EXCEPCIONALISMO: A MÁSCARA DA SUPERIORIDADE QUE SUPRIME O DIÁLOGO

POR JOAQUIM JAIME

Uma ideologia de dominação que, sob o disfarce de missão civilizadora, destino manifesto, povo eleito ou cumprimento de profecias bíblicas, perpetua as mesmas hierarquias que produziram séculos de colonialismo, imperialismo e genocídio.

A história das relações internacionais é marcada por narrativas de poder que, ao longo dos séculos, encontraram no conceito de excepcionalismo a justificação perfeita para a dominação. Quando um povo se autoproclama escolhido por Deus, portador de uma missão civilizadora ou detentor de um destino manifesto, o que se esconde por trás desse discurso grandioso é a mais cruel hierarquização da humanidade. Estados Unidos e Israel, cada um à sua maneira, representam hoje os exemplos mais contundentes de como essa crença na superioridade própria se traduz em agressões concretas contra nações e povos considerados “inferiores”.

A raiz puritana e o destino manifesto

O excepcionalismo americano não nasceu ontem. As suas raízes remontam aos primeiros colonizadores puritanos que aportaram na Nova Inglaterra, com a convicção de que estavam a estabelecer uma “Cidade sobre a Colina” — uma sociedade modelo que deveria iluminar o mundo. John Winthrop, ainda no século XVII, já plantava a semente de uma nação que se via como especial aos olhos de Deus. O que poucos mencionam é que essa “cidade iluminada” foi construída sobre o extermínio sistemático de povos indígenas e o trabalho escravo de africanos, revelando que a luz do excepcionalismo sempre projectou sombras muito longas.

Essa identificação com o povo eleito bíblico foi tão profunda, que os primeiros puritanos chegaram a chamar os Estados Unidos de “Nova Canaã”, nomeando acidentes geográficos com nomes bíblicos e vendo a si mesmos como os novos israelitas fugindo do “Faraó” britânico, em direção à terra prometida. Thomas Jefferson, um dos pais fundadores, chegou a propor que o selo nacional representasse os filhos de Israel sendo guiados por uma nuvem e uma coluna de fogo, demonstrando como a identificação com a narrativa hebraica estava entrelaçada com a própria identidade nacional americana desde o início.

Ao longo dos séculos, essa crença foi se metamorfoseando. No século XIX, ganhou contornos de “Destino Manifesto” — a ideia de que os Estados Unidos estavam predestinados a expandir os seus domínios do Atlântico ao Pacífico, independentemente de quem já habitava essas terras. No século XX, transformou-se na justificação para intervenções na América Latina, no Sudeste Asiático e no Médio Oriente, sempre sob o nobre pretexto de “levar a democracia” e “defender a liberdade”.

A síndrome do dono do mundo

A síndrome do dono do mundo é precisamente essa incapacidade de enxergar outros países como interlocutores legítimos, e não como subordinados que devem seguir as orientações de Washington. Quando um país se coloca na posição de “polícia do mundo”, ele automaticamente desqualifica qualquer voz dissonante como irracional, imatura ou simplesmente irrelevante.

A política externa norte-americana exemplifica essa postura de maneira cristalina. Sob a administração Biden, o mundo era visto como um tabuleiro de xadrez geopolítico, onde alianças ideológicas determinavam movimentos estratégicos. Com Donald Trump, o tabuleiro se transformou em banco imobiliário — os países deixaram de ser parceiros ou adversários para se tornarem propriedades a serem adquiridas, mercados a serem conquistados, recursos a serem extraídos. Essa lógica mercantilista atingiu o seu ponto mais alto com a operação militar que resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em Janeiro de 2026, quando forças especiais norte-americanas invadiram Caracas e capturaram aquele chefe de Estado, para julgá-lo em tribunais dos EUA. Na mesma linha, Trump autorizou acções militares contra o Irão, e intensificou pressões sobre o governo do Panamá à rescindir acordos comerciais com a China, enquanto renovava publicamente a sua ambição de tomar a Groenlândia, declarando explicitamente que “precisamos da Groenlândia”, e sugerindo que a ilha estratégica deveria pertencer aos Estados Unidos. Em todos esses casos, a justificação é a mesma: a defesa dos interesses americanos, sobrepõe-se a qualquer noção de soberania alheia ou direito internacional.

