(ENSAIO AUTOCRÍTICO)

Na última semana do mês de Abril de 2026 ocorreram no Brasil três factos que constituem sinais de alerta e, simultaneamente, diagnóstico do estado político de Lula da Silva neste terceiro mandato, assim como da força do ‘petismo’, que, tradicionalmente, foi (até recentemente) uma emanação da vontade popular oriunda das bases da Esquerda brasileira, numa dimensão indissociável das redes, conexões e comunhão de lutas regionais que reanimavam as Esquerdas da América-Latina.
No período em referência, pela primeira vez em três mandatos presidenciais, o Senado rejeitou uma indicação feita por Lula da Silva, que propunha Jorge Messias para o cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal. A última vez que o Senado rejeitou uma indicação presidencial foi em 1894. De igual modo, a Câmara dos Deputados e o Senado derrubaram o veto sobre um Projecto de Lei que pode permitir a redução da pena de prisão de Jair Bolsonaro. Como se não fosse suficiente, Lula da Silva, que em Abril de 2022 granjeava uma vantagem em relação a Jair Bolsonaro que oscilava entre 29 e 32 pontos percentuais, sofreu uma queda acentuada de popularidade, segundo a pesquisa Quaest de 14 de Abril de 2026, que revelou uma vantagem de Lula de apenas 5 pontos percentuais (37%) em relação a Flávio Bolsonaro (32%) a nível das intenções de voto.
Certamente, sectores do interior da Esquerda brasileira têm como justificação, para a sucessão dos factos referidos, um conjunto de aspectos de ordem económica e social. Porém, a realidade é que existe um evidente derretimento da popularidade de Lula da Silva, desintegração da Esquerda brasileira, por um lado e, por outro, uma reorganização da Direita e da Extrema-direita.
Sempre existiu o velho mito, segundo o qual Lula da Silva é um articulador nato, com experiência em movimentar-se nos meandros do xadrez político brasileiro. No entanto, o que esta perspectiva perde de vista é o facto de que, todas as vezes que Lula obteve votações favoráveis da parte do Congresso (uma máquina movida por negociatas sob controlo do centrão) foi em posição de força. Um Lula da Silva com aceitação em alta e uma Esquerda coesa e forte constituem uma moeda de barganha demasiado valiosa, que o submundo da Câmara dos Deputados e do senado jamais menosprezaram.
Se, por um lado, Lula da Silva se transformou num activo valioso para a Esquerda brasileira, latino-americana e mundial, por outro lado, o ex-sindicalista jamais teria chegado ao patamar que chegou sem a aceitação e o apoio popular, principalmente das classes trabalhadoras. Sempre se tratou de um fenómeno político de retroalimentação, em que o poder de Lula reside no povo e neste a origem da força da Esquerda.
A ser assim, o que terá ocorrido com Lula da Silva?
A história de uma legitimidade perdida
Em 1982, depois de ter perdido a eleição para o governo de São Paulo, Lula da Silva pensou em desistir da política. Quando, em 1985, visitou Cuba e conheceu Fidel Castro, em meio à conversa, Lula expressou o seu desencanto por ter obtido apenas 10% (correspondente a um milhão de votos), tendo reiterado a intenção de não prosseguir. Foi o líder cubano que o incentivou a não desistir. Fidel disse a Lula: “não existe na história da humanidade nenhum metalúrgico que tenha obtido 1 milhão de votos’’.
As palavras de Fidel Castro foram revigorantes para a determinação de Lula da Silva em permanecer na luta política, tendo, em 1986, sido finalmente eleito à Câmara dos Deputados.
No início dos anos 2000, emergiu a chamada maré rosa na América-latina, caracterizada pela ascensão de diversos governos de Esquerda numa região que, durante várias décadas, esteve sob o domínio de grupos de Direita, profundamente submissos ao império norte-americano. Inaugurada pela vitória da Revolução Bolivariana com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, em 1999, a maré rosa estendeu-se ao Brasil, com a eleição de Lula da Silva em 2002, Argentina, com a vitória de Néstor Kirchner em 2003, Bolívia, com a eleição de Evo Morales em 2006, e com a vitória de Rafael Correa, formulador da Revolución Ciudadana no Equador, em 2007.
A trajectória política de Lula da Silva como líder sindicalista e como personalidade activa na luta dos trabalhadores e das classes desfavorecidas, num país como o Brasil, profundamente marcado por séculos de racismo estrutural e de desigualdades sociais endémicas, aliada à importância geográfica e económica do referido país no contexto regional e mundial, levou a que sectores intelectuais e políticos de diversas partes do globo passassem a prestar maior atenção ao desempenho governativo de Lula, desde a sua primeira vitória como presidente.
Para os intelectuais e defensores de políticas de Esquerda em África (e um pouco por todo o mundo), a maré rosa na América Latina, assim como a ascensão de Lula da Silva à presidência do Brasil, representou o renascimento da luta pela preservação do interesse e do bem-estar das classes exploradas, da solidariedade internacionalista entre os povos, do respeito a soberania dos Estados e da construção de um mundo que busca a paz e a justiça social (elementos que constituem a base da Esquerda política), numa era de globalização, dominada pelo neoliberalismo, que vem implementando um acelerado processo de desumanização das sociedades.
Tal como revela a sua própria biografia, Lula da Silva nunca foi um marxista convicto. Tanto que, a génesis do seu percurso político deve-se à influência do seu irmão José Ferreira da Silva, “Frei Chico’’, militante do Partido Comunista Brasileiro no período em que Lula ascendeu no seio das lutas sindicais.
Numa publicação de 2008, da Oficina de Publicaciones del Consejo de Estado[1] de Cuba, constam memórias e reflexões de Fidel Castro sobre Lula da Silva, com quem estabeleceu diversos encontros, tanto nas visitas do político brasileiro a Havana, ainda na época das lutas sindicais, como em contactos posteriores ao primeiro mandato presidencial de Lula. Na acepção de Fidel, Lula “nunca fue un extremista de izquierda, ni ascendió a la condición de revolucionário a partir de posiciones filosóficas, sino de las de un obrero de origen muy humilde y fe cristiana, que trabajó duramente creando plusvalía para otros”.
