A FELICIDADE NÃO É A AUSÊNCIA DE INFELICIDADE

RECADOS DA CESALTINA ABREU (53)

O Dia Internacional da Felicidade, assinalado a 20 de Março, foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 28 de junho de 2012, com o objectivo de fazer com que as pessoas percebam a importância da felicidade nas suas vidas, e do que realmente importa na vida.

Em geral, considera-se haver 3 tipos de felicidade:

  • Felicidade humana: é a parte relacionada com a saúde e o bem-estar…
  • Felicidade cultural: é a relacionada com o contexto em que somos criados, em que vivemos e os valores que nos caracterizam e defendemos…
  • Felicidade pessoal: essa é única parte considerada individualizada, para cada pessoa, mas não deve ser vista isoladamente das anteriores, e nem ser confundida com os gostos pessoais.

Não há uma “chave” da felicidade, mas estudos apontam para um conjunto de atitudes focadas: a) no relacionamento com os outros, ‘todos os outros das nossas vidas’; b) no sentimento de gratidão pelo que somos, o que temos, o que conseguimos e o que nos dão; c) no autoconhecimento permitindo-nos sempre melhorar, seguir em frente, inspirar outros a seguirem, também; e d) simplicidade no ser, no estar, no viver. Estudos indicam que, mesmo nas sociedades actuais com uma predominância de valores materiais, onde egos exacerbados, sentido de posse, ostentação, superficialidade e muitas ‘máscaras’, e tudo o mais que caracteriza o sucesso financeiro, são os laços afectivos fortes, o factor mais determinante para o bem-estar duradouro, o sentimento de plenitude, o estar de bem com a vida!

Quando acima citei ‘Estudos’ não o fiz ao acaso. Universidades, como a de Harvard, tem conduzido estudos (“Estudo do Desenvolvimento Adulto” iniciado em 1938 com 700 adolescentes), procurando identificar os principais pilares ‘da felicidade’, esse sentimento, essa sensação boa que muitas vezes temos dificuldade em verbalizar quando a sentimos, mas sabemos bem (dolorosamente) reconhecer quando ela está ausente. São eles:

  • Relacionamentos Afectivos (A Chave de Harvard): Mais de 80 anos do estudo da Universidade de Harvard (“Estudo do Desenvolvimento Adulto” iniciado na década de 1930), concluíram que ter relacionamentos próximos e de qualidade (amigos, família, parceiros) é o factor mais importante para uma vida longa e feliz;
  • Gratidão: Reconhecer e agradecer pelo que se tem, em vez de focar no que falta, é considerado uma chave fundamental para a satisfação pessoal; segundo a  Real Academia Espanhola, a felicidade é definida como um “estado de grata satisfação espiritual e física”;
  • Autoconhecimento e Atitude: A felicidade é cultivada interiormente através do autoconhecimento, da autocompaixão e de uma atitude positiva diante dos desafios: Sim, eu posso/ nós podemos!
  • Propósito e Cuidado: Ter objectivos de vida e cuidar do corpo e da mente; 
  • Simplicidade e Presença: Viver com simplicidade, atenção plena (mindfulness) e valorizar o momento presente (o caminho) parece crucial, segundo estudos baseados na cultura do Butão, país da Ásia, conhecido pelo seu princípio de governo de priorizar a felicidade e o bem-estar humanos em detrimento do desenvolvimento económico; e também pela conexão com a natureza.

Para Ron Gutman, professor de Stanford, que dedicou grande parte de sua carreira a aprender mais sobre o assunto, a chave da felicidade, a resposta é simples — é simplificar. “Quanto mais eu avanço na pesquisa sobre a felicidade, mais eu pessoalmente a entendo melhor, mais e mais eu a conecto à atenção plena”, disse Gutman. 

Ele descobriu durante a sua viagem, observando as pessoas no Butão e por meio das suas conversas com o clero local, que a felicidade está conectada à atenção plena, que pode ser encontrada na natureza. “Na cultura moderna, estamos muito concentrados no que está acontecendo lá fora. Há muito estímulo chegando até nós… Em algum momento, nos tornamos quase prisioneiros disso”, disse Gutman. “A natureza cria exactamente o oposto… A natureza está lá, simplesmente acontece” (https://exame.com/mundo/qual-a-chave-para-a-felicidade-professor-de-stanford-vai-a-pais-mais-feliz-do-mundo-e-da-a-resposta/ ).

Robert Waldinger, professor de psiquiatria na Universidade de Harvard, e mestre zen, o 4º director do estudo acima citado, e co-autor do livro The good life (“A boa vida”, em tradução livre) sobre as principais lições do estudo, defende que a qualidade dos nossos relacionamentos é o principal indicador da nossa felicidade e saúde à medida que envelhecemos. E lembrou que nunca é tarde para “energizar” as relações ou construir novas conexões. 

Em entrevista à BBC, perguntado sobre qual foi a descoberta que mais chamou a atenção no estudo, respondeu: “Não foi nenhuma surpresa que as pessoas em relacionamentos mais calorosos sejam mais felizes. Isso faz sentido. Mas a surpresa foi a de que as pessoas que têm relacionamentos mais calorosos permanecem fisicamente mais saudáveis ​​à medida que envelhecem” (https://www.bbc.com/portuguese/articles/cxe3pgjzj3no).

Em suma, a felicidade está mais ligada a conexões significantes, profundas, e à forma como encaramos a vida, do que a bens materiais. Embora o estudo de Harvard demonstre isso mesmo, e considere que a atenção é a forma mais básica de amar, ainda há quem associe a felicidade ao sucesso na carreira e ao aumento de bens materiais. 

Arthur C. Brooks, também professor de Harvard, aponta que esse é um erro comum. Ele afirma que “a felicidade não é a ausência de infelicidade”, e que o sucesso não garante necessariamente o bem-estar (https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/a-chave-da-felicidade-esta-neste-detalhe-ignorado-por-quase-todo-mundo/ ).

Em vez de buscar a felicidade em conquistas externas, é essencial olhar para dentro e valorizar os laços que nos unem. Afinal, são esses relacionamentos que realmente enriquecem as nossas vidas e proporcionam-nos um sentido duradouro de satisfação. A finalizar o livro, Waldinger convida cada leitor a pensar em alguém de quem sente falta, alguém com quem não se sente tão conectado quanto gostaria, ou alguém que quer ter certeza que saiba que está pensando nele ou nela. E envie uma mensagem de texto, ou um e-mail, ou ligue para ele/a e apenas diga: “oi, eu estava pensando em você e queria falar com você”.

Nesta 6ª feira, saúde, cuidados (a atenção antes referida faz parte) e coragem para ligar ou enviar email, sms, mensagem: “oi, eu estava pensando em você e queria falar com você”. Desejo muitos (bons) retornos, boas surpresas. Vamos aguardar o resultado?

Kandando daqui

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR