoa na DISA e tenho poder de vida e de morte. Vocês estão fodidos. Estamos a criar condições para que nem daqui a 30 anos vocês possam levantar a cabeça. (dizia isto com o rosto congestionado e esgar de ódio evidente).
Um dos militares segurou-me a cabeça e começou a pressionar violentamente sobre os pensos. Gritei de dor. Vi o chefe Carlos Jorge com um objecto de arame na mão, em forma de alicate, com duas pontas afiadas e senti dores violentas quando ele começou a picar-me nas orelhas. Eram dores agudas, assim como se estivesse a ser picado com uma agulha. Naturalmente, eu gritava constantemente, mas parece-me que os gritos excitava-os. A dado momento um militar postou-se à minha frente e disse-me para ficar quieto e não mexer a cabeça (tinha na mão uma pistola apontada para mim). Eu me mantinha sentado, de cabeça erguida e a olhar para o cano da pistola. O chefe Carlos Jorge e mais um militar, grandalhão, passaram para trás de mim e, um de cada vez, começaram a chapar as minhas orelhas com as duas mãos simultaneamente. Foram dando e revezando-se até que o meu ouvido esquerdo começou a jorrar sangue. Compreendi que me tinham rebentado o ouvido. Instintivamente rebelei-me e levantei as mãos para cobrir os ouvidos. Arranjei a boa e a bonita! Caíram sobre mim e sobre os colegas de infortúnio. Fomos espancados barbaramente, ao mesmo tempo que proferiam obscenidades. Foi terrível. Lentamente perdi a noção da dor, do tempo e do espaço. Suponho que fiquei inconsciente porque não me recordo de os ver sair.
Dia 15/Julho/1977. Durante o dia ninguém apareceu. Cada um de nós curtia a sua dor. Curioso é que não sentia sono, só dores em todo o corpo. Desde o dia 7 só tinha dormido no dia 9 mas não sentia sono. Comecei a preocupar-me. Será que ficaria louco? Olhei para o Marques; já não parecia branco, de tantas nódoas negras e tanta sujidade. Tinha os olhos abertos mas a respiração era de quem estava a dormir. Abanei-o. Acordou sobressaltado, pegou na caneta e pôs-se a escrever. Tive pena dele. Sentado, de olhos bem abertos, o homem dormia! Olhei para o Laleca, para o Paizinho. Um espetáculo triste. Sangue ressequido nos rostos, nas barbas, nas cabeças; rostos entumecidos; olhos encovados. Pareciam homens desenterrados! Anoiteceu mais uma vez e pensei no pior. Carecíamos de tratamento, mas ninguém nos ligava. Já estamos condenados, pensei.
Como sempre, aguardei a chegada de Carlos Jorge, o 3º homem da DISA! Embora destroçado ainda tinha noção de mim mesmo, ainda resistia. Meditava: onde irá parar o País com uma Segurança de Estado cujo 3.º homem na sua hierarquia é um sádico torturador? Este pensamento angustiava-me. Quase à meia-noite apareceu o chefe Osvaldo Inácio. Mandou uns “bafos” e desapareceu. O chefe Carlos Jorge não aparecia! Que alívio na tristeza! O Marques disse-me que eu tinha bolhas na testa e nas orelhas, que deviam ser das queimaduras de cigarros na véspera. Eu não me recordava dessas queimaduras porque caíra na inconsciência.
