ANGOLA ENTRE SOBERANIA E ESTRATÉGIA

INSTITUIÇÕES FORTES COMO FUNDAMENTO DO PODER NEGOCIAL 

POR LUÍS SILVA CARDOSO 

A soberania angolana no século XXI não será determinada apenas pela posse de recursos naturais, mas pela qualidade das suas instituições. Sem estabilidade interna, não há autonomia externa duradoura.

O actual contexto internacional caracteriza-se por crescente competição geoeconómica, diplomacia transacional e disputa por recursos estratégicos. Países africanos como Botsuana e Namíbia têm demonstrado que é possível afirmar soberania nas negociações internacionais sem romper com a racionalidade económica. A principal variável que sustenta essa postura não é retórica, mas institucional.

Para Angola, a lição central é inequívoca: legitimidade interna converte-se em poder externo. Estados que possuem instituições previsíveis, processos eleitorais credíveis e mecanismos eficazes de fiscalização pública conseguem negociar recursos estratégicos com maior autonomia e menor risco de instabilidade interna. Onde há confiança institucional, decisões difíceis, inclusive rejeição de contratos assimétricos, tendem a ser interpretadas como escolhas de Estado e não como manobras de governo.

Angola dispõe de activos significativos: petróleo, diamantes, minerais críticos emergentes e posição geoestratégica relevante no Atlântico Sul. Contudo, transformar esses activos em poder estrutural exige três pilares:

 1 – Consolidação institucional, reforço da independência judicial, credibilidade eleitoral e transparência contratual;

 2 – Estratégia nacional de recursos, definição clara de objectivos de longo prazo, conteúdo local, transferência tecnológica e diversificação de parceiros;

 3 – Consenso político mínimo, pactos estratégicos que transcendam ciclos eleitorais e reduzam a instrumentalização partidária de decisões estruturais.

A experiência do Zimbabué demonstra que soberanismo discursivo sem sustentação institucional tende a gerar desconfiança externa e vulnerabilidade interna. Já modelos mais estáveis indicam que a assertividade estratégica só é eficaz quando ancorada em previsibilidade jurídica e coesão política.

Num sistema internacional onde grandes potências, incluindo os Estados Unidos, adoptam abordagens cada vez mais orientadas por interesses estratégicos directos, Angola deve responder não com isolamento nem com dependência, mas com pragmatismo soberano. Isso significa negociar com firmeza, diversificar alianças e fortalecer a sua posição regional, inclusive no quadro da União Africana.

Em síntese, a soberania angolana no século XXI não será determinada apenas pela posse de recursos naturais, mas pela qualidade das suas instituições. Sem estabilidade interna, não há autonomia externa duradoura. Com instituições fortes, Angola pode transformar riqueza potencial em influência estratégica real.

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