SOBRE A UNIVERSIDADE QUE PRECISAMOS TER

CONTRIBUIÇÕES

POR CESALTINA ABREU

Que cientistas precisa Angola, e, consequentemente, que Universidade somos chamados a construir? A resposta não é única nem definitiva, mas exige um compromisso colectivo com a reflexão crítica, a abertura ao diálogo e a coragem de transformar práticas instaladas.

Defendo uma visão da educação que equilibra o bem-estar humano e económico com as tradições socioculturais e o respeito pelos recursos naturais, numa perspectiva de sustentabilidade. Assenta em abordagens interdisciplinares, promove a aprendizagem ao longo da vida e incentiva o alinhamento entre necessidades humanas e limites ecológicos, cultivando um sentido de responsabilidade e de solidariedade global.

A integração do desenvolvimento sustentável na experiência formativa implica mobilizar o ensino, a aprendizagem e os curricula para promover consciência global e literacia em sustentabilidade. Para tal, os estudantes devem ser expostos a dilemas e problemas complexos inerentes às suas futuras práticas profissionais; a contextos e públicos diversos, académicos e não académicos; e a ambientes que favoreçam o trabalho interdisciplinar em contextos multiculturais.

A coerência entre propósito e prática exige a revisão regular – e participada – de estratégias, políticas, incentivos e mecanismos que orientam o ensino e a pesquisa. Só assim se assegura o alinhamento com as necessidades de desenvolvimento e se reforçam os padrões de qualidade, excelência e impacto social da Universidade.

Neste quadro, a Universidade deve investir na constituição de equipas de pesquisa interdisciplinares, no desenvolvimento de abordagens sensíveis à diversidade sociocultural, e no envolvimento efectivo das partes interessadas. O objectivo é promover uma educação para o desenvolvimento de natureza holística, articulando ensino, pesquisa e extensão, e envolvendo os estudantes na análise e resolução de problemas do mundo real.

Para cumprir essa função, os curricula devem reflectir a complexidade das realidades sociais – nas suas dimensões económica, política, social e cultural -, integrando as tensões entre o moderno e o tradicional, o formal e o informal, o público e o privado. Impõe-se, igualmente, o estudo das transformações em contextos rurais, urbanos e periurbanos, bem como das inter-relações entre escalas local, regional e global.

Tal pressupõe o reforço das interacções entre universidade e sociedade, promovendo práticas sistemáticas de debate, partilha e deliberação informada sobre questões de interesse colectivo. Requer, ainda, a valorização da interdisciplinaridade e da transversalidade como eixos estruturantes, incorporando o contraditório e respeitando a diversidade epistemológica e social.

Em síntese, a Universidade deve afirmar-se como um verdadeiro “laboratório da sociedade”: um espaço de diagnóstico, experimentação, monitorização e avaliação de soluções. Tive a oportunidade de vivenciar este ‘modelo’ em duas universidades. Neste contexto, o pilar da extensão não é acessório, mas estruturante, na medida em que orienta e articula o ensino e a pesquisa. 

É neste quadro que se coloca, hoje, um desafio central: até que ponto as nossas universidades estão, efectivamente, preparadas para assumir, de forma consequente, este papel?

Entre as várias questões centrais à reflexão e ao aprimoramento das actividades académicas, uma assume carácter fundacional: que cientistas precisa Angola? Trata-se de uma questão incontornável para a definição do perfil de saída dos cursos e, em última instância, para o papel da Universidade na sociedade.

A ela associa-se a necessidade de construir uma Universidade simultaneamente actualizada e actuante, o que implica valorizar, nos métodos de pesquisa, a observação directa e a oralidade, como formas de captar a complexidade dos problemas e melhor os caracterizar. Tal abordagem contribui para integrar estudantes e docentes nos processos de construção do conhecimento, permitindo transformar problemas sociais em problemas sociológicos.

Ao articular o individual com o social, a pesquisa – em particular nas ciências sociais e humanidades – amplia a compreensão do mundo e de si próprio, situando a experiência individual em perspectivas históricas e culturais. Sendo uma prática colaborativa, incorpora múltiplas visões e representações, abrindo espaço à construção de respostas plurais para problemas complexos.

Impõe-se, assim, a promoção de uma cultura académica que prepare os estudantes para contextos multiculturais e abordagens interdisciplinares, estimulando o pensamento crítico e criativo, e formando-os não apenas como especialistas, mas, antes de tudo, como cidadãos.

Neste quadro, torna-se evidente a necessidade de uma abordagem integrada das estratégias de ensino-aprendizagem, aliada a sistemas de avaliação diversificados que favoreçam aprendizagens profundas (Gibbs, 1992). Tal exige, por um lado, investir na transformação do perfil dos estudantes e, por outro, reforçar o papel do departamento como espaço estruturante de qualidade, cooperação e melhoria contínua (Gibbs, 2012).