Lá para as 3:30 horas da madrugada entraram 4 militares, armados de pistola, exalando odores alcoólicos e atitudes de semi-embriagados. Um deles, com sotaque de natural de Icolo e Bengo, disse: “sou oficial”!Trazia um gravador de cassete. Pôs o gravador a tocar e voltando-se para nós o “oficial” disse: “levantem-se e dancem”. Nenhum de nós se levantou. O “oficial” tornou a ordenar: “levantem-se e dancem”. Nenhum de nós se levantou. O “oficial” tornou a ordenar: “levantem-se e dancem, já disse”. Nós continuamos sentados. Quem ia dançar no estado em que nos encontrávamos. Fracos, trémulos, doentes, maltratados. Continuamos quietos. O “oficial” enfureceu-se, pegou a pistola pelo cano e começou a dar no Marques. Os outros militares pegaram também as pistolas e começaram a dar coronhadas e socos e pontapés a todos nós, gritando impropérios. Claro que fomos obrigados a ficar de pé. “Dancem, seus bandidos, dancem, senão apanham”, gritavam os militares da DISA, da Segurança do Estado! Virei-me para o Paizinho e disse: “É melhor mexermos os pés senão eles começam a disparar; estão embriagados e assim tornam-se mais perigosos”. Começamos então a mexer as pernas descompassadamente. A música que estava a tocar era um “kavache”. O “oficial” não ficou contente. Pegou na pistola e pôs-se novamente a dar coronhadas, gritando: “mexam-se, mexam-se, mais animação”!Nós começamos a mexer as pernas mais rapidamente e vimo-lo satisfeito. Deixou de bater. Quando o ritmo da música atingiu o rubro, isto é, na fase de mais ritmo, o “oficial” gritou para nós: “é agora, é agora; animação, animação”. E, para espanto meu, vi-os agarrados, formando dois pares e a dançarem, muito animados! As lágrimas começaram a cair abundantemente dos meus maltratados olhos. Uma tristeza profunda me invadiu, perante aquela palhaçada. “E são estes elementos da Segurança do Estado; meu querido País, para onde vais”?, lamentei no fundo do meu íntimo.
A sessão de dança e coronhadas durou até acabar a cassete. Saíram trôpegos e com ares de satisfeitos. Era alta madrugada. Sentamo-nos exaustos, tristes e abatidos.
Dia 16/Julho/1977. Continuamos a carecer de tratamento imediato. Eu, particularmente, sentia-me completamente destroçado. Durante toda a manhã, só uma vez apareceu um militar espreitar: No período da tarde a situação continuava inalterável. O ambiente da sala era nauseabundo. Cheirávamos mal, de tão sujos, de sangue podre. Além da profunda depressão em que me encontrava, de vez em quando parecia-me ter visões: com os olhos abertos eu via os meus filhos à minha frente, a falarem para mim. Fiz contas à vida: o chefe Osvaldo Inácio trouxe-me para estas salas no dia 7. Até hoje, dia 16, só passei o domingo, dia 9, na cela geral. Não dormia, mal me alimentava, todas as noites era espancado, humilhado, espezinhado, praticamente sem tratamento. Qual era a finalidade de tudo isto? Talvés pretendessem que eu me revoltasse para justificar procedimentos posteriores; ou então deixar-me-iam naquela situação até perder o juízo; ou então me queriam matar lentamente, com torturas sistemáticas. Uma destruição lenta, física e psíquica.
Voltei-me para os outros e disse: “não aguento mais; temos que tomar qualquer atitude senão vamos morrer aqui; vamos sair para ver se contactamos algum responsável lá fora”. Os outros disseram que era perigoso sairmos porque talvés pensassem que íamos fugir e disparassem. Mas eu atingira o limite do razoável. Cerca das 18 horas saí da sala, atravessei um pequeno corredor, abri a porta que dava para fora e fiquei ali trôpego mas de pé, aguardando que passasse alguém. Um militar que passava parou e olhou para mim como se estivesse a ver um fantasma. Pedi: “camarada, pode chamar o chefe Osvaldo Inácio”? O homenzinho foi a correr. Devo estar com um aspecto terrível, pensei. Minutos depois apareceu o chefe Osvaldo que me perguntou o que eu queria. Respondi simplesmente: “tire-me daqui, quero dormir e lavar os dentes”. Ele olhou para mim demoradamente, suspirou, chamou um militar que passava e disse: “vá com este senhor ao posto médico e depois de tratado leve-o para a cela B”. Voltando-se para mim ordenou que fosse primeiro buscar os papeis e cadernos que escrevera. Voltei à sinistra sala, despedi-me dos colegas, juntei os papéis e cadernos da UNICEF, entreguei-os ao militar e acompanhei-o. Verifiquei que havia escrito nada mais nada menos que 51 páginas. Toda a minha vida, toda a minha defesa, estava naquelas folhas. Nelas desabafei tudo, até a decepção daquilo que eu supunha ser uma “Segurança do Estado”, a DISA.