A caracterização do perfil político e ideológico de Lula da Silva feita por Fidel Castro corresponde perfeitamente ao que os resultados da governação do político brasileiro revelaram ao mundo, tanto em termos do esforço pelo combate contra a fome e a desigualdade social, como na predisposição de corrigir erros históricos intrínsecos à natureza da sociedade brasileira, mas também na construção de relações de fraternidade com os demais povos da América-Latina, de África e das restantes regiões do globo. Foram estas as premissas que levaram a que diversos sectores da Esquerda, em todo mundo, manifestassem o seu apoio a Lula da Silva, mais do que a pessoa em si, mas, fundamentalmente ao que ele representava.
Os resultados da governação de Lula da Silva, nos dois primeiros mandatos, traduziam na prática o fim último da actuação política em prol de um progresso social harmonioso, em que o resgate da dignidade das classes desfavorecidas e a ascensão da classe média não significava necessariamente prejuízo material contra outras esferas da sociedade. Uma experiência social, que provou ser possível combater a pobreza sem gerar danos contra o capitalista ou o detentor dos meios de produção, como também projectou naquele período, uma política externa por meio da qual o Brasil pôde estabelecer trocas comerciais e relações exteriores baseadas no respeito mútuo, na realização de interesses recíprocos assente no princípio do progresso comum.
O modelo de governação então implementado por Lula da Silva representou fonte de inspiração e motivo de esperança para o Sul Global, em que, salvaguardando cada uma das especificidades locais, fez renascer a função primária do Estado, que consiste na materialização dos anseios e necessidades elementares das populações. Estas e outras razões levaram a que Lula da Silva granjeasse imenso apoio a nível internacional (principalmente junto de sectores de Esquerda), mas também a inveja e a perseguição por parte das forças situadas nas antípodas da emancipação das classes desfavorecidas e do combate à pobreza.
Em 2018, como resultado de uma conspiração urdida por sectores da direita brasileira em conluio com interesses estrangeiros, foi decretada a prisão de Lula da Silva. Vinte meses depois do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, uma brutal investida antipolítica contra a Esquerda no Brasil (principalmente contra o Partido dos Trabalhadores), por meio de Lawfare, teve como principal objectivo propagar o ódio contra sectores “nacionalistas’’, impedir o retorno de Lula à presidência e abrir caminho para a ascensão de uma elite “entreguista’’ e títere dos EUA e da Europa ocidental, que por via republicana jamais ascenderia ao poder.
Durante os 580 dias em que foi mantido na prisão, Lula da Silva recebeu o apoio de milhares de brasileiros, alguns dos quais permaneceram reunidos em frente à sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, desde o primeiro ao último dia, no que ficou conhecido como Vigília Lula Livre.
O apoio a Lula da Silva não se circunscreveu apenas ao interior da República Federativa do Brasil. Milhares de pessoas em todo o mundo, maioritariamente militantes de Esquerda ou progressistas fora do Brasil, constituíram um vasto bloco de pressão a favor da libertação de Lula da Silva. Para quem, como nós, mesmo estando fora do Brasil, acompanhava milimetricamente as transformações sociais, económicas e ideológicas, que vinham ocorrendo desde a vitória de Lula da Silva para o primeiro mandato presidencial, fundamentalmente a nível das acções enquadradas na luta de classes, havia a plena certeza de que Lula era inocente das acusações que pesavam sobre si e que a sua prisão era uma prisão injusta, fruto de uma vergonhosa perseguição política. Por isso mesmo, no caso concreto de Angola, fomos os primeiros a denunciar o golpe contra Dilma Rousseff e o Lawfare que constituía o processo contra Lula da Silva. De forma incansável fizemo-lo nos órgãos de imprensa angolanos e estrangeiros, nas redes sociais e em acesos debates com pessoas próximas. Sempre defendemos, sem pestanejar, a inocência de Lula da Silva.
A Esquerda latino-americana esteve na linha da frente da defesa da libertação de Lula da Silva. No espaço geográfico exterior ao Brasil, desde o México à Argentina, centenas de lideranças políticas ergueram a sua voz denunciando a perseguição política e reiterando a certeza na inocência de Lula.
A respeito do processo contra Lula da Silva, Evo Morales, na Bolívia, escreveu o seguinte: “Estamos presenciando una de las injusticias más grandes del siglo XXI. Quieren encarcelar a un hombre inocente que dio su vida por su país y que logro que decenas de millones de brasileños salgan de la miséria y del hambre. Hoy más que nunca, estamos contigo Hno. “LulaValeALuta’’.
No mesmo período, Cuba foi sede da 24ª edição do Fórum de São Paulo, ocasião em que os maiores partidos de Esquerda da América Latina e Caribe reforçaram o compromisso de transformar a campanha internacional pela libertação de Lula da Silva como uma componente da luta regional.
No dia 10 de Abril de 2018, o Presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolas Maduro, em virtude da prisão de Lula da Silva, reagiu em acto público afirmando o seguinte:
´´Lula es un preso político de la oligarquia judicial y mediática del Brasil y desde Venezuela lo denunciamos. Sabemos que quieren impedir que Lula sea candidato presidencial“. (…). ´´Y allá en la celda de 15 metros cuadrados donde tienen secuestrado de manera criminal a Lula le mandamo el mensaje de apoyo del Pueblo de Venezuela. ¡Fuerza Lula!, ¡Que Viva Lula Libre!“.
Um ano depois, na mesma data, 10 de Abril de 2019, centenas de cidadãos venezuelanos concentraram-se na Plaza Dieogo Ibarra, em Caracas, num acto internacional de apoio a Lula da Silva.
Em 21 de Maio de 2019, Lula da Silva ainda se encontrava detido quando, durante uma entrevista concedida ao jornalista Glenn Greenwald, afirmou de forma categórica, que o Departamento de Justiça dos EUA estava por trás da operação Lava Jato e da sua prisão. Uma constatação que era mais do que evidente para a maioria dos analistas de geopolítica, era assim finalmente afirmada por Lula, na primeira pessoa.
A 8 de Novembro de 2019, Lula da Silva foi posto em liberdade, depois de uma decisão do STF, que considerou a sua prisão inconstitucional, depois de terem sido tornados público vários factos que provaram o conluio entre o juiz e procuradores que actuaram de forma criminosa no processo judicial. A soltura de Lula da Silva, depois de 580 dias de prisão, foi celebrada por todos os movimentos, lideranças e apoiantes de Esquerda no mundo inteiro, com principal incidência na América Latina.

A apostasia de Lula da Silva
A 10 de Novembro de 2019, uma conspiração urdida por sectores internos em obediência a interesses externos, impôs um golpe de Estado contra Evo Morales, então presidente da Bolívia, eleito legitimamente por uma maioria popular.
Lula da Silva, que havia sido posto em liberdade apenas dois dias antes do golpe contra o presidente eleito da Bolívia, uma semana depois, durante uma entrevista ao jornal The Guardian, afirmou que Evo Morales “cometeu um erro ao buscar um quarto mandato“. Ou seja, para Lula, Morales era o culpado por ter sido vítima de um golpe, depois de a larga maioria dos bolivianos o ter elegido presidente.
Posteriormente, relatórios de diversas entidades independentes, como por exemplo o da própria Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos, comprovaram as atrocidades cometidas pelos golpistas, tendo várias fontes apontado Luis Almagro, Secretário-geral da OEA, como um dos principais promotores do golpe, com a participação de outros actores da extrema-direita latino-americana ao serviço dos EUA.
Um ano depois, quando questionado se os EUA teriam organizado o golpe de Estado contra Evo Morales no intuito de se apoderarem do lítio da Bolívia, Elon Musk, o empresário norte-americano de tendência neonazista, respondeu da seguinte forma: “vamos dar golpe em quem quisermos. Lide com isso!“.
Em 2022, Lula da Silva foi o cabeça de lista de uma coligação eleitoral composta por nove partidos. Para surpresa de muitos observadores e analistas dentro e fora do Brasil, Lula escolheu como vice-presidente Geraldo Alckimin, de Direita e antigo adversário político, enquanto o PT integrou uma chamada frente ampla inimaginável, que inclui o PSDB – partido situado nas antípodas da Esquerda. As justificações para o embarque nesta viagem de tamanho risco ideológico foi que, acima de tudo, estava a necessidade de derrotar a Extrema-Direita. Para o alcance de tal objectivo todas as receitas eram válidas, inclusive colocar o inimigo mortal dentro da própria casa – argumentavam alguns esquerdistas. Em 30 de Outubro do mesmo ano, Lula da Silva venceu a segunda volta das eleições com 50,9% dos votos, derrotando Jair Bolsonaro, que obteve 49,1%, num pleito que foi a disputa eleitoral mais renhida da história do país.
Bolsonaro e a extrema-direita brasileira não reconheceram os resultados eleitorais, alegando a ocorrência de fraude. Teve então início um conjunto de protestos, dos quais o ponto mais alto ocorreu no dia 08 de Janeiro de 2023, quando centenas de apoiantes radicais de Jair Bolsonaro invadiram a Praça dos Três Poderes em Brasília, causando danos consideráveis às instalações do Supremo Tribunal Federal e do Palácio presidencial, actos considerados ataques graves contra as instituições republicanas e contra a democracia brasileira.
Em consequência das ocorrências do 08 de Janeiro de 2023, até Maio de 2026 foram condenadas um total de 1.402 pessoas, das quais 190 permanecem presas. Dentre os condenados, pelo que ficou considerado também como trama golpista, constam altos nomes da extrema-direita brasileira, tais como, Jair Bolsonaro (ex-presidente do Brasil), Walter Braga Netto (ex-ministro da defesa) e Anderson Torres (ex-ministro da justiça e segurança pública).
Os atentados contra as instituições republicanas do Brasil, protagonizados por militantes da extrema-direita, foram condenados pela larga maioria dos governos da América-latina e de outras partes do mundo, assim como amplamente divulgados pela imprensa mainstream.
Em 28 de Julho de 2024, foram realizadas eleições presidenciais na Venezuela. Durante o período de apuramento dos votos, um ataque cibernético[2] (cuja origem foi a Macedónia do Norte) impediu a transmissão dos resultados eleitorais que deram a vitória a Nicolas Maduro. A oposição de extrema-direita, sob a liderança de Maria Corina Machado, instrumentalizou o bloqueio sofrido pela comissão eleitoral e implementou aquilo que na verdade sempre foi o seu objectivo – propagar o discurso da fraude e, mais uma vez, promover agressões físicas contra figuras políticas, militantes chavistas, assim como a destruição de instalações públicas e privadas.
Perante esta situação, o Tribunal Superior de Justiça ordenou que todos os partidos remetessem os comprovativos físicos dos resultados eleitorais sob sua posse. Paradoxalmente, o candidato Edmundo Gonzales Urrutia, que reivindicava vitória sobre Maduro e que tinha Maria Corina Machado como cabo eleitoral atípico, apesar de terem publicado na internet várias actas eleitorais falsas ou adulteradas, não foram capazes de defender a sua revindicação junto da referida instância judicial. Ou seja, a oposição radical de extrema-direita não apresentou provas sobre a alegada vitória nem sobre a aludida fraude. O Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela trabalhou com os elementos que foram entregues pela oposição moderada e pelo partido PSUV, tendo o resultado confirmado a vitória inequívoca de Nicolas Maduro com 51,20% dos votos, contra os 44,20% obtidos por Edmundo González.
A táctica da terra queimada propagada pela oposição radical venezuelana foi rapidamente abraçada e massificada por toda a extrema-direita latino-americana, assim como pelos governos e pela imprensa ocidentais. De forma rápida e automática, a falácia sobre fraude foi reverberada pela máquina de desinformação à escala global ao serviço dos inimigos da Revolução Bolivariana. Estranhamente, a Venezuela foi convertida em assunto de política interna de diversos países, incluindo o Brasil.
Numa postura grave, vergonhosa e desrespeitosa para com a soberania da República e das instituições venezuelanas, Lula da Silva e seu governo não reconheceram a vitória de Nicolas Maduro, tendo liderado o grupo de ingerencistas que passaram a exigir às autoridades da Venezuela, que apresentassem umas supostas Actas, procedimento estranho às regras vigentes na República Bolivariana.
Lula da Silva, do Brasil, e Gustavo Petro, da Colômbia, retiraram as respectivas máscaras e abraçaram a causa da extrema-direita latino-americana, onde já se encontrava Gabriel Boric, do Chile (um dos maiores retratos do quinta-colunismo no seio da suposta Esquerda regional), transformando Nicolas Maduro num alvo de ataques permanentes, seguindo o script do Departamento de Estado dos EUA.
A solidariedade internacionalista sempre acompanhou a actuação da Esquerda, onde quer ela se fizesse representar. Lula da Silva e Gustavo Petro podiam não gostar da pessoa de Nicolas Maduro, porém, enquanto governante de outro país, quando um estadista age de boa-fé tem a obrigação de respeitar as decisões das instituições de outro Estado. O respeito pela soberania dos Estados e das suas instituições não constitui apenas regra basilar das Relações Internacionais, muito menos um capricho. É, acima de tudo, um valor que obrigatoriamente deve ser observado por um político, principalmente quando se diz de Esquerda. Nenhum político deve afirmar que é de esquerda ou que é progressista quando adopta práticas de ingerência em assuntos de outro país soberano.
Meses depois, ocorreram eleições contestadas nas Honduras, no Equador e na Argentina. Os referidos pleitos eleitorais tiveram em comum o facto de terem sofrido interferência explícita de Donald Trump, sendo que diversos partidos nos referidos países denunciaram a ocorrência de fraude e muitos se recusaram e reconhecer os resultados. Porém, em nenhum dos três exemplos, Lula da Silva, Gustavo Petro, Gabriel Boric, foi ouvido a exigir as actas, tal como, de forma desrespeitosa e preconceituosa, o fizeram em relação à Venezuela e nos ataques injustificados contra Nicolas Maduro.
No referido contexto, enquanto entrevistava o professor Boaventura de Sousa Santos, um comunicador brasileiro e ferrenho lulista, perguntou ao intelectual português se este confiava em Nicolas Maduro. Em resposta, Sousa Santos, um dos maiores pensadores da contemporaneidade e profundo conhecedor da história e das entranhas das correntes políticas das Américas, afirmou o seguinte:
‘Eu não tenho de confiar nele ou não confiar. Eu confio no sistema eleitoral, e o sistema eleitoral da Venezuela é seguro (…). Eu acredito no sistema eleitoral. Não houve fraude porque conheço o sistema. Houve problemas em zonas rurais, mas que não vieram apenas dos chavistas. Vieram da oposição (…).”
O que se sucedeu ao longo do resto da referida conversa foi um esforço incessante do entrevistador em arrancar de Sousa Santos alguma declaração que concordasse com o descalabro que foi a posição do presidente do Brasil em relação às eleições na Venezuela.
Lula da Silva não foi investido de nenhum poder que o legitimasse a pôr em causa os resultados eleitorais num país estrangeiro, nem as decisões das instituições da Venezuela. Lula venceu Bolsonaro com uma diferença mínima de 1,8% dos votos, ao passo que Maduro venceu González com uma diferença de 7% dos votos. No entanto, nenhuma instituição governamental venezuelana colocou em causa a credibilidade da vitória de Lula da Silva, fortemente contestada pela extrema-direita brasileira. Porquê que a alegação de fraude feita pela extrema-direita brasileira em relação aos resultados que deram vitória a Lula é considerada tentativa de golpe de Estado e a instabilidade programada pela oposição radical da Venezuela devia ser aceite?
Alguns sectores da Esquerda brasileira, que saíram em defesa de Lula face à ingerência contra a Venezuela, alegavam que Nicolas Maduro violava os direitos humanos, porque havia ‘manifestantes’ detidos, ou que Maduro era incapaz de governar, não podia, portanto, ser defendido pela Esquerda, porque não se parece com Hugo Chavez.
Porquê que a condenação de 1.402 integrantes da extrema-direita brasileira pelo envolvimento em actos de arruaça pós-eleitoral é visto como sendo legal nos termos da lei brasileira, mas a detenção de manifestantes da oposição radical venezuelana, que é muito mais violenta do que a extrema-direita brasileira, deve ser considerada detenções políticas ou violação de direitos humanos? Por outro lado, é sintomático que determinadas opiniões na Esquerda brasileira critiquem as qualificações académicas ou características pessoais de Nicolas Maduro, um ex-condutor de autocarro, em quem idealizam um segundo Hugo Chavez, quando o próprio Lula da Silva é um ex-operário metalúrgico, que não concluiu uma universidade e que não se parece com Leonel Brizola.
A forma anómala e histérica com que determinados sectores da política brasileira abordaram a questão eleitoral na Venezuela deixou manifestos laivos de complexo de superioridade e evidente ímpeto ingerencista injustificável, por meio do qual Lula da Silva arruinou décadas de construção de um legado que granjeou o respeito de todo o mundo anti-imperialista. Mas o pior estava por vir.
A traição em “carne viva”
Durante a cúpula dos BRICS, realizada em Kazan de 22 a 24 de Outubro de 2024, o Brasil, sob o governo de Lula da Silva, bloqueou o ingresso da Venezuela à categoria de Estado Parceiro. As justificações ouvidas da parte brasileira foram as mais absurdas. Inicialmente, surgiram alegações de que a decisão teria sido tomada no último minuto por um funcionário do Itamaraty. Posteriormente, foi difundida a informação segundo a qual a decisão tinha sido do próprio Lula da Silva, que não tinha viajado para a Rússia nas horas prévias à conferência de Kazan. As causas de tal posição ignominiosa? Segundo se diz, o governo Lula impediu o ingresso da República Bolivariana da Venezuela no “guarda-chuva” dos BRICS por um alegado não cumprimento, por parte de Nicolas Maduro, de uma promessa de apresentação das Actas eleitorais, como se este fosse um argumento plausível para se afectar todo um país e comprometer aspirações de um povo inteiro, tal como actua criminosamente o imperialismo. É lógico que o governo venezuelano considerou a atitude de Lula da Silva como decisão hostil. Porém, ao bloquear o ingresso da Venezuela, Lula da Silva tinha feito um enorme favor aos EUA e, certamente, Donald Trump agradeceu.
