FALAR OU NÃO DIZER NADA?

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

1 – Ainda não atingi o estado trágico de Hamlet, o príncipe da Dinamarca que Shakespeare imortalizou. Sinto estar longe desse cenário. Não me vejo a representar o difícil papel do mítico personagem. Um tipo triste, com ar pensativo, a ponderar sobre a hipótese de continuar a viver, ou não, diante das dificuldades que enfrentava. Eu, a equivalência (como diria o meu amigo professor de posto nos tempos do Cassai-Sul), avalio a situação, sobretudo peso as dúvidas – que tenho eu e temos todos, ou quase todos – sobre a forma mais correcta de olhar este mundo complicado, como é, indubitavelmente, o dia-a-dia a que nos submetemos. 

Pela parte que me toca, temo que já tenha faltado mais tempo do que aquele que sobra para se enfrentar a tragédia que vai ganhando forma gigantesca e vem-se acercando assustadoramente de nós. Apesar disso, ainda existe em mim uma réstia de discernimento que acalma, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. 

Afirmo-o sem alarmismos nem com receios provocados pelo exagero das coisas ditas sem sentido. Consciente de todos os perigos que me cercam, estou neste momento, que nem a D. Filismina, a fantástica intérprete de “O Perigo Amarelo”, um fabuloso conto que destaca o livro do nosso João Melo (recomendo-o aos amigos e não só). Desde que o li, a voz da senhora em causa, dona de um palavreado original, sem fronteiras na linguagem, persegue-me e até já passou a ser uma espécie de conselheira. Vai-me ajudando a tomar posições adequadas nos silenciosos exames que faço à situação vigente. A senhora não se tem negado. Sugere-me, inclusive, alguns palavrões, daqueles mais fortes, que envergonhariam qualquer vassalo do antigo Império. É enorme a semelhança dos seus ditos violentos com a violência que, às vezes, me apetece desatar e atirar ao vento. 

Convém esclarecer que as vítimas dos meus contidos impropérios, não se comparam às que são disparadas pela má-língua de D. Filismina, até porque, nada têm a ver com gente amarelada, nem sequer com que se aproxime na aparência. Informo ainda que ela, segundo revela o conto, para além da aversão que nutre pelo amarelo, é uma senhora preparada para discussões pós-coloniais e, nesse particular domínio, eu infelizmente, não estou à altura, nem sequer aí. Sou daqueles que ainda faço confusão para diferenciar posições certas ou erradas do saber estar no antes ou no pós-25 de Abril. 

2 – Dia 2 de Julho, quinta-feira, foi um dia muito mau para o desporto e particularmente para a comunidade do futebol.  A morte de Diogo Jota e as circunstâncias em que aconteceu o acidente que também vitimou o irmão, como ele, jogador de futebol, atirou-me ao tapete, transformando esse dia num autêntico pesadelo. Senti-me nocauteado, tal como um boxeur atingido por uppercut vindo de Mike Tyson, ou de outro do seu peso. 

A tragédia emocionou montes de gente, influenciou adeptos e foi avaliado das mais diversas formas e condições. As manifestações multiplicaram-se. Impressionaram antes e depois das cerimónias fúnebres, em Gondomar, nas imediações do Porto. Pelo inesperado da ocorrência e pela postura em vida dos atletas desaparecidos. Dos muitos comentários ouvidos e lidos, saliento um que me impressionou bastante. Dito com veemência, numa lógica construída sobre pressupostos indestrutíveis e nos seguintes termos: “Não sou dada ao futebol, nem ao mediatismo que ele provoca. Mas sou sensível à morte, à perda inútil de vidas humanas, de gente inocente. Este facto não evita que pergunte. Porque não vejo o mesmo sentimento de dor e pena, este desespero e toda a revolta, quando as crianças palestinianas são mortas pelos bombardeamentos em Gaza?”

Fiquei sem palavras. É verdade, tive de admitir. Pensei imediatamente nos que são atingidos todos os dias em Angola, por outro tipo de bombas, e voltei à ideia inicial. Novamente, o ser ou não ser, era a questão. A famosa citação extraída de Hamlet de William Shakespeare, enredou-se inesperadamente com a realidade do mundo, com Angola e os meus assuntos, com as minhas mágoas e negligências, com as minhas dívidas e com as minhas vergonhas, com todas as minhas culpas, enfim, com todas as coisas que me colocam num desassossego que assumo e cuja culpa aceito por inteiro. 

E enquanto lanço esse olhar sobre o panorama agitado da minha terra, observo paralelamente a coragem e a resiliência dos cidadãos que não desistem e, em vários parâmetros, se empenham no desdobrar da história, a sobressair sobre a cegueira que atinge os que permanecem submersos no mar de sonhos duvidosos em que mergulharam. Para trás, ficam as dívidas com o povo, para além das dúvidas que assaltam essa imensidão de gente. A maior parte a acusar o Estado por este não estar a garantir, como devia, e com isso, a fazer com que não se acredite que a vida vai melhorar.

Falar ou ficar calado? A questão põe-se ao povo, do mesmo modo que ser ou não ser se colocou a Hamlet.

E assim me despeço. Com os meus habituais e cordiais cumprimentos, saúdo os estimados leitores, companheiros de luta e amigos. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Fernão Ferro, Portugal, 13 de Julho de 2025

P.S. – No findar da tarde do dia 9, fui dar os parabéns ao Zé Guerreiro. Abracei e cumprimentei velhos amigos e novos conhecidos. Reconheci gente nossa em vídeos que passaram. O Zé que fugia de comemorações de aniversários, completou 70 anos, nesse dia e foi apanhado. Meu miúdo na idade, tipo leal, de boas ideias, muito consciente da realidade do País. Importante ter mostrado felicidade no sorriso. Obrigado, amigo. Longa vida, camarada!

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