ENTRE O OUTONO E O CACIMBO

JAcQUEs TOU AQUI! 

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

Vivo em Portugal há uns anos. Tenho autorização de residência. Não preciso de explicar-me, mas tenho sempre em conta os mal-intencionados que se dedicam a explorar a presença de angolanos aqui. Talvez por isso, aqui esteja hoje, para vos dizer, meus amigos, que as causas do meu retiro são de força maior. Perguntam-me se já pensei em requerer a nacionalidade portuguesa. Porque não? Deixarei de ser angolano? Claro que não! Além disso, já não tenho tempo de ser ministro ou deputado, director ou assessor, nem na Tuga, nem na Bwala. Ademais e afinal, quem tem com isso? Traduzindo, alguém tem alguma coisa a ver com o assunto? As insinuações provocam, e eu detesto insultos moralistas, vindos de gente sem moral! 

Quem manda na minha vida, sou eu! Cantava assim, em tempo de afirmação e com toda a sua autonomia, a minha querida amiga Isa Abano, imitando som de samba brasileiro, dos fabulosos anos cinquenta.  

Voltando à vaca fria, vou dizendo que não há ano que não regresse, de facto, nem momento que não pense, de verdade, no retorno à terra amada. Este ano quase a acabar está a ser excepção, por muitas e boas razões. Tem motivação especial. Por isso estou a fazer tudo para no início de 2026, estar presente em Luanda e assinalar junto dos meus companheiros os 37 anos da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde.  Para, se não a assassinarem antes, celebrar a data. Com os companheiros, com os de boa vontade, com os que ainda acreditam. Eles tudo farão para o conseguir, e por nada deste mundo quero assistir ao funeral da Caxinde nem ao komba ditókwa que muitos lhe preparam. Não! Não deixaremos que acabem assim, à toa, sem respeito pelo passado da nossa Associação! Se necessário, recomeçaremos pelo princípio, como quando éramos nove, e mesmo sem instalações, quando fomos fazendo coisas. Ao proclamá-la, já éramos cem, certinhos. Fomos os fundadores.

Não me consigo retrair, muito menos esquecer esses tempos em que a verdadeira índole das pessoas andava escondida. Éramos ingénuos e não sabíamos, embora já se desconfiasse da atitude de alguns. Apesar dessas andanças me cansarem e das ameaças já me fatigarem o juízo, vou sentindo cada vez mais, o quanto é deprimente suportar a mentira e os inescrupulosos, os arautos da verdade, os modernos defensores do Estado Democrático e de Direito.  Deixando para trás questões de honestidade, digo-vos hoje, meus amigos, que estou com uma tremenda vontade de abraçar a malta que me entende, a família e os velhos amigos. Recordar os tempos bons em que éramos elogiados por salvarmos património nacional, em que éramos gente de bem. Agora dizem que somos negociantes. É preciso coragem!

Também confesso que tenho vontade de sentir novas sensações. Deve dar tremendo gozo, descer no Aeroporto Novo, do qual ouço dizer maravilhas. Está tudo lindo, a luzir. É a modernidade, camaradas! Avaliando o modo que se fala dele, será, no momento, dos melhores do mundo. “Desconseguiram Angola”, escreve Costa Silva, mas conseguiram o Aeroporto, diz o povo crente, o que tem meios de viajar. O pior estão a ser, como esperado, as mazelas que se abrem já. O modo como se utilizam os luxuosos espaços e os serviços que não existem. O constrangimento maior será o do trânsito automóvel que conduz os passageiros para a cidade velha. Cada vez mais complicado. O lixo apodrecido e acumulado nos bairros próximos, mostra-se aos recém-chegados em tempo chuvoso. Turismo assim, será difícil!