Essa postura explica por que Washington nunca terá aliados no sentido verdadeiro da palavra. Terá, no máximo, subalternos. Os membros da OTAN aprendem a seguir as directrizes sem questionar; a Rússia é rotulada como irracional e expansionista; Cuba é tratada como um experimento fracassado que precisa ser constantemente punido. O diálogo horizontal, entre iguais, é impossível quando uma das partes se considera naturalmente superior.

A irracionalidade dos “outros”

Um dos aspectos mais perversos do excepcionalismo, é a desqualificação epistêmica do outro. Ao rotular nações inteiras como irracionais, o excepcionalista se exime da obrigação de argumentar, de convencer, de dialogar. Por que perder tempo debatendo com quem não tem capacidade de compreender a verdade? Por que considerar a opinião de povos que não tiveram a sorte de serem escolhidos por Deus ou pela história?

Essa lógica não é nova. Ela remonta às cruzadas, quando o cristianismo europeu se arvorava no direito de conquistar terras “infiéis”. Manifestou-se na expansão colonial do século XIX, quando o continente africano foi partilhado entre potências europeias sob o pretexto de uma “missão civilizadora”. Esteve presente na justificação para a escravidão, quando africanos negros foram considerados sub-humanos e, portanto, passíveis de serem propriedade. E permanece viva hoje, quando milhares de mortes palestinas são tratadas como “danos colaterais” inevitáveis, enquanto as vítimas israelitas de ataques do Hamas merecem comoção internacional imediata.

Criam-se, assim, duas categorias de vidas: as que importam e as que não importam. Os mortos ocidentais ou israelitas são individualizados, nomeados, chorados. Os mortos palestinos, afegãos, iraquianos, iranianos, africanos ou sírios transformam-se em estatísticas, números frios que eventualmente incomodam, mas nunca mobilizam a mesma indignação.

O sionismo cristão: a teologia que sustenta a política

Para compreender plenamente a profundidade da aliança entre Estados Unidos e Israel, é necessário examinar o papel do sionismo cristão — uma corrente teológica que ganhou imensa influência política nas últimas décadas e que hoje constitui um dos pilares mais sólidos do apoio americano a Israel.

O sionismo cristão, enraizado no movimento evangélico fundamentalista, não vê Israel meramente como um aliado estratégico, mas como o cumprimento de profecias bíblicas relacionadas com a segunda vinda de Cristo. Para milhões de evangélicos americanos, apoiar Israel não é apenas uma opção política, mas um imperativo religioso — uma forma de adoração e obediência a Deus. O livro The Religious Dimension in American Policy Towards the Arab-Zionist Conflict, do diplomata Youssef Al-Hassan, argumenta que as explicações tradicionais baseadas em interesses estratégicos ou no lobby israelita, são insuficientes para compreender a profundidade doutrinária que move as elites dirigentes em Washington.

Essa teologia fundamenta-se no dispensacionalismo, um sistema interpretativo desenvolvido no século XIX que divide a história em eras distintas, e sustenta que Deus tem dois povos escolhidos: Israel e a Igreja. Os dispensacionalistas acreditam que as profecias do Antigo Testamento referem-se sempre ao “Israel étnico”, ou seja, ao povo judeu contemporâneo. A Igreja, por sua vez, tem a função de reunir os gentios, mas em determinado momento — o arrebatamento — será retirada do mundo para que Deus retome seus planos com Israel através das profecias.

Na prática, essa teologia traduz-se em apoio incondicional a qualquer governo israelita e em justificação para as piores violações de direitos humanos. Mike Huckabee, actual embaixador dos EUA em Israel e proeminente sionista cristão, declarou explicitamente que os judeus têm “direito divino” à terra, e negou a existência de uma identidade nacional palestina. Em entrevista a Tucker Carlson, quando questionado se Israel teria direito, segundo a interpretação literal da aliança bíblica em Gênesis 15 (que promete terras “do Nilo ao Eufrates”), a reivindicar grande parte do Médio Oriente, Huckabee respondeu: “seria bom se tomassem tudo”.

