
RECADOS DA CESALTINA ABREU (76)
Uma sociedade que já não pára para se reinventar corre o risco de se dissolver sem nunca ter decidido, verdadeiramente, para onde queria ir.
“A tarefa de construir uma ordem nova e melhor para substituir a velha ordem defeituosa não está na agenda — pelo menos não na agenda em que se supõe que a acção política resida”, escreve Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida (2000). A frase não descreve apenas uma mudança: denuncia um abandono. Perdemos não só a ambição de transformar o mundo, mas também a capacidade de o imaginar diferente.
A política, esvaziada de horizonte, refugia-se no imediato e no individual. Já não projecta futuro; gere urgências. Já não constrói ordem; administra fragmentos. O colectivo cede lugar ao episódico.
É neste cenário que se consolida a chamada “modernidade líquida”: um mundo onde tudo escorre — relações, instituições, identidades. O que antes era estrutura torna-se fluxo; o que era durável torna-se provisório. A estabilidade dá lugar à volatilidade, e a promessa de progresso dissolve-se numa sucessão de mudanças sem direcção.
A fluidez, celebrada como liberdade, revela o seu reverso: individualismo exacerbado, consumismo acelerado e uma permanente sensação de insuficiência. Vive-se no “agora”, mas paga-se com a erosão do sentido. Muda-se mais, melhora-se menos. Os laços comunitários enfraquecem, o trabalho precariza-se e a insegurança instala-se como condição normal, sobretudo nos espaços urbanos. A vida torna-se ‘leve’ — mas essa leveza é, muitas vezes, apenas outra forma de fragilidade.
Neste ambiente, o egocentrismo não é desvio, é regra. As relações tornam-se utilitárias e descartáveis, moldadas por uma lógica de exibição e consumo. Procura-se sentido onde só há estímulo; confunde-se pertença com visibilidade.
O “derretimento” das estruturas herdadas — aquelas que permitiam pensar e construir em comum — não abriu caminho a uma ordem mais justa, mas a um vazio regulado pelo mercado. A mobilidade individual substitui o projecto colectivo. O sistema deixa de ser problema — passa a ser dado.
A política acompanha: pouco ou nada reformista, menos ainda transformadora. Fragmenta-se, desregula e adapta-se à lógica da sedução, onde o desejo substitui a regra e o efémero dita o ritmo. Vínculos, empregos, valores — tudo se torna transitório.
Na “vida líquida”, tudo tem prazo curto: objectos, relações, compromissos. No entanto, a responsabilidade é longa — recai inteiramente sobre o indivíduo. Se falha, a culpa é sua. Se não acompanha, fica para trás. O resultado é previsível: ansiedade, insegurança e uma corrida infinita atrás do novo.
Bauman já o antecipava: a mudança é a única constante; a incerteza, a única certeza.
Mas talvez o ponto mais inquietante seja outro: quando tudo se torna líquido, até a ideia de mudança perde densidade. Já não se trata de transformar — apenas de continuar a fluir. E uma sociedade que já não pára para se reinventar corre o risco de se dissolver sem nunca ter decidido, verdadeiramente, para onde queria ir.
Saúde, cuidados e coragem para resistir, e continuar a acreditar que é possível um mundo melhor!
Kandando daqui!