No âmbito do glorioso 10 de Dezembro de matulonas festanças e para aliviar a desesperança do povo, o Ministro dos Transportes vem falando afoitamente do surgimento, a breve prazo, de um metro de linha azul, única, certamente, por isso não entendo a designação da cor. Terá uma extensão de 50 quilómetros, rasgando terreno da baixa aos musseke. Provavelmente estará incluído no espectacular plano de mobilidade que vai exigir do Estado um investimento de dois mil milhões de dólares por ano. Isto multiplicado por vinte, pelo menos, será um festival de números que, traduzidos em kumbú que faria o povo feliz, são difíceis de pronunciar. É muita riqueza a projectar-se. Para quem? Para o povo, claro está. O empreendimento vai abarcar o país inteiro. C’um caraças! É dinheiro que nunca mais acaba, é para dar e vender, para fazer alguma gente feliz. Uma ideia sublime, maravilhosa! Porém, e pela certa, mais dívida pública. Sobre isso não haverá qualquer dúvida. E o serviço dela, da dívida, está a cada dia que passa, mais complicado, a afundar o País. E os responsáveis do País não falam dela. Limitam-se a ouvir o que dela diz o Secretário-Geral das Nações Unidas, que parece mais preocupado com o assunto que os nossos dirigentes. A menos que o crescimento económico de Angola atinja velocidade supersónica, sempre a subir, com o petróleo a dar a garantia habitual e do costume. Talvez as areias raras e os outros minérios que darão vida aos corredores com que se sonham, resolvam os nossos problemas. Oxalá que assim seja, que continue “incabável” a nossa riqueza. Assim sendo, até poderemos ser agraciados, num futuro breve, com umas “Conversas em Família”, do género daquelas com que Marcelo Caetano iludia os portugueses, no limiar dos anos setenta. O pior de tudo é que todas essas fabulosas ideias de crescimento, só se concretizarão entre 20 e 40 anos, e eu não terei nenhuma hipótese de as ver realizadas. Resta-me continuar a refilar. Dizendo que é uma pena que se governe o país dum modo tão abstracto, tão pouco realista. Resumindo, tão incompetente! Eles lá sabem com que linhas se cosem, ainda consigo acrescentar.

Mesmo assim, talvez tenha ainda tempo de ver modificadas, na forma e na letra, algumas leis, e de assistir a lutas democráticas – porque não, se estamos num país onde a democracia é permanentemente citada? –  por uma ou outra emenda na nossa Constituição. Como sonhar é fácil! 

Mas, deixem-me voltar a este tempo comprido que passo na Tuga, para reforçar a ideia de que ele é para mim um período sempre impensável de ausência e que tende, infelizmente, a prolongar-se. Farei de tudo para fugir da permanência longa, esforço-me o melhor que posso para evitá-la. Quero voltar à terra, permanecer e, se possível, ali ficar para sempre.  

Por cá, o outono chegou, estou a sentir bastante os seus efeitos. Um mbambi dos antigos ataca-me fortemente a estrutura física. Tem pouco a ver com o cacimbo nos nossos trópicos, pensando até que o inverno seria mais próprio nesses termos comparativos. O outono tem uma aparência subtil, torna o tempo traiçoeiro, por vezes esfria, finge que não chove, mas molha. É um tempo que requer sintonia fina na sua captação, detalhe que um mestre da palavra sábia, de um ADN sensível, me ensinou a saber, um dia destes. 

Referiu-se à estação para dizer, que ela aqui não serve, como nos países mais frios da Europa, para derreter a neve no meio-fio das estradas e encher de flores súbitas os jardins das casas. Insondável retórica de um sábio! Cá por mim, pouco habituado a essas temperaturas gélidas, só sei e posso dizer que, nesta altura, o tempo frio faz sempre as escolhas mais fortes e mais definitivas. E faz-me, por breves instantes, relembrar o Natal de 1980 passado em Sófia na Bulgária. Foi a primeira vez que vi neve. Belos panoramas de Sofia, a capital, e também de Plovdiv. Visitamos o túmulo de Dimitrov, fizemos momento de recolhimento, depois só lindos sorrisos, e a permanente presença de uma guia-tradutora formosíssima. Estávamos na moda, tudo era bom. O dinheiro das ajudas de custo serviu-me para comprar bons agasalhos. Das luvas, restou-me a da mão esquerda, que ainda guardo religiosamente. Outros membros da nossa delegação, seríamos uns dez ou doze, preferiram comprar aparelhagens de som. Apesar das complicações que davam a sua transportação, principalmente em Lisboa. Para a conseguir, uma valente camarada preferiu andar aqueles dias invernais com os pés quase descalços, com sandálias abertas sobre a neve, e, por onde passávamos, fazia búlgaros ficar espantados a admirá-la. Atenção. Ainda estava em voga o lema “Resistência Popular Generalizada”.

Com os habituais cumprimentos aos queridos leitores, aos familiares, amigos e companheiros de luta, despeço-me de todos. Com os ventos do Natal a aproximarem-se, aguardo-vos no próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 14 de Dezembro de 2025

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