
As mulheres iranianas também não precisam de ser salvas pelo Ocidente, e o mundo como um todo não pode tolerar mais a hipocrisia daqueles que se apresentam como o farol moral da humanidade quando são responsáveis por alguns dos crimes mais abjectos alguma vez cometidos, no passado e também no presente.
Os EUA e Israel bombardearam o Irão mais uma vez, desencadeando uma guerra aberta no Médio Oriente. A resposta defensiva do Irão, atacando Israel, bem como bases militares e instituições americanas em vários países da região, surpreendeu Trump e os seus acólitos, segundo as suas próprias palavras.
As declarações feitas por Trump e Marco Rubio para justificar a ofensiva de 28 de Fevereiro, variaram ao longo dos dias. Começaram por reconhecer abertamente a intenção de provocar uma mudança de regime no Irão, mas o foco passou depois para o objectivo de destruir a “ameaça de mísseis balísticos” e os “activos navais” do país. É chocante a incapacidade para apresentar um argumento convincente, de forma a justificar um ataque a um país com o qual estavam sentados à mesa das negociações, e prestes a alcançar um acordo sobre o programa nuclear iraniano, muito superior ao assinado por Barack Obama em 2015. O que parece é que, na realidade, os EUA e o seu aliado quiseram evitar qualquer cenário de distensão com o Irão, e sim tentar a sua aniquilação como Estado-nação.
De facto, o “ataque preemptivo”, invocado na declaração inicial de Israel, assentava na mesma lógica doutrinária já utilizada pelos EUA no Afeganistão. Mas a falta de originalidade nesse paralelo não se fica por aqui. De novo, a ideia de que o Irão estava em vias de possuir armas nucleares ressurgiu, apesar da alegada erradicação do programa nuclear iraniano ter sido anunciada por Trump após os bombardeamentos americanos de Junho de 2025. Esta desculpa faz lembrar o argumento sobre as inexistentes armas de destruição maciça de Saddam Hussein, que, juntamente com o pretexto da “democratização”, foi utilizado para justificar a guerra ilegal dos EUA contra o Iraque, liderada por George W. Bush.
O suposto desejo de democratização, daquela época, também pesa muito sobre aqueles que utilizam violações dos direitos humanos, e especificamente dos direitos das mulheres, para apoiar, com uma flexível moralidade e óbvia hipocrisia, acções imperialistas que alegam salvar os povos do mundo através de bombas. A instrumentalização de uma eventual luta legítima das mulheres iranianas por uma maior autodeterminação, é especialmente obscena no seio da extrema-direita, que adere rigidamente ao discurso de um feminismo claramente bacoco. Uma extrema-direita que, de facto, só se preocupa com os direitos reais das mulheres nos diferentes países daquela região, se disso puder retirar dividendos políticos.
Se alguém ainda acredita que os EUA, ou a entidade genocida de Israel, têm algum interesse em defender as mulheres muçulmanas, promover regimes democráticos ou salvaguardar os direitos humanos, basta perguntar porque é que os EUA não bombardeiam a Arábia Saudita, e encontrará a resposta. Mas também se pode olhar para dentro das suas próprias fronteiras, e ver como os EUA respondem aos seus próprios cidadãos americanos que protestam contra o ICE, ou então a forma abjecta, criminosa e ignóbil como Israel trata os palestinianos.
As mulheres iranianas também não precisam de ser salvas pelo Ocidente, e o mundo como um todo não pode tolerar mais a hipocrisia daqueles que se apresentam como o farol moral da humanidade quando são responsáveis por alguns dos crimes mais abjectos alguma vez cometidos, no passado e também no presente.










