ESPECTADORES

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

A vida é pra quem sabe viver/Procure aprender a arte

Pra quando apanhar não se abater/Ganhar e perder faz parte…

Clareou (tema de abertura de As Três Graças)

Diogo Nogueira

As novelas são um fenómeno cultural enraizado em Angola, tal como em Portugal e muito mais ainda no Brasil. Conquistaram espaço, ganharam força há bastante tempo! Fuga à rotina, identificação com personagens, apego a narrativas dramáticas, histórias de época, todos estes pressupostos justificam o meu envolvimento, e o de muita gente, com este género de trabalho. Ao contrário de uns falsos intelectuais que as maltratam querendo ser diferentes, eu não vejo mal nenhum nas novelas. 

Estou já no fim de “Éramos Seis” uma novela que retrata o Brasil dos anos trinta/quarenta do século passado. Contempla a época da Segunda Guerra Mundial, e um pedaço do ano que vim ao mundo. Há semelhanças entre o Brasil e a Angola dos velhos tempos. Reparo nelas ao observar certos gestos dos brancos e dos poucos negros que escapavam da escravidão. Quer nas cidades como nos povoados do interior. Acompanho “Éramos Seis” diariamente. Certos episódios fazem recordar a vida que experimentei. Penso nas voltas que o mundo já deu e tem dado, nas transformações que se operaram em mim e nalgumas pessoas com quem convivi.  São imagens difíceis de esquecer, mas hoje estão longe. Bem distantes de mim, felizmente.

Na semana passada abordei nesta coluna o tema “Protagonistas”, fazendo analogias do cinema e da televisão com cenas da nossa realidade. Hoje socorro-me de outras falas e imagens e comparo-as com flagrantes do quotidiano.  Aqui estou eu, pois, por mero acaso ou talvez não, no papel de espectador atento que busca semelhanças e confere o que passa na televisão com cenas da nossa vida real. 

Numa passagem desta novela perguntam à Dona Lola, nome de casa de Eleonora Lemos (excelente desempenho de Glória Pires), “o que procura aqui?” Ela responde “procuro um pouco de mim”. Transporto-me para o ecrã, interiorizo o curtíssimo diálogo e dou-me conta de procurar também qualquer coisa de mim, algo que me obriga a perguntar, muitas vezes, afinal o que ando aqui a fazer? Ficando evidente que “Aqui”, é expresso no significado claro de Angola. Aqui onde busco há longo tempo, um pouco mais de mim.

A momento dado de certo episódio, o senhor Afonso (genial, o Cássio Gabus Mendes) desabafou “vais-te arrepender. És um ingrato”, enquanto a tia Clotilde, irmã de Dona Lola, representada pela bela Simone Spoladore que também tem magnífica participação em “Os Maias”, gritou “que infâmia!” Ingratidão e infâmia casam, são expressões fortes que se utilizam frequentemente em Angola. Pensei nos ingratos que enchem as nossas vidas feitas de esquecimento e, com o devido respeito, envolvi no meu grito o Governador do BNA que eu não conhecia, nem de nome, mas que teve a coragem de afirmar, convicto, segundo as redes sociais: “Angola já não está em crise. A população sente os resultados”!  Como não gritar, ingrato, mas que infâmia? Imito, a tia Clotildeque desespera perante cenas de ingratidão das pessoas. Já não há crise em Angola? Só se for para o Governador e para a sua família!

Ah! Como a realidade é tão generosa para alguns”, reconhecia numa cena o Almeida (papel do português Ricardo Pereira) marido de Clotilde, irmã mais nova de Dona Lola. É verdade! E como tem sido generosa essa realidade!

As redes sociais brincam connosco, com o mundo inteiro. Com as mais inteligentes e com as mais ingénuas personalidades. Em Angola, para gáudio dos seus seguidores, fabricam-se personagens esquisitos. Surgiu agora um tal Nigel Farage, autodenominado Líder Supremo da Oposição e do Partido Nacionalista Angolano. Que nojo! Se já não suportamos as cenas de cinema à borla que nos oferecem por aí, a granel, como ficamos com tipos que desfraldam bandeiras políticas para acabar com os privilégios dos mulatos? E dar cabo do Banco BIC em primeiro lugar. De onde veio este personagem? Um bom polícia, um bófia como deve ser, não precisa ser da estirpe do Delegado Gusmões, interpretado na trama que me encanta pelo actor Stepan, era capaz de resolver o problema e colocar o pretenso político no seu lugar. Como está a ser necessária polícia como deve ser!

Falando de bófias, trago à cena o Alfredo Lemos (Nicolas Prattes) um revu por excelência, filho de Dona Lola e enteado do senhor Afonso. É um combatente intrépido pela Democracia, dos que vão em frente e não desistem de lutar por causas justas. Alfredo não tem dado tréguas ao Delegado Gusmões,arrasa com a paciência da bufaria estúpida instalada na novela. 

Por aqui, entre nós, onde já se mostram os que se borrifam para as chefias sonâmbulas e pensam mais nos que lhes pode acontecer, estão a surgir uns protagonistas a aparecer em momentos errados em danças na areia com toques mundiais. Mas que raio de toques são esses? Perguntei ao Candinho que entende de danças e tem acompanhado a novela comigo. São toques vantajosos, meu tio! Respondeu assim, e mais não disse.

Eu também fico aqui. Despeço-me dos meus leitores, dos familiares e amigos. Dos camaradas e companheiros de luta. Até domingo que vem, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 24 de Maio de 2026

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