Fui levado ao posto médico. O tratamento foi penoso, tão maltratado me encontrava. A fraqueza física era geral. Quase não ouvia nada do ouvido rebentado tão dramaticamente.
Quando me levaram para a cela B sentia uma sensação de alívio que até me parecia estar a ser levado para a liberdade, para um outro mundo. No entanto estava na mesma cadeia a uns metros das salas de tortura! Foi dramática a minha entrada na sala. Alguns choravam ao ver-me. Eu era uma máscara informe. Vi caras novas de presos que entraram quando eu estava no “gólgota”, dentre os quais um meu amigo de longa data, Miguel Garcia Mendes Júnior, funcionário da Geologia e Minas e estudante de medicina. Este poderá testemunhar em que estado apareci na cela B. Rodearam-me de conforto moral. Cuidaram de mim. Dormi sob os efeitos dos calmantes que me tinham sido administrados. (soube que os outros companheiros de tortura tinham sido levados para as respectivas celas naquele mesmo dia. Até o Marques foi tirado daí. Sempre valera a pena a minha ousadia).
Dia 19/Julho/1977. Passei os dias 17 e 18 a ser cuidado pelos companheiros da cela. Era friccionado, alimentado a leite, dado que não conseguia ainda mastigar. No dia 19, cerca das 9 horas, apareceu de novo o chefe Osvaldo Inácio. Levou-me novamente para a sala das torturas anteriores. Lá encontrei um novo preso, chamado Olavo. O chefe Osvaldo deu-me mais um caderno da UNICEF e disse-me para continuar a escrever já que me tinha dado dois dias para recuperar! No entanto, antes de sair perguntou-me: “conheces o chefe Carlos Jorge há muito tempo”? Respondi-lhe que nunca conhecera o chefe e só ouvira falar dele já na prisão, dentre os presos. “Não estiveste preso com ele em S. Nicolau”?, insistiu. Tornei a responder que não. Ele saiu murmurando: “é estranho, é estranho”. Ali fiquei, desamparado, impotente. Pensei: “estes indivíduos estão mesmo apostados em dar cabo de mim de qualquer forma”. Conversei um pouco com o Olavo. O moço aparentava 19 anos de idade, era estudante de Economia e também professor do ensino secundário, de raça branca.
De vez em quando vinha um militar espreitar para ver se estávamos a escrever ou não. Ameaçava e ia embora. Aproveitei clarificar melhor o que escrevera nos cadernos anteriores e também dar a minha opinião sobre a forma como estava a ser barbaramente tratado. Só nos cadernos tinha oportunidade de “falar”, já que até aquele momento não me tinham feito um interrogatório em forma. Sentia-me doente, o meu corpo continuava inchado. A tensão nervosa até me dava vertigens. Anoiteceu. A expectativa era de arrasar com os nervos. No entanto, amanheceu sem novidades. Ninguém apareceu durante a noite.
O dia 20 decorreu também sem novidades. No dia 21 apareceu o chefe Osvaldo Inácio e aproveitei-lhe dizer-lhe: “chefe tire-me daqui, estou doente e não aguento isto. Um pouco de humanidade, já sofro demais”. Falei em tom de súplica. Então ele chamou um militar e ordenou que me acompanhasse à minha cela. Os companheiros da cela ficaram aliviados porque desta vez regressava sem ter sido de novo espancado. Contudo, trazia os nervos mais destroçados do que anteriormente. No espaço de duas semanas tinha permanecido nas salas de tortura 11 dias, sem dormir, sem higiene, sem uma manta sequer, torturado física e moralmente, humilhado. Terrível. Na cela fiquei a saber que o chefe Carlos Jorge não estava em Luanda, viajara para o interior, em serviço. Que alivio e que sorte tive.
Continua…