Depois de mais de uma década de tentativas fracassadas de enfraquecer a Revolução Bolivariana da Venezula por meio de sanções, financiamento de actos terroristas, distúrbios, bloqueios, roubo de património e uma descomunal campanha de fake news, na madrugada de 3 de Janeiro de 2026, o império do caos e da barbárie, sob as ordens de Donald Trump, sequestrou o presidente Nicolas Maduro e a sua esposa, a primeira-dama Cília Flores, por meio de um ataque que causou a morte de mais de 100 pessoas, dentre elas militares e civis venezuelanos, assim como combatentes cubanos que pertenciam à guarda presidencial, num acto que pode ser classificado como um dos crimes mais graves cometidos pelos EUA neste primeiro quartel do século XXI.
O sequestro de Nicolas Maduro por parte do império norte-americano constituiu uma agressão ignóbil contra a dignidade de todo o povo venezuelano, algo que chocou inclusive a extrema-direita francesa, que não hesitou em condená-lo. O facto deveria obrigatoriamente merecer o repúdio inequívoco de toda a Esquerda latino-americana, que tem a obrigação moral de cerrar fileiras em torno de uma campanha internacional para a libertação de Maduro. Um Estado soberano foi atacado militarmente, um presidente da República e sua primeira-dama foram sequestrados, não durante a Operação Condor em 1975, mas sim em pleno século XXI, e qual foi a postura dos supostos líderes da Esquerda regional diante de tamanha gravidade?
Lula da Silva, que num primeiro momento teria afirmado que a prisão de Nicolas Maduro por parte dos EUA era inaceitável, no mesmo mês de Fevereiro de 2026 declarou, que ‘o retorno de Maduro à Venezuela não é prioridade para o governo brasileiro”. A Venezuela acabava de ser alvo de um ataque militar, um acto que feriu gravemente a soberania deste país, mas, para Lula, a prioridade não é envidar esforços para a libertação de Nicolas Maduro, mas sim “fortalecer a democracia e a soberania da Venezuela”, como se existisse maior agressão contra a soberania de um país do que o sequestro do seu Chefe de Estado. Foram palavras do mesmo Lula da Silva, que atentou contra a soberania da Venezuela ao não respeitar as decisões das instituições do referido país. O mesmo Lula, que havia sido condenado injustamente, mantido mais de 500 dias preso e cuja liberdade se deve à pressão interna e externa, num movimento de solidariedade do qual fez parte Nicolas Maduro e toda a Esquerda venezuelana.
Gustavo Petro resultou ser como uma peça de teatro, cujo cartaz prometeu aos observadores uma revolução em palco. Concorreu às eleições tendo como vice-presidente Francia Márquez – uma reluzente mulher afro-colombiana, carregada de simbolismos da luta pela reparação histórica. A candidatura de Gustavo Petro com Francia Márquez chegou mesmo a encerrar uma evolução, que suplantou o Brasil no aspecto da integração racial, pois, ao longo de anos, é do Brasil que se tem esperado a ascensão de uma pessoa negra no pódio presidencial, como reflexo de cura social e reconciliação com a própria história. Por isso, a vitória eleitoral de Petro e Márquez foi uma celebração internacional. Contudo, Gustavo Petro, assim como Lula da Silva, foi um dos fomentadores da atmosfera prejudicial contra o governo da Venezuela, antes e durante as eleições de 2024. Em diversas ocasiões, Petro usou os ataques contra Nicolas Maduro para ocultar insuficiências pessoais e sacudir pressões da política interna colombiana.
Embora tenha criticado o ataque dos EUA contra a República Bolivariana, Petro manifestou temores de ser o próximo alvo de sequestro do império, tendo por isso se ajoelhado aos pés de Trump, engolido o discurso de Nova Iorque e implorado que lhe fosse retirado o nome da ‘Lista Clinton’, e que não lhe fosse cancelada a subscrição da Netflix (aqui para parafrasear a piada de Miguel Ruiz Calvo). Assim, a promessa de uma peça sobre revolução revelou-se uma obra tragicómica, cujos traumas podem comprometer a empreitada eleitoral de Iván Cepeda contra a extrema-direita encarnada por Abelardo Espriella, haja vista as engrenagens denunciadas no Honduras Gate.
Gabriel Boric, condenou o ataque dos EUA contra a Venezuela. Porém, para cúmulo da pouca-vergonha, o referido infiltrado na Esquerda latino-americana trabalhou activamente nos meses prévios ao crime de Trump contra a República Bolivariana, propagando ataques e acusações infundadas contra o governo venezuelano, empenhando-se deste modo num mecanismo de quase legitimação retórica regional do que viria ser o sequestro de Nicolas Maduro por parte do império norte-americano. Por alguma razão, Boric atraiu a revolta de sectores da Esquerda chilena, que quase o lincharam no Parque Forestal de Santiago, em 2019, aos quais se juntaram críticas populares, em Março de 2026 no fim do seu mandato, por traição às causas que o levaram à presidência e por tudo ter feito para que o Chile retrocedesse às mãos da extrema-direita, com José Kast.
Lula, Petro e Boric têm em comum o facto de terem crescido politicamente sob a bandeira da Esquerda. Ganharam adeptos e notoriedade no seio dos movimentos populares. Porém, posteriormente, assumiram derivas social-democratas e hoje praticamente revelaram um serviço em prol do império, fragmentando a Esquerda por dentro e jogando à Direita do espectro ideológico. A táctica dos três políticos, de defender a Palestina e criticar Israel, não é capaz de ocultar as desilusões dos eleitores internos e da Esquerda regional.
