
RECADOS DA CESALTINA ABREU (78)
Escrever obriga a parar, a escolher palavras, a assumir posições. Obriga a ver – e a não fingir que não se viu. Num tempo de ruído e velocidade, escrever é um acto de resistência.
Perguntaram-me por que escrevo tanto…
A pergunta é simples. A resposta, nem por isso.
Escrevo porque sempre escrevi. Desde cedo, entre rabiscos e desenhos, fui treinando o olhar e a atenção. Os meus apontamentos não eram apenas bons – eram uma forma de pensar. Um dia, um professor bateu-me à porta para os pedir. Não era vaidade: era método.
Escrevo porque precisei. Aos 17 anos, depois de uma cirurgia que quase me apagou partes da memória, escrever foi mais do que hábito – foi reconstrução. Enquanto o corpo recuperava, eu reescrevia-me por dentro. A escrita ajudou-me a voltar.
Escrevo porque fui provocada a pensar. Um professor de Filosofia percebeu isso cedo. As conversas continuavam fora da sala, no Jornal de Parede, nas perguntas que não cabiam no programa. Escrever passou a ser extensão do pensamento – e confronto com ele.
Escrevo porque guardo. Diários, blocos, agendas, rascunhos. Papel e caneta continuam a ser território de organização e de urgência. O digital ajuda – mas não substitui o gesto de fixar o pensamento com o corpo inteiro.
Escrevo porque ensino – e porque aprendo. Ao longo da vida, entre alfabetização, docência e pesquisa, fui acumulando ‘estórias’ que confirmam o mesmo: quem escreve, pensa melhor; quem pensa melhor, vive com mais consciência. E isso não é detalhe.
Escrevo, também, porque a ciência veio dar nome ao que a experiência já me ensinara: escrever muda o cérebro, fortalece a memória, organiza emoções, cria sentido. Não é romantismo – é prática cognitiva.
Mas, no fundo, escrevo por uma razão menos confortável: porque não aceito passar pela vida em modo automático.
Escrever obriga a parar, a escolher palavras, a assumir posições. Obriga a ver – e a não fingir que não se viu. Num tempo de ruído e velocidade, escrever é um acto de resistência.
Quem não escreve, muitas vezes apenas reage. Quem escreve, pode escolher.
E essa escolha – pensar, nomear, dar sentido – é tudo menos neutra.
Boa segunda-feira. Saúde, cuidados e coragem.
Kandando daqui!










