DA SANTA-SÉ À MUXIMA: A PEREGRINAÇÃO DO PAPA LEÃO XIX

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI* 

No fim das contas, foi um espelho. Mostrou-nos não apenas a fé de um povo, mas também as contradições de um sistema que precisa de visitas divinas para lembrar-se das suas obrigações terrenas.

Dizem que todos os caminhos dão a Roma. Pois bem, desta vez, Roma decidiu retribuir a visita, e com juros celestiais. Eis que surge, envolto em incenso, protocolos e alguma perplexidade diplomática, Sua Santidade o Papa Leão XIX, numa peregrinação que suscitou mais milagres logísticos do que espirituais: da Santa-Sé à Muxima.

Sim, Muxima. Aquele santuário onde a fé anda descalça, onde promessas são feitas com lágrimas e pagas com sacrifícios que fariam corar qualquer relatório do FMI. O Vaticano, habituado a mármores polidos e silêncios organizados, arriscou-se para enfrentar o pó vermelho, os cânticos improvisados e a fé sem filtros, uma fé que não cabe em encíclicas, mas cabe perfeitamente num bidão de água carregado à cabeça.

Leão XIX, homem de visão (ou de assessores muito criativos), decidiu que era hora de descentralizar a graça divina. Afinal, se os fiéis não conseguem chegar a Roma, Roma vai até eles, ainda que com um cortejo de segurança digno de chefe de Estado em zona de conflito e uma comitiva que, dizem, ocupou mais lugares do que os próprios peregrinos.

A viagem, contudo, não foi apenas espiritual. Foi também política, mediática e, porque não dizer, turística. Já se fala na “Rota Papal Premium”: pacotes com direito a bênção VIP, selfie com o Pontífice e indulgência parcial em três prestações. A fé, como sempre, adapta-se ao mercado.

Em Angola, os preparativos fervilharam. Estradas que há décadas esperavam por um milagre finalmente receberam asfalto — prova viva de que, às vezes, basta anunciar uma visita papal para que até os buracos entrem em penitência. Hospitais ganharam tinta fresca, escolas receberam carteiras novas e até os postes de luz pareceram mais iluminados, como se soubessem que Deus vinha em visita oficial.

Terminou a peregrinação. As multidões dissiparam-se, os palcos foram desmontados, as estradas voltaram ao seu estado natural, aquele em que os buracos têm mais protagonismo do que os carros, e o pó da Muxima reassumiu o seu trono. 

É, portanto, hora de fazer o balanço desta epopeia espiritual, política e, convenhamos, altamente cénica.

O Papa Leão XIV veio, viu e abençoou. E, como manda a tradição moderna, foi visto. Muito visto. Entre drones, câmaras, telemóveis erguidos como velas tecnológicas, a fé ganhou filtros, ângulos e hashtags. Nunca se rezou tanto… em alta definição.

Muxima, por sua vez, portou-se à altura. Recebeu o ilustre visitante com o seu habitual mix de devoção crua e logística improvisada. Fiéis chegaram a pé, de joelhos, de autocarro e até de esperança, essa viatura invisível que nunca falha. Alguns vieram pedir milagres; outros vieram apenas confirmar que ainda sabem acreditar, apesar de tudo.

E os milagres? Bem, houve vários, dependendo do critério. Estradas foram tapadas em tempo recorde, iluminação pública ressuscitou como Lázaro e instituições que andavam em coma administrativo deram sinais de vida. Se isto não é intervenção divina, então pelo menos é uma excelente simulação.

Leão XIV discursou com elegância. Falou de justiça, de dignidade humana, de solidariedade, palavras que ecoaram como salmos num País onde, frequentemente, o verbo “cumprir” anda em jejum. Os aplausos foram sinceros, as lágrimas também. Afinal, quando a esperança visita, mesmo que de passagem, ela deixa sempre um perfume difícil de ignorar.

Mas, como toda boa peregrinação, esta também teve o seu lado terreno. A comitiva papal parecia um pequeno êxodo organizado: assessores, seguranças, diplomatas e curiosos, todos em marcha como se Moisés tivesse actualizado o GPS. E enquanto isso, o povo esse eterno figurante e protagonista assistia, participava e, no fundo, sustentava o espetáculo com a sua fé inabalável.

Agora que o Papa partiu, resta-nos o pós-milagre. Aquele momento delicado em que a tinta fresca começa a descascar, as promessas voltam ao estado gasoso e a realidade, sempre pontual, retoma o seu turno. Muxima continua lá, com os seus fiéis, as suas velas e os seus pedidos acumulados em lista de espera celestial.

O balanço, portanto, é positivo, dependendo do ângulo. Ganhou-se visibilidade, emoção e, por alguns dias, a ilusão de que o céu estava mais próximo da terra.

Mas perdeu-se, talvez, a oportunidade de transformar esse momento em algo mais duradouro do que fotografias e discursos bem ensaiados.

Porque, no fim, a verdadeira peregrinação não foi a do Papa, mas a do povo que continua a caminhar, não até Roma, mas até condições dignas de vida. E essa, infelizmente, não tem data de regresso marcada.

No fim das contas, esta peregrinação foi um espelho. Mostrou-nos não apenas a fé de um povo, mas também as contradições de um sistema que precisa de visitas divinas para lembrar-se das suas obrigações terrenas.

Entre a Santa Sé e a Muxima, ficou a lição: a fé move montanhas, sim, mas ainda não conseguiu mover certos gabinetes. 

E talvez seja esse o milagre que ainda está por acontecer. 

E, eu vou fazer o meu milagre habitual do final de semana, ou seja, a peregrinação à volta de um bom vinho tinto. Quem me dera se for o Catujal! 

*Menga-Ma-Kimfumu

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