Daqui decorrem algumas orientações para a construção curricular nas diferentes áreas científicas:

  • combinar métodos de ensino, articulando aulas expositivas com seminários, debates e trabalho em equipa, promovendo o confronto de ideias e a construção crítica do conhecimento; 
  • estruturar os curricula em torno de quatro dimensões fundamentais: saber informar-se (epistemologia), saber observar (métodos), saber analisar (teorias) e saber agir (intervenção); 
  • reforçar o diálogo interdisciplinar, articulando conteúdos curriculares com práticas em interacção com a sociedade, e promovendo a integração precoce dos estudantes em equipas de pesquisa;
  • privilegiar metodologias participativas, a pesquisa empírica e o trabalho de grupo, valorizando dimensões frequentemente negligenciadas, como a oralidade, a observação directa e o diálogo com saberes locais.

O investimento em educação é uma necessidade incontornável, com impacto directo nos restantes sectores de produção de conhecimento. A melhoria das condições de vida – e o próprio futuro – dependem dela. A educação não é despesa, mas investimento com retorno estruturante garantido.

Para que uma nação se afirme como desenvolvida, é indispensável um sistema de ensino de qualidade, público e universal, sustentado por um corpo docente qualificado e socialmente reconhecido. Nesse quadro, os curricula devem preparar os estudantes para um mundo globalizado e complexo, sem perder de vista o conhecimento da sua própria realidade sociocultural e a valorização da diversidade e da pertença.

A concretização destes objectivos exige a revisão e actualização de orientações que, embora presentes em reformas anteriores, nem sempre foram plenamente implementadas. Em particular:

  • ancorar os programas de ensino e pesquisa nos diagnósticos produzidos a partir do pilar da extensão, que deve assumir um papel estruturante, e não meramente acessório; 
  • reforçar a articulação entre extensão, ensino e pesquisa, promovendo actividades interdisciplinares e parcerias entre docentes e estudantes; 
  • criar espaços de interacção entre cursos, valorizando o trabalho em equipa como resposta à complexidade contemporânea e como preparação para a vida profissional e cívica; 
  • assegurar o acesso universal à internet como condição de inclusão académica e cidadã, incentivando o uso crítico de recursos como as Mediatecas; 
  • aprofundar o papel da Universidade nos processos de modernização e democratização, incluindo a população rural e os contextos periurbanos na produção de conhecimento, através de abordagens participativas e de co-produção; 
  • integrar, de forma sistemática, as relações entre o local e o global, estimulando a análise das dinâmicas entre actores e contextos em múltiplas escalas. 

Neste contexto, a relação entre universidade e sociedade revela-se intrinsecamente dialéctica: o destino de uma condiciona o da outra (Lulat, 2005). O ensino superior assume, assim, um papel central no desenvolvimento económico e na consolidação de sociedades democráticas, particularmente no espaço da SADC, onde se reconhece a necessidade de sistemas de ensino superior eficazes, inclusivos e de elevada qualidade (Gumede, 2012; Kotecha, 2012).

Por fim, importa afirmar um quadro de valores que sustente este projecto: rigor científico, integridade académica, respeito pela propriedade intelectual, solidariedade, transparência, abertura à diversidade e ao contraditório. Estes princípios devem articular-se com a valorização de referências, práticas e narrativas africanas, como base de uma Universidade socialmente comprometida e epistemologicamente plural.

Em jeito de conclusão

Retomando a questão: que cientistas precisa Angola, e, consequentemente, que Universidade somos chamados a construir? 

A resposta não é única nem definitiva, mas exige um compromisso colectivo com a reflexão crítica, a abertura ao diálogo e a coragem de transformar práticas instaladas. É nesse exercício contínuo, entre a dúvida e a acção, que a Universidade poderá afirmar a sua relevância e cumprir, de forma consequente, a sua função social.

Em última instância, está em causa a capacidade da Universidade de se afirmar como sujeito activo na construção do futuro. Não apenas como espaço de ‘transmissão’ de conhecimento, mas como lugar de produção crítica, mediação social e compromisso com o desenvolvimento.

A Universidade que o presente exige não pode ser neutra nem distante: deve ser atenta, exigente e comprometida. Um espaço onde o conhecimento não apenas se acumula, mas se interroga; onde a realidade não apenas se descreve, mas se compreende e se transforma.

Mais do que reformar estruturas, importa recentrar o sentido do fazer universitário: formar cidadãos e produzir conhecimento relevante, enraizado na realidade e orientado para a sua transformação. Isso implica coerência entre discurso e prática, entre missão e acção.

É nesse lugar – simultaneamente crítico e constructivo, plural e exigente – que a Universidade encontra a sua medida. E é aí que, em cada momento, se decide não apenas a sua relevância, mas o futuro que, com ela, somos capazes de pensar e construir.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR