
Ainda há muito caminho pela frente. A paz abriu a porta, mas a justiça social, a igualdade de oportunidades e a prosperidade partilhada continuam a caminho. O País continua a procurar a melhor forma de transformar a sua riqueza natural em riqueza humana.
Há versos que atravessam oceanos e acabam por encontrar morada no coração de outros povos. Um desses versos diz:“vejam que eu não sou fraco, eu tive que chorar.”
Quando o ouvi pela primeira vez, sorri. Achei graça à franqueza do cantor. Mas um dia, pensando em Angola, percebi que aquele verso também podia ser nosso.
E confesso: tive que chorar por Angola.
Mas não foi um choro pesado. Foi mais como aquela lágrima teimosa que aparece quando a memória decide passear pela alma sem pedir licença. Porque Angola é isso mesmo: uma memória viva que mistura dor, riso, luta e esperança tudo na mesma panela da história.
Angola é um País curioso.
Sabe chorar… mas também sabe brincar com a própria tristeza.
Mesmo nos tempos mais difíceis, quando o barulho das armas parecia discutir com o canto dos pássaros, havia sempre alguém num quintal a contar uma anedota, alguém a tocar um batuque improvisado, alguém a dizer: “calma, meu irmão… um dia isso vai passar.”
E passou.
No dia 4 de Abril de 2002, Angola acordou diferente.
Não foi um milagre repentino, nem um espectáculo de fogos de artifício. Foi mais como quando a chuva para após uma tempestade muito longa e as pessoas saem devagar de casa, olhando o céu com desconfiança, como quem pergunta: “será que agora é mesmo paz?”
Era.
Naquele dia, o País começou a aprender novamente a respirar sem medo. As estradas deixaram de ser caminhos de incerteza e voltaram a ser pontes entre famílias. As crianças puderam brincar com mais liberdade, e os adultos começaram a pronunciar uma palavra que durante muito tempo parecia distante: futuro.
O Dia da Paz e da Reconciliação Nacional tornou-se então uma espécie de aniversário da esperança angolana.
Não porque todos os problemas desapareceram, longe disso. Mas, porque naquele momento o País decidiu que a guerra já tinha falado demais e que agora era a vez da vida tomar a palavra.
E Angola, quando decide viver, faz isso com estilo.
Logo voltaram os mercados cheios de vozes, as músicas nos bairros, os debates nas praças, os sonhos dos jovens que começaram a imaginar universidades, empresas, projectos e caminhos que antes pareciam impossíveis.
Angola começou a reconstruir-se como quem monta um puzzle gigante, peça por peça.
Às vezes com pressa demais. Outras vezes com tropeços.
Mas sempre com aquela teimosia optimista que caracteriza o povo angolano.
Porque o angolano tem uma habilidade rara: consegue rir mesmo quando a vida insiste em complicar o enredo.
Se falta luz, alguém diz: pelo menos a lua não cobra factura.
Se o autocarro demora, alguém comenta: Calma, estamos só a dar tempo para a esperança chegar primeiro.
É um humor quase filosófico. Um jeito de transformar dificuldade em resistência e resiliência. E talvez seja essa leveza que impede Angola de perder completamente o sorriso.
Claro, ainda há muito caminho pela frente. A paz abriu a porta, mas a justiça social, a igualdade de oportunidades e a prosperidade partilhada ainda estão a caminho. O País continua a procurar a melhor forma de transformar a sua riqueza natural em riqueza humana.
Mas há algo que ninguém pode negar: Angola já provou que sabe levantar-se.
Se um País que suportou décadas de guerra conseguiu reencontrar a paz, então também pode encontrar novos caminhos de desenvolvimento, de cidadania e de dignidade.
A história angolana continua a escrever-se. E talvez o capítulo mais bonito ainda esteja por vir.
Por isso, quando penso naquele verso antigo que veio do Brasil através da voz do saudoso Bezerra da Silva, sorrio com uma certa cumplicidade.
Sim, às vezes choramos por Angola. Mas são lágrimas diferentes. Não são lágrimas de derrota. São lágrimas de quem ama um país que aprendeu a transformar cicatrizes em caminhos.
E por isso digo, sem vergonha e com esperança:
Vejam que não sou fraco. Mas tive que chorar por Angola. Não de tristeza… mas daquela emoção serena de quem acredita que o País que celebrou a paz em 4 de Abril de 2002, ainda guarda dentro de si a força necessária para construir, com alegria e reconciliação, um futuro mais justo para todos os seus filhos.
Bom fim de semana.
Vou já ao banquete do “Tata Mbuta”, embaixador Edgar Martins, para aplaudir os ‘mujimbos’ da paz. Quem sabe, se paro de chorar com um bom vinho tinto?
Fui!
*Inspirado na canção do saudoso Bezerra da Silva, músico e compositor popular brasileiro de feliz memória
*Menga-Ma-Kimfumu