Esta não é uma posição marginal. Em 2 de Novembro de 1917, surge a Declaração Balfour. Foi uma carta oficial emitida pelo governo do Reino Unido, durante a Primeira Guerra Mundial. Ela foi assinada pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros britânico Arthur James Balfour e enviada a Walter Rothschild, líder da comunidade judaica britânica. No essencial a carta afirmava que o governo britânico apoiava a criação de um “lar nacional para o povo judeu na Palestina”, desde que não prejudicasse os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas que já viviam na região.

Na época, a Palestina fazia parte do Império Otomano, que estava em colapso durante a guerra. Muitos líderes religiosos incentivaram os judeus a imigrarem para a Palestina, por considerarem que a mão de Deus estava a reunir a sua diáspora. Pastores como Billy Graham, alcançaram milhões de telespectadores e ouvintes através de milhares de estações de rádio e televisão, difundindo a mensagem de que as fronteiras de Israel deveriam se estender “do Nilo ao Eufrates”. Essa inundação mediática criou uma base popular ampla, que explica por que a política americana em relação ao conflito não muda com a alternância de presidentes — a doutrina religiosa permanece como a bússola constante .

Israel: o excepcionalismo judaico e a aliança com a Direita Cristã

Se os Estados Unidos são a potência excepcional por excelência no cenário global, Israel representa o excepcionalismo aplicado a uma escala regional. O Estado judeu foi fundado sobre a premissa de ser o lar nacional de um povo perseguido, mas, rapidamente incorporou elementos da mesma lógica superioritária que vitimou judeus na Europa.

A crença na terra prometida, no povo eleito, na missão divina de ocupar territórios que Deus teria destinado aos descendentes de Abraão — tudo isso se traduz, na prática, em políticas concretas de anexação, colonização e segregação. Benjamin Netanyahu e outros líderes israelitas operam a partir da convicção de que Israel é, qualitativamente, diferente dos seus vizinhos, superior em termos morais, intelectuais e civilizacionais. Dessa premissa, decorre uma conclusão lógica: se somos superiores, não precisamos negociar de igual para igual; podemos impor a nossa vontade; podemos bombardear crianças em Gaza e justificar como legítima defesa; podemos construir muros, confiscar terras, negar direitos.

A partir da vitória na “Guerra dos Seis Dias em 1967”, quando Israel passou a ser percebido como um potencial aliado estratégico para o Ocidente na Guerra Fria, a aliança com os Estados Unidos começou a se consolidar. Mas foi a partir do final dos anos 1970, que essa aliança ganhou contornos teológicos. A vitória eleitoral de Menachem Begin em 1977, um judeu muito mais observante que os seus antecessores, abriu as portas para uma aproximação deliberada com a direita cristã americana. Begin cultivou a relação com líderes como Jerry Falwell, da Maioria Moral, citando a Bíblia e falando sobre valores conservadores compartilhados entre judeus e cristãos .

Netanyahu aprofundou essa estratégia, compreendendo que os sionistas cristãos seriam aliados mais úteis a longo-prazo para Israel, do que os judeus americanos de orientação mais liberal. O risco de alienar outros segmentos do apoio americano foi considerado aceitável diante da solidez da parceria com a direita religiosa.

O exército israelita, repetidamente acusado por organizações internacionais de violações dos direitos humanos, opera com a certeza de que suas acções serão minimizadas ou justificadas pelos aliados ocidentais. E essa certeza não é infundada — os Estados Unidos vetam sistematicamente resoluções no Conselho de Segurança da ONU que condenam Israel, enquanto a Europa oscila entre críticas tímidas e silêncio cúmplice. Quando o ex-secretário de Estado Mike Pompeo declarou, em referência a Trump, que acreditava ser possível que o presidente tivesse sido “levantado para um tempo como este, assim como a rainha Ester, para ajudar a salvar o povo judeu da ameaça iraniana”, e afirmou estar “confiante de que o Senhor está agindo aqui”, ficou explícita a profundidade da influência teológica na formulação da política externa.

A hierarquização das vidas e dos direitos

O excepcionalismo produz uma hierarquia não apenas entre nações, mas entre seres humanos. Quando o presidente americano declara que “a América é a nação indispensável”, ele está a afirmar que os americanos são, de alguma forma, mais necessários para o mundo do que qualquer outro povo. Quando líderes israelitas justificam a expansão de assentamentos na Cisjordânia como “direito histórico”, estão a dizer que o direito dos colonos judeus à terra, é superior ao direito dos palestinos que ali vivem há gerações.

