SÓ PERGUNTO POR PERGUNTAR

POR RAMIRO ALEIXO

Sou forçado a perguntar ao deputado do MPLA, o que seria de Angola hoje, se os órgãos de repressão colonial tivessem, igualmente, exterminado todos os que eles tinham como terroristas, incluindo os que militavam em células clandestinas nas cidades? 

Com o título “Afinal qual o papel da AIPEX?”, a Dra Maria Luísa Abrantes partilhou, recentemente, um texto em que denunciou que o mesmo Executivo, que não tem dinheiro para reparar e construir escolas, em 2026 já liberou 9 milhões de USD, para a AIPEX modernizar o edifício (moderno) que tem como sede, inaugurada em finais de 2015”

Fosse num país onde a Justiça (Judiciário) funciona livre das amarras do Executivo ou do poder político, e salvaguarda, de facto, a transparência e a boa utilização (gestão) dos recursos do Estado, por essa altura, equipas do Tribunal de Contas e da PGR já estariam em campo a ‘aquecer’ a AIPEX. No mínimo. Não só para aferir se essas obras são, efectivamente, necessárias, até porque o país tem outras necessidades mas também, se essa decisão não resulta de ‘arranjo’ entre bons vizinhos. Ao que parece, entre quem está na AIPEX com um certo ministro de Estado, ‘cunhada’ com o conforto de quem administra o gabinete ‘do nosso pai todo-poderoso’ cheio de mimos, que gosta mais de dinheiro que o rato do queijo. E os parlamentares, por seu lado, não estariam cegos, surdos e mudos a assistir a esse manjar despudorado e a la cart do dinheiro público. Mas, como na certa dirão alguns, “lá está ele a arranjar problemas quer para o juiz presidente do Tribunal de Contas, quer para o novo procurador, coitado, acabado de sentar nessa cadeira, mas também para os nossos deputados”incluindo da oposição, é claro.

Mas a lei é a lei e a defesa dos interesses do Estado está acima do gostar ou do não gostar, do querer ou do não querer. Aliás, com a aproximação das eleições, e já vimos isso noutra encarnação, não faltarão esquemas de servidores públicos para engordar o “pé de meia”. E isso porque quem há de vir, se é que virá mesmo e trará mudanças, o fim desta equipa de repetentes pode encerrar um ciclo da dança de cadeiras que leva cinco décadas e de que estamos fartos. Eles sabem e não estão distraídos. Embora persistam muitas dúvidas, tendo em conta que a máquina para a marosca eleitoral está a ser afinada, faltando apenas alguns ensaios, que serão feitos na certa, no decorrer de um certo congresso que se aproxima. Logo, trabalho para os quadros do Tribunal de Contas e da PGR não faltará, antes, durante e depois da transferência de pastas.

Foi também a pensar nessas engenhocas da promiscuidade entre o interesse público e o interesse privado, que quase ninguém acreditou no fim ‘nobre’ da negociata, com sustentação de Garantia Soberana de 100 milhões de dólares a favor da empresa VC Horizonte 21, que prevê implementar a venda de cestas básicas importadas, que “pretendem ser de qualidade e com preços acessíveis”. Num país que já não tem guerra e está independente há 50 anos?!? É como remar contra a maré, quando em Loquembo, província de Malanje, mesmo com a intervenção do Interposto Comercial, existem duas mil toneladas de arroz à espera de compradores e de escoamento. E os responsáveis por esse sucesso, clamam por “apoio institucional” para infraestruturação de mais áreas, que nos próximos anos podem triplicar os níveis de produção. E não têm.

Para muitos agentes ligados à produção e comercialização de produtos alimentares, que acreditam no fomento da produção interna como a melhor e única saída para a autossuficiência alimentar, segurança e redução das importações, nesse negócio tem coisa grossa”. Provavelmente, como sustentou um dos nossos interlocutores, o verdadeiro beneficiário seja o proprietário de uma casa que está em construção na Ilha do Mussulo, que custará ao Estado, 15 milhões de USD”. Sinceramente, não sei de quem se trata. Diz-se à boca cheia, que o desejo de possuir essa luxuosa residência, foi alimentado para satisfação de egos e de direitos iguais ou superiores aos de quem mandou construir aquela, no Miramar, que tem uma vista bonita para a Ilha de Luanda, para o Porto e para o musseque Sambizanga. 

Para essa entidade, a sua vizinha não serão as barrocas do Miramar, mas o próprio mar, com vista privilegiada para o Dubai de Angola, que nasce na Chicala. Ali, onde é implementado um projecto imobiliário milionário, vocacionado para o turismo de alta renda, que também tem o envolvimento daquele ‘nosso pai todo-poderoso’, utilizando recursos públicos. O “nosso pai todo-poderoso”, que nem mesmo depois da bênção papal, quer ir em paz com o Senhor a acompanhar. E esse caso da Chicala é daqueles presuntos que, acredito, continuará em maturação até rebentar a bomba, como foi no novo aeroporto após a sucessão, com ou sem Tribunal de Contas, com ou sem PGR.

Com a aproximação das eleições, a percepção de muitos servidores públicos é que o fim está cada vez mais próximo. Tem sabor agridoce, embora se perceba que quem comanda a orquestra recorre ainda ao anti jogo. Mas, oxalá que, no ano que ainda lhe resta, não cutuque aquele desmiolado do DT. O homem, que até não gosta de africanos corruptos e de países que cheiram mal, pode exigir, como contrapartida para o sacrifício de vir a Angola, o que nos resta de terras raras. Ou as obras de 9 milhões de USD nas instalações da AIPEX, fazem parte do pacote dessa perspectiva para cativar investimento e a liberação dos dólares, um dossiê que está longe de ser resolvido, apesar de todas as concessões?

Mas, parafraseando Barcelô de Carvalho, o nosso Bonga, também “só falei por falar”. E não sei mesmo porque falei, sabendo que tudo isso dará em nada. Eles encontram sempre uma forma de desviar as nossas atenções para casos que não fazem sequer sentido, como o julgamento do activista Osvaldo Kaholo e a prisão, ocorrida hoje, de outro, por fazer vídeos no tribunal. Ou ainda, a selvajaria protagonizada por efectivos da Polícia Nacional, contra manifestantes do Simprof no Huambo.

Mesmo a calhar, acompanhei nas redes sociais, as declarações de um deputado do MPLA no decorrer de uma sessão parlamentar, sobre a benevolente decisão do seu partido e governo, em não exterminar da UNITA, em 2002. E são decorridos 24 anos do calar das armas. Sou forçado a perguntar ao mesmo deputado, o que seria de Angola hoje, se os órgãos de repressão colonial tivessem, igualmente, exterminado todos os que eles tinham como terroristas, incluindo os que militavam no MPLA em células clandestinas nas cidades? 

Só pergunto por perguntar.

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