DIA-A-DIA NA CIDADE (3)

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

Já não me impressionam as filas em frente aos ATMs para sacar dinheiro. Ingenuamente pergunto-me se será a abundância ou a escassez de kumbu a promover as ditas cujas bichas. É vulgar esgotar-se o stock de kwanzas. Nas máquinas como nos bolsos do povo. 

Mais cedo do que se esperava, a guerra estoirou. Uma combinação de óleo negro e muitos interesses afins, produziram ódio mortal e agora, todos juntos e misturados, estão a falar bem alto. Mais alto do que o petróleo da Sonangol no tempo da “kigoza”! O cagaço, de repente, assaltou-nos. Apesar do tirocínio das guerras que endureceram a nossa alma, ficamos com o coração aos pulos. Não dá mais para negar. Os poderosos, incluindo os CR7s e outros que tais, perturbaram-se e acoitam-se. É, pois, hora de avaliar