
Parem de brincar com o que é sagrado. A memória dos nossos mortos não é um activo de campanha, nem as valas comuns são palanques eleitorais. Angola exige respeito, não estatísticas de conveniência.
O que o Caderno 2 da CIVICOP, publicado neste sábado, 9 de Maio de 2026, nos atira à cara não é reconciliação; é um insulto à inteligência, à ciência e à memória. Estamos diante de uma encenação forense de mau gosto, onde o rigor se verga à conveniência de um calendário político que tresanda a desespero institucional.
Apresentam-nos uma lista de 602 nomes como “correspondentes aos perfis das ossadas encontradas no cemitério do 14”, em Luanda. É um milagre logístico que desafia a física e a ética:
A falácia geográfica: como explicar que indivíduos que serviam em Malanje, como o comissário Agostinho José Pereira, no Moxico, Agostinho Pascoal, ou na Huíla, como Victor António Campos, tenham todos “desaguado” na mesma vala comum na capital?
A CIVICOP pretende que aceitemos uma “trasladação espontânea” de ossadas vindas de latitudes remotas apenas para fechar um dossier administrativo antes das eleições de 2027? É a centralização do óbito: um esforço burocrático para domesticar o luto e apagar as marcas da repressão local espalhadas pelo país.
Não podemos esquecer que esta é a mesma estrutura que, num passado recente, entregou ossadas de animais a famílias que esperavam os restos mortais dos seus entes queridos.
Esse precedente retira qualquer presunção de inocência a este novo Caderno. Quem não soube distinguir um fémur humano de um animal, não tem autoridade moral para pedir que se acredite numa “correspondência de perfis” sem exames de ADN independentes e auditáveis.
Tratar figuras como Artur Nunes, Zé Mingas ou Zito Faztudo como mercadoria de um balcão de “perdidos e achados”, sugerindo que as famílias liguem para um terminal de telemóvel (937 900 123), é a falência da dignidade estatal.
O timing desta publicação é de um oportunismo perverso:
No momento em que a candidatura de João Lourenço enfrenta o risco real de impugnação por ilegalidades na comissão preparatória, o sistema agita as ossadas para saturar a agenda pública com o peso do trauma.
Enquanto candidatos como Higino Carneiro tentam construir mitos sobre “Nito Alves numa árvore”, a CIVICOPresponde com o peso de 602 nomes para demonstrar quem controla o necrotério político. Se a lei ameaça o poder, o poder usa os mortos para intimidar os vivos.
Ao misturar indiferenciadamente agentes da DISA (como o chefe nacional Perré), militares das FAPLA e civis da JMPLA sob o lema “Abraçar/Perdoar”, o regime opera uma limpeza de arquivo. Se todos estão “encontrados” e “pacificados” numa vala comum em Luanda, enterram-se as perguntas sobre quem deu as ordens, quem executou e onde estão os registos reais dos interrogatórios.
Não fiquem. Não é sério.
Este Caderno 2 não é um documento de ciência; é uma certidão de óbito colectiva passada por conveniência eleitoral.
Não procuram a verdade histórica; procuram o silêncio dos ossos para que a “Cultura de Comissões” possa continuar a gerir o destino de Angola sem sobressaltos jurídicos.
Parem de brincar com o que é sagrado. A memória dos nossos mortos não é um activo de campanha, nem as valas comuns são palanques eleitorais. Angola exige respeito, não estatísticas de conveniência.
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