AS ILHAS IRANIANAS NO GOLFO PÉRSICO: O ARQUIPÉLAGO QUE DECIDE O FUTURO DA GUERRA

POR JOAQUIM JAIME

Os estrategas ocidentais gostam de pensar em termos de vitória e derrota. Mas no Golfo Pérsico, como em tantos outros teatros de conflito assimétrico, a categoria relevante não é a vitória. É o impasse. E o impasse, neste momento, favorece quem está disposto a esperar mais tempo.

 Enquanto os holofotes da imprensa internacional se fixam nos bombardeamentos, nas negociações de cessar-fogo e nos comunicados beligerantes de Washington e Teerão, um facto geográfico elementar permanece largamente sub-analisado: a guerra entre os EUA/Israel e o Irão está a ser decidida não nos céus, não nas salas de negociação, mas num punhado de pequenas ilhas emergindo das águas turquesa do Golfo Pérsico.

Qeshm, Kharg, Abu Musa, Larak, as Tunbs. Nomes que raramente figuram nos telejornais fora da Ásia Ocidental e Norte de África. E, no entanto, é sobre estas manchas de terra – e sobre o controlo do Estreito de Ormuz que elas permitem – que se joga o destino de uma guerra que já custou milhares de vidas e ameaça desestabilizar a economia global.

A tese que defendo é simples mas ácida, para quem acredita na superioridade militar ocidental: o Irão não precisa de vencer esta guerra convencionalmente. Precisa apenas de não perder – e as ilhas são a garantia de que não perderá.

A “superarma” que ninguém quer nomear

Comecemos pelo óbvio, que raramente é dito em Washington ou em Telavive. O chamado “eixo da resistência” foi decapitado. O Hamas está em frangalhos. O Hezbollah foi severamente degradado. O próprio regime iraniano sofreu golpes profundos, incluindo o assassinato do seu líder supremo. Do ponto de vista militar convencional, os EUA e Israel estão a “ganhar”.

E no entanto, o Estreito de Ormuz permanece efectivamente fechado. Os petroleiros não passam. O petróleo iraniano não sai. Mas o petróleo saudita, emiradense, qatari, kuwaitiano e iraquiano – os aliados americanos na região – também não.

É esta a genialidade perversa da estratégia iraniana: se não posso exportar o meu petróleo, ninguém mais o fará. E pode fazê-lo porque controla, a partir das suas ilhas, o gargalo mais importante do comércio marítimo mundial.

Como observou um antigo diplomata norte-americano, o controlo do Estreito de Ormuz é a “superarma” do Irão. Não precisa de porta-aviões. Não precisa de uma força aérea de quinta geração. Precisa apenas de estar ali – e de ter transformado Qeshm, Abu Musa e Larak em fortalezas subterrâneas repletas de mísseis anti-navio, drones e minas.

Os Estados Unidos podem bombardear estas ilhas. Já o fizeram. Mas bombardear não é o mesmo que ocupar. E ocupar – como qualquer militar sabe – exigiria uma invasão anfíbia de grande escala, com custos humanos e políticos proibitivos. Os tanques não flutuam. E as praias do Golfo Pérsico não são a Normandia de 1944.

O calcanhar de Aquiles chamado Kharg

A ilha de Kharg é o coração económico do Irão. Dela saem 90% das exportações de petróleo iranianas – cerca de 1,5 milhões de barris por dia, 140 milhões de dólares diários aos preços actuais. O governo iraniano financia a sua economia com este dinheiro.

O bloqueio naval americano está a estrangular Kharg. O secretário do Tesouro dos EUA anunciou que a capacidade de armazenamento da ilha ficará cheia “nos próximos dias”. O Irão será forçado a encerrar poços – uma decisão que pode danificar permanentemente os reservatórios.

Parece uma vitória americana. E é, parcialmente. Mas há um pormenor que os estrategas em Washington preferem ignorar: Kharg é também o calcanhar de Aquiles da economia global.

Se os bombardeamentos americanos destruírem os terminais de Kharg – ou mesmo se o bloqueio se prolongar por meses – o resultado não será apenas o colapso da economia iraniana. Será o disparo do preço do petróleo para 150, 200 dólares por barril. Será a inflação a dois dígitos na Europa. Será a estagflação. Será, em suma, um pesadelo para as economias ocidentais que já enfrentam desafios estruturais profundos.

É por isso que a administração Trump hesita. É por isso que os ataques a Kharg têm sido limitados. Destruir o inimigo é fácil. Destruí-lo sem se destruir a si próprio – esse é o verdadeiro desafio.

Abu Musa e as Tunbs: a questão que ninguém quer resolver

Há um outro elemento neste conflito que a comunicação social ocidental raramente aborda: a disputa entre o Irão e os Emirados Árabes Unidos sobre Abu Musa e as Tunbs.

O Irão ocupa estas ilhas desde 1971. Os EAU reivindicam-nas. A China, que tem enormes interesses económicos em ambos os lados, tem mantido um equilíbrio delicado. Em Abril de 2026, Teerão protestou formalmente contra a referência às ilhas na declaração final da visita do ministro dos Negócios Estrangeiros chinês aos EAU.

Porque é que isto importa? Porque a guerra actual está a reconfigurar alianças de formas que ninguém antecipava. A Rússia e a China, que vetaram uma resolução da ONU para acção militar no estreito, emergem como os grandes beneficiários do conflito. A Europa, confrontada com preços de energia estratosféricos e com a recusa de França, Espanha e Itália em apoiar militarmente os EUA, está a elaborar uma “cláusula de assistência mútua” alternativa à NATO.

O tabuleiro geopolítico está a ser virado. E as ilhas – esses pequenos pedaços de terra disputada – são as peças centrais desta reconfiguração.

impasse que ninguém sabe como resolver

Onde estamos, então, a 23 de Abril de 2026?

Estamos num impasse estratégico. O Irão não pode quebrar o bloqueio naval americano. Os EUA não podem obrigar o Irão a reabrir o estreito sem uma invasão terrestre que ninguém quer. Israel não pode destruir as capacidades iranianas sem arrastar toda a região para um conflito mais amplo.

Como escreveu Brandon Carr no Proceedings do U.S. Naval Institute, “mesmo que as operações terrestres sejam bem-sucedidas taticamente, é altamente improvável que produzam os efeitos estratégicos que a administração procura”.O controlo iraniano sobre o estreito “é a sua fonte de alavancagem mais importante para terminar a guerra em termos favoráveis”.

A verdade, por mais desconfortável que seja, é esta: o Irão não precisa de ganhar a guerra. Precisa apenas de sobreviver a ela. E enquanto Qeshm, Larak e Abu Musa permanecerem sob o seu controlo efectivo – mesmo que bombardeadas, mesmo que sitiadas – sobreviverá.

Os estrategas ocidentais gostam de pensar em termos de vitória e derrota. Mas no Golfo Pérsico, como em tantos outros teatros de conflito assimétrico, a categoria relevante não é a vitória. É o impasse. E o impasse, neste momento, favorece quem está disposto a esperar mais tempo.

regresso da geografia

Vivemos décadas embalados pela ilusão de que a tecnologia tornara a geografia obsoleta. Mísseis de cruzeiro, drones, satélites, inteligência artificial – tudo isto, pensávamos, nos libertara das amarras do território.

A guerra no Golfo Pérsico está a ensinar-nos uma lição diferente. A tecnologia não aboliu a geografia. Apenas a tornou mais importante. Porque ter o terreno certo – e saber defendê-lo – continua a ser a mais antiga, e talvez a mais eficaz, de todas as estratégias.

As ilhas iranianas são pequenas. São, muitas delas, rochosas e inóspitas. Mas são o terreno certo. E enquanto o Irão as controlar, a guerra não estará perdida.

A pergunta que ninguém consegue responder, neste momento, é: quanto tempo mais durará este impasse? E que preço estarão dispostos a pagar – de ambos os lados – para o quebrar?

Até lá, o mundo espera. Os petroleiros aguardam ancorados. Os preços do petróleo oscilam no fio da navalha. E nas ilhas do Golfo Pérsico, soldados iranianos mantêm-se nas suas posições, cientes de que carregam nos ombros não apenas o destino do seu país, mas o equilíbrio frágil de uma ordem global que ninguém sabe já como reconstruir.

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