DIA-A-DIA NA CIDADE (6)

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JACQUES ARLINDOS SANTOS

Assinalo as tentativas deliberadas que se têm feito de se esquecer tudo o que ao longo dos anos prestigiou a Chá de Caxinde. Porém, isso é uma tarefa difícil de ser conseguida. Porque a História dificilmente se apaga no pensamento dos que têm boa memória!

José Saramago, Prémio Nobel de Literatura de 1998, era um autor difícil, de pensamento crítico. Era dos que obrigava a pensar. Não foi por acaso que os seus livros, designadamente “O memorial do convento” e “O ano da morte de Ricardo Reis”, se tornaram leitura obrigatória nas escolas portuguesas. Inesperadamente, e segundo notícias que correm, pode vir a ser retirada tal obrigatoriedade a essas obras de referência do Nobel português. Até aqui indispensáveis no 12.º ano, podem passar à categoria de leitura opcional. 

É um tema quente, de consequências imprevisíveis, graves para a formação das novas gerações de portugueses, ouve-se dizer por catedráticos, entendidos na matéria. O assunto parece ser sério, e até já se fala num “ensaio sobre a retirada” de Saramago. Nestas circunstâncias, iniciou um aceso debate na comunicação portuguesa sobre o assunto. 

Não tendo nada a ver com o assunto, apetece-me, contudo, dizer o quanto me satisfaria ver aberta em Angola uma discussão semelhante que visasse a melhor utilização da língua oficial e abordasse a questão do nosso cânone identitário. 

Mas, ainda sobre Saramago, constou-me que o famoso escritor chegou a Luanda em Novembro de 1998, depois de ter sido galardoado com o Prémio Nobel de Literatura. Recordo essa presença, mas que tenha passado despercebido em Luanda, com a imprensa a ignorá-lo, não me parece verdadeiro. Passo a explicar porquê: 

A menos que José Saramago tenha estado mais do que uma vez em Luanda, em 1998, o que acredito que não tenha acontecido, o Nobel português não passou despercebido, nem foi ignorado pela imprensa angolana. Pelo contrário, no decurso dessa sua breve estadia, preencheu um intenso programa cultural, que teve o seu apogeu numa recepção organizada pela Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde. O salão estava lotado por público diversificado e o escritor gostou e agradeceu. Visitou a Editora e Livraria que funcionava, como é do domínio público, nas instalações do Nacional Cine-Teatro. Ali, descerrou uma placa que assinalava esse momento simbólico. Desconheço se a dita placa se encontra onde foi colocada, se foi retirada como foram os outros pertences da Editora e Livraria. Mas, voltando à visita de José Saramago, no dia seguinte acompanhei-o à União dos Escritores Angolanos onde foi entrevistado por vários jornalistas. Lembro-me perfeitamente desse momento. Depois, com o embaixador de Portugal, dr. Duarte Ramalho Ortigão, com Pepetela, Prémio Camões de 1997 e com a dra. Gabriela Antunes, ainda passei parte do dia no Mussulo convivendo com José Saramago.

Não fujindo ao conceito do benefício da dúvida, e mesmo que ponha em causa a boa memória de que me orgulho possuir, admito, uma de duas hipóteses para desfazer eventual equívoco. Ou Saramago veio mais do que uma vez a Luanda em 1998, ou essa estadia de que se fala ocorreu numa outra data e num outro contexto.

Tenho respeito pelo passado e, por isso, recordo hoje e aqui, o nome da pessoa que possibilitou a vinda a Angola de José Saramago, nesse Novembro de 1998. Foi patrocinador desta visita o nosso inesquecível associado e amigo Carlos Machado Vaz, cuja memória recordo aqui saudosamente.

Mentiria se não dissesse que este esclarecimento é motivado também por uma evidência que venho testemunhando ao longo dos anos. Não terá sido este o propósito da notícia ou do apontamento que foi veiculado, estou convicto que não. Se algum lapso tiver cometido a respeito, apresento, desde já, as minhas sinceras desculpas. No entanto, isso não invalida que assinale as tentativas deliberadas que se têm feito de se esquecer tudo o que ao longo dos anos prestigiou a Chá de Caxinde. Porém, isso é uma tarefa difícil de ser conseguida. Porque a História dificilmente se apaga no pensamento dos que têm boa memória!

Com os desejos de um Feliz Domingo de Páscoa, despeço-me dos meus leitores, dos familiares, dos meus camaradas e companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Luanda, 5 de Abril de 2026 

P.S. – Registo aqui a morte inesperada de Adelino Galvão Branco. Mais um camarada e amigo que nos deixa. Que a sua alma descanse em paz! As minhas condolências para a família enlutada.

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