Condenar o genocídio contra a população de Gaza, assim como a abominação do sionismo, não é um privilégio restringido a nenhum político, mas sim uma obrigação de todo o ser humano investido de alguma decência, mesmo que a causa palestina e o repúdio contra os crimes do sionismo tenham sido capturados por oportunistas como Pedro Sánchez, de Espanha, que durante anos esteve envolto no silêncio cúmplice da União Europeia, mas que de súbito saiu da caverna movido pela revanche resultante da espionagem sofrida pelo entorno do seu governo com o software israelita Pegasus e por motivações eleitoralistas.
O recente escândalo dos áudios do caso Honduras Gate vem apenas confirmar o que já era evidente. Está em curso um plano de destruição da Esquerda na América-latina sob a liderança de Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Embora os alvos imediatos para a implantação da extrema-direita, de acordo com as revelações do Honduras Gate, sejam o México e a Colômbia, o Brasil não é um caso à parte. Existe um elevado financiamento, assim como um claro processo de cooptação de políticos a serviço do projecto dos personagens mais sinistros, que o mundo conheceu nas últimas décadas, que são o presidente dos EUA e o primeiro-ministro de Israel.
Os revisionismos e as armadilhas que desintegram a Esquerda – O fim das ideologias?
A crise instalada no governo de Lula da Silva, que vem revelando manifesta perda de poder de barganha e de aceitação popular, não pode ser encarada apenas a partir de perspectivas dos desafios fiscais ou económicos. Trata-se fundamentalmente de uma crise que tem no seu substracto factores ideológicos, que são sentidos dentro e fora do Brasil, mas que raramente ganhará forma de manifestação pública de repúdio, como ocorreu com Boric no Chile, mas que está presente e latente na interpretação e na conclusão das massas. Seria um erro gravíssimo, caso a liderança do PT considerasse que os estragos causados pela ingerência do governo brasileiro nas eleições da Venezuela e, posteriormente, o bloquei por parte do Brasil do ingresso da Venezuela nos BRICS. se tratam apenas de factos políticos pontuais já superados. Não! Tais factos têm efeito demolidor a nível regional e inibidor a nível interno. Nem mesmo o discurso sobre a priorização do interesse nacional brasileiro será capaz de apagar a mancha histórica causada pelas decisões do governo Lula.
Como consequência do afastamento de princípios basilares da Esquerda na dimensão internacional, a perda do capital moral e mobilizador por parte de Lula da Silva é algo inquestionável e que será muito bem explorado pelo investimento da extrema-direita internacional na América-Latina. Lula da Silva é responsável pela implosão da principal arma que sempre caracterizou a Esquerda – a solidariedade internacionalista, a unidade e a confiança.
Ao trair a Venezuela, aliar-se à Direita e aos Sociais-democratas europeus, que na prática representam interesses do Partido Democrata dos EUA, Lula demoliu a fronteira identitária entre o PT e a Direita brasileira. Tal facto, mais do que gerar confusão e retracção das massas, acaba por fortalecer a extrema-direita, que assumirá de forma isolada o único polo do espectro ideológico, visto que, com o governo de coligação e com todas as práticas adoptadas por Lula da Silva neste terceiro mandato, o PT acaba por ser arrastado ou absorvido pela Direita tradicional, o que de certa forma compromete a imagem de toda a Esquerda brasileira.
Salvaguardando as características endógenas de cada região do mundo, que conferem à Esquerda especificidades condicentes com as particularidades regionais ou locais, existem elementos basilares que não devem ser relativizados. A luta anti-imperialista é um princípio incontornável e inegociável da Esquerda. O anti-imperialismo foi uma questão central na Esquerda no passado e cada vez mais necessária nos dias actuais. O imperialismo assumiu novas características e a sua lista de vítimas não termina. Venezuela, Cuba, Palestina, Irão, Mali, Níger, Burkina Faso e Sudão exigem que a Esquerda assuma o seu papel histórico de defensora do interesse dos povos e promotora da solidariedade internacional. Trata-se de valores sagrados que não se compadecem com falsos artifícios que visam escamotear as questões fundamentais das lutas de classe na contemporaneidade.
Veja-se, por exemplo, a apatia do governo Lula em relação à situação a que Cuba foi submetida pelo império norte-americano! Como é possível que um país da dimensão e importância regional como a que tem o Brasil, sob o governo de Lula da Silva, passe ao lado da asfixia inumana a que o povo cubano está a ser sujeito?
Quando necessitou embalar e consagrar a sua carreira política (sob a bandeira da Esquerda), Lula da Silva viajou várias vezes para Havana em busca da bênção da Revolução cubana. Quando, no início da sua trajectória, pretendia desistir da política, porque não conseguia votos nem para se eleger deputado, foi Fidel Castro quem o aconselhou e motivou a continuar. Hoje, num dos momentos mais críticos da agressão imperialista contra a ilha, Lula esqueceu o caminho para Cuba. Hoje, finge não saber o significado e a diferença que teria feito uma visita sua a Havana.
Constituem factores de desintegração a tendência de se reduzir a Esquerda a pautas unicamente identitárias, uma vez que a defesa da universalidade da igualdade, liberdade e justiça social, que sempre a caracterizaram, é muito mais congregadora e rica na sua plenitude de valores. Como que uma reedição do ultrapassado “proclama´´ de Francis Fukuyama sobre “O fim da história´´ (1989-1999), a mais recente armadilha tem sido a ascensão de um suposto estágio do “fim das ideologias”, que vem sendo vociferado por parte de algumas personalidades influentes, inclusive no seio da Esquerda. Essa perspectiva, que emergiu principalmente em decorrência de articulações ocasionais no contexto do conflito russo-ucraniano, usa como fundamento o facto de governos europeus dirigidos por forças políticas tidas como de centro-esquerda ou progressistas, em alguns casos assumirem posições belicistas de corte imperialista ou mesmo neonazista, ao passo que governos conservadores como foi a Hungria de Viktor Orbán, terem estabelecido excelentes relações com a China socialista, ou mesmo com a Rússia (que reúne características hibridas).
