
RECADOS DA CESALTINA ABREU (81)
“A crescente banalização da arte e da literatura, o triunfo do sensacionalismo na imprensa e a frivolidade da política são sintomas de um mal maior: a ideia suicida de que o único propósito da vida é divertir-se”, escreveu Mario Vargas Llosa em 2009.
Esta reflexão remete para o conceito de “indústria cultural”, desenvolvido por Theodor Adorno e Max Horkheimer em Dialética do Esclarecimento. Nele, analisam como a arte e a cultura foram absorvidas pela lógica de mercado.
Embora complexo, este conceito torna-se evidente no quotidiano:
A arte transforma-se em mercadoria, perdendo densidade estética e crítica, para se tornar produto de consumo e marcador de estatuto. Os conteúdos culturais seguem padrões repetitivos, oferecendo uma falsa diversidade que limita a criatividade e a reflexão.
Neste processo, a indústria cultural não apenas entretém: molda comportamentos, induz desejos e reforça a ordem existente. Pela repetição, promove a imitação acrítica e reduz o indivíduo a uma peça funcional — uma “coisa” integrada na lógica do mercado.
Adorno preferia falar em “indústria cultural” — e não “cultura de massa” — para sublinhar que esta não nasce espontaneamente do povo, mas é produzida e imposta de cima para baixo.
O lazer deixa de ser espaço de liberdade e torna-se extensão do trabalho: um entretenimento superficial que ocupa o tempo, mas esvazia a reflexão.
Com o avanço tecnológico, os media ampliaram esse alcance. O fluxo contínuo de mensagens favorece o conformismo, enquanto o consumo é apresentado como sinónimo de liberdade, felicidade e realização pessoal. Nunca se ofereceu tanto em termos de tecnologia — e, paradoxalmente, tão pouco em termos de pensamento crítico.
A lógica do mercado domina: os produtos culturais são concebidos para serem consumidos, não para serem pensados. A propaganda — muitas vezes subtil — estimula desejos e orienta comportamentos. Ao mesmo tempo, padrões de beleza, sucesso e felicidade são difundidos como universais, levando indivíduos a ajustarem-se a modelos que os afastam de si próprios.
Os meios de comunicação, especialmente a televisão, reforçam esta dinâmica ao privilegiar o entretenimento fácil, o sensacionalismo e a simplificação. Qualquer discurso que desafie essa lógica tende a ser desacreditado ou marginalizado, contribuindo para uma regressão do pensamento crítico.
A força das imagens e dos sons intensifica esse efeito: mais do que narrar, os media constroem realidades. Criam a ilusão de um mundo que não é simplesmente percebido, mas cuidadosamente produzido — alinhado com interesses económicos e políticos.
Neste contexto, a cultura empobrece, o pensamento enfraquece e o indivíduo torna-se simultaneamente consumidor e produto. Vivemos, assim, num ambiente saturado de estímulos e simulações, onde a experiência se fragmenta e o próprio sentido de realidade se dilui.
Nesta quinta-feira, finalizando mais um mês, os habituais votos de saúde, cuidados e coragem para buscar, de forma consciente, conteúdos que se contraponham ao padrão da “folclorização” e da uniformização das ideias.
Kandando daqui!