Essa hierarquização permite a aplicação selectiva dos princípios que ambos dizem defender. Os Estados Unidos invadem países para “levar a democracia”, mas apoiam ditaduras quando lhes convém. Israel se apresenta como “a única democracia do Médio Oriente”, mas mantém milhões de pessoas sob ocupação militar sem direitos políticos. Os valores universais — democracia, direitos humanos, liberdade — são evocados quando servem aos interesses dos excepcionais e ignorados quando entram em conflito com esses mesmos interesses.

O sionismo cristão oferece cobertura moral e teológica para essa hierarquização. A ideia de que Deus abençoa quem abençoa Israel (Gênesis 12:3) é usada para justificar o apoio incondicional, independentemente das acções do governo israelita. Críticas às políticas israelitas são interpretadas como uma maldição divina sobre os críticos, o que explica a imunidade política que Israel desfruta no Congresso americano. O Presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Mike Johnson, por exemplo, afirmou publicamente que seu apoio a Israel é baseado na sua fé e na crença de que “esta terra pertence ao povo judeu”.

O silêncio da superioridade

Talvez o aspecto mais alarmante do excepcionalismo contemporâneo seja a naturalização dessa postura. Tão acostumados estamos com a ideia de que os Estados Unidos são o centro do mundo, que Israel tem o direito de se defender por qualquer meio, que a Europa representa o ápice da civilização, que raramente questionamos os fundamentos dessas crenças. Josep Borrell, vice-Presidente da União Europeia e o alto-representante da UE para os Negócios Estrangeiros, disse em Outubro de 2022, que “a Europa é um jardim, o resto do mundo é uma selva”. Segundo a jornalista e escritora portuguesa Raquel Ribeiro, a fala de Josep Borrell “demonstram bem que, para se poder viver neste jardim europeu, foi sempre necessária a criação e manutenção de uma (ideia de) selva lá fora”.

O pensamento excepcionalista foi internalizado inclusive por aqueles que deveriam combatê-lo. Intelectuais, jornalistas e formuladores de políticas no Ocidente frequentemente reproduzem, sem perceber, a mesma lógica hierarquizante que condenam quando praticada por outros. Fala-se em “ajudar a África a se desenvolver” como se o desenvolvimento fosse uma dádiva a ser concedida, e não um direito a ser conquistado autonomamente. Discute-se a “estabilização do Médio Oriente” como se a estabilidade fosse algo que potências externas pudessem impor de fora para dentro.

No entanto, começam a surgir rachaduras nesse edifício. Pesquisa revela que 45% dos republicanos com menos de 44 anos veem os judeus como uma ameaça ao modo de vida americano, o dobro da taxa dos republicanos mais velhos. De acordo com a pesquisa, Tucker Carlson é um grande factor nessa tendência, 58% votariam nele para presidente. O apoio incondicional a Israel, que durante décadas foi um consenso bipartidário em Washington, começa a ser questionado inclusive dentro da base do Partido Republicano, à medida que a geração mais jovem se mostra mais cética em relação ao alinhamento automático com o governo israelita.

O diálogo impossível

Enquanto persistir a crença na superioridade inata de determinadas nações sobre outras, o diálogo verdadeiro nas relações internacionais será impossível. Países que se consideram excepcionais não negociam — impõem. Não convencem — subjugam. Não aprendem — ensinam. Não escutam — falam.

O excepcionalismo americano e israelita, nas suas manifestações contemporâneas e com o poderoso combustível do sionismo cristão, representam um retrocesso civilizacional. Ao hierarquizarem a humanidade entre escolhidos e descartáveis, entre racionais e irracionais, entre superiores e inferiores, esses países traem os próprios valores que dizem defender. A liberdade, a democracia e os direitos humanos são universais ou não são nada. Não podem ser privilégios de povos autoproclamados excepcionais.

É preciso, portanto, desmascarar o excepcionalismo pelo que ele realmente é: uma ideologia de dominação que, sob o disfarce de missão civilizadora, destino manifesto, povo eleito ou cumprimento de profecias bíblicas, perpetua as mesmas hierarquias que produziram séculos de colonialismo, imperialismo e genocídio. O primeiro passo para um mundo mais justo é reconhecer que nenhum povo é superior a outro — e que o diálogo genuíno só pode ocorrer entre iguais.

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