Um fenómeno enquadrado no âmbito de relações baseadas no puro pragmatismo euroasiático, em contraposição com o fim do pragmatismo verificado no seio da Europa ocidental, vem sendo difundido como exemplo de que as ideologias, tal como sempre foram conhecidas, deixaram de existir, em parte para legitimar que lideres de Esquerda traiam certos princípios, prestando-se a alianças com sectores reaccionários sob a justificação do “fim das ideologias´´. O que não escapa, porém, é o facto de os promotores destas teses terem necessidade ainda de recorrer às distinções do espectro ideológico para explicar essa mesma teoria. Se as ideologias de Esquerda e Direita deixaram de existir, então o que subsiste? alguém acredita realmente que vivemos num estado de inexistência ideológica? todos os elementos políticos diante de nós dizem o contrário.
A classificação contemporânea dos líderes, partidos políticos e governos em dois únicos lados antagónicos – entreguistas versus soberanistas, não constitui uma antítese do espectro político que estabelece a diferença entre Esquerda e direita. Os entreguistas e os soberanistas ainda navegam com a bussola do conhecido espectro político que tem permitido a compreensão dos fenómenos ideológicos.
A Esquerda de que o império gosta
Durante a sua intervenção no Encontro Global de Mobilização Progressista, em Barcelona, no dia 18 de Abril de 2026, Lula da Silva proferiu um discurso surreal e carregado de elevado nível de contradição face à prática da sua governação neste terceiro mandato.
Ao dirigir-se ao grupo, formalmente identificado como progressista, Lula traçou uma reflexão ideológica sobre a divisão dos campos políticos, a partir da perspectiva da satisfação das necessidades da população e da garantia de uma vida digna para os cidadãos. Em determinado momento, referiu-se aos desafios colocados pelo extremismo, sem, porém, esclarecer a que lado do espectro político esse extremismo pertence, o que sugere um posicionamento ao centro.
Quando faz referência aos avanços protagonizados pelo “campo progressista´´, Lula da Silva reconhece a actuação de “forças reaccionárias´´, que combatem tanto as conquistas a nível dos direitos, assim como do respeito pelas minorias. De igual modo, o mesmo assume a derrota do “progressismo´´ face ao estratagema corrosivo de um “pensamento económico dominante´´, que está por trás da perpetuação da fome e das desigualdades.
O momento realmente paradoxal do discurso de Lula no GPM em Barcelona, foi quando, como quem joga a toalha ao tapete, o petista se incluiu no rol de “gestores dos fracassos do neoliberalismo´´, lamentando que governos de Esquerda adoptem políticas contrárias às doutrinas ideológicas com as quais são eleitos, tais como a austeridade, pelo que, o grupo de “progressistas´´ do qual ele (Lula) se sente parte, acabou por converter-se no sistema.
Lula da Silva admite que, pelas razões citadas, o referido progressismo teria perdido o estatuto de anti-sistema para um outro grupo do espectro ideológico+. O ex-sindicalista metalúrgico classificou a “coerência´´ como “o primeiro mandamento para os progressistas´´, assim como sentenciou que estes mesmos progressistas não podem “trair a confiança do povo´´.
A perplexidade está relacionada ao facto de Lula ter composto, para este terceiro mandato, uma coligação eleitoral que integra as tais forças reaccionárias antagónicas às conquistas sociais, bem-estar das classes trabalhadoras, assim como actuam em prol dos interesses neoliberais. De igual modo, como é possível que Lula da Silva fale sobre coerência depois da postura ingerencista em relação às eleições na Venezuela, o desprezo pela liberdade de Nicolas Maduro, ou mesmo as críticas contra o quarto mandato de Evo Morales, quando o próprio Lula se posiciona para concorrer a um quarto mandato? A verdade irrefutável é que a decisão do governo brasileiro que resultou no bloqueio do ingresso da Venezuela no grupo de sócios dos BRICS é efectivamente um acto do sistema. Estes e outros factos não representam uma traição de Lula da silva à confiança do povo, com destaque para aqueles que o elegeram por apologia a um programa de Esquerda, leal à luta anti-imperialista, que observa o respeito pela soberania dos outros Estados?
Quando, na década de 50, os serviços de inteligência dos EUA chegaram à conclusão que a utilização da violência como instrumento contra o Comunismo não seria capaz de afastar a classe trabalhadora e os estudantes do marxismo, a CIA concebeu o Memorandum de Guerra Psicológica de 1952. O referido documento consubstanciou-se na estratégia sorrateira que criou o Cavalo de Tróia que é a esquerda anticomunista. Através do financiamento de grupos de intelectuais aparentemente progressistas, porém profundamente anti-soviéticos, que, através da submersão em debates teóricos intermináveis e revisionistas, e ao mesmo tempo que aparentavam ser críticos das desigualdades geradas pelo capitalismo, tinham como verdadeira função proferir ataques ferozes contra qualquer experiência socialista real contra quem propagavam e propagam uma variedade de adjectivos depreciativos. O resultado desta psicologia política fomentada pela CIA foi o nascimento da Esquerda de que o império gosta.
Para se ter uma ideia, dentre os participantes no Encontro Global de Mobilização Progressista, em Barcelona, consta Hillary Clinton, ex-secretária de Estado dos EUA, que teve uma intervenção telemática. Sim! A mesma Hillary Clinton, que no dia 20 de Outubro de 2011, quando as tropas invasoras da OTAN assassinaram o líder líbio Muammar al-Gaddafi, em celebração ao assassinato do estadista africano, disse: we came, we saw, he died. Hillary Clinton que, tal como comprovou o Wikileaks, durante uma reunião do Departamento de Estado dos EUA, em 2010, perguntou se Assange poderia ser morto num ataque de drone.
Num mundo normal, tanto Hillary Clinton, quanto Barack Obama estariam a cumprir pena de prisão por crimes de guerra e contra a humanidade. Porém, são estes, o Partido Democrata dos EUA, os amigos ideológicos de Lula da Silva, Gustavo Petro, Gabriel Boric e outros, conglomerados de um Frankenstein ideológico que designam como “Progressismo” ou “Progressistas”, que integra a esquerda anti-socialista, a esquerda do sistema – a esquerda de que o império gosta.
O futuro de uma causa em manta de retalhos – alea iacta est
Em Outubro de 2026, o Brasil deverá ir às urnas para eleger um novo presidente. A questão que ainda não está esclarecida é se a Esquerda será representada por um outro candidato, ou se Lula da Silva cometerá mais uma incoerência histórica concorrendo para um quarto mandato, quando, em 2019, o mesmo praticamente ‘responsabilizou’ Evo Morales por ter sofrido o golpe de Estado, ao ter afirmado que o político boliviano teria cometido um erro em concorrer para um quarto mandato. A Esquerda brasileira tem um candidato alternativo ou terá apostado todas as fichas numa recandidatura de Lula? O facto é que, tal como ocorreu no Chile, o Brasil arrisca-se a regredir para o controlo da extrema-direita.
O escândalo do vazamento da negociata que envolve Flávio Bolsonaro, relacionado com o financiamento do filme “Dark Horse´´, que visa o branqueamento da imagem do pai, Jair Bolsonaro, o impacto do caso Banco Master e a semiótica da conversa de Lula com Trump, sobre o negócio das terras raras, influenciaram a pesquisa Quaest de meados de Maio. Lula reúne agora 39% das intenções de voto, contra os 37% do mês de Abril (crescimento de apenas 2%), ao passo que, Flávio ainda possuí 32%, ao contrário dos 33% do mês anterior (recuo de 1%). Durante os cinco meses que faltam até Outubro, muitas coisas podem ocorrer de um ou do outro lado. Porém, não deixa de ser trágico que a esperança de determinados sectores da Esquerda brasileira é que Flávio Bolsonaro desista da candidatura ou que o partido PL considere inviável a candidatura do mesmo, ignorando-se que independentemente de quem venha ser o candidato da extrema-direita, o facto é que a popularidade de Lula da Silva continua nos cuidados intensivos “respirando por tubos”. Por outro lado, o simples facto de que Lula esteja numa situação de quase disputa de pontos com uma “criança política´´ como Flávio Bolsonaro nas intenções de voto, isto significa um revés histórico, tanto para a trajectória do ex-sindicalista, assim como para a Esquerda brasileira no seu todo.
A estratégia de gestão da política interna por via de mantas de retalhos, à custa da destruição das pontes com a Esquerda regional, mediante um egoísmo extremo que confere importância exclusiva à soberania do Brasil, das suas instituições e a interesses ultranacionalistas, para além de não ser uma filosofia de Esquerda é um maquiavelismo que cobrará um preço altíssimo a Lula e ao PT.
Uma Esquerda que tem na sua liderança figuras desprovidas de lealdade, solidariedade e gratidão (déficit de capital moral) é uma Esquerda fraca, porque a força da Esquerda sempre foi a fidelidade para com as “causas fundacionais´´ independentemente das consequências. A inobservância destes princípios basilares não se justifica, principalmente em nome de pretensos arranjos políticos internos. Lula da Silva desintegra a Esquerda, porque trai princípios fundamentais com base nos quais ele foi consagrado como liderança de dimensão mundial, não para patrocinar um projecto da Direita na América-latina ou para actuação como “toupeira´´ do império no seio da Esquerda, atribuindo de forma tácita o agreement que deu luz verde à infame ousadia criminosa da agressão imperialista contra a Venezuela e do sequestro de Nicolas Maduro e Cília Flores.
Não se exigia que Lula da Silva segurasse em armas e fosse com o seu exército travar uma guerra contra os EUA pela Venezuela, ou que fosse desbaratar o bloqueio criminoso do império contra Cuba. Não! O que se esperava do governo brasileiro era, no mínimo, a dignidade revelada pelo governo mexicano, tanto em relação ao respeito pela soberania da Venezuela durante as eleições, como em relação à asfixia contra Cuba.
O presente texto é um Ensaio autocrítico, porque tal como fomos parte do apoio internacional a favor de Lula da Silva, assim como reconhecemos os aspectos positivos dos dois primeiros mandatos a nível das conquistas sociais e defendemos de forma fervorosa a sua inocência quando, injustamente, foi alvo de perseguição política, temos de igual modo a responsabilidade de afirmar publicamente que, neste terceiro mandato, não reconhecemos na política externa do governo de Lula os nobres valores internacionalistas que caracterizam a Esquerda.
Num dos momentos em que mais se exige uma liderança congregadora e com legitimidade moral para ser capaz de reerguer as massas nesta batalha decisiva contra o neofascismo, a Esquerda latino-americana e brasileira tem nesteterceiro mandato um Lula da Silva que já não inspira confiança.
Não se trata de uma crise da Esquerda per se, mas sim de uma crise da qualidade das figuras que assumem a liderança de grupos de dentro da Esquerda na América Latina e em outras partes do mundo. Em alguns casos, como resultado de certa desorientação ideológica causada por diversos factores. Noutros, trata-se de derrapagens inseridas em actos de quinta-colunismo. Sejam quais forem as reais motivações, é urgente que, tal como ocorreu noutras épocas difíceis, do interior da Esquerda latino-americana e brasileira ressurjam as forças da razão, necessárias para o combate ideológico, num contexto em que estão em marcha sofisticadas ferramentas do “grande capital´´ tendentes à precarização laboral e ao agravamento da exploração da classe trabalhadora, assim como a decadência do hégemon imperialista que se manifesta com um grau de violência que pretende tudo destruir antes de ruir, representando uma ameaça contra todos os povos do planeta.
Luanda, 12 de Maio de 2026
*Doutor em Estudos Globais e Analista de Relações Internacionais
[1] Fidel Castro Ruz (2008). Lula – Reflexiones del Comandante en Jefe. Oficina de Publicaciones del Consejo de Estado, 2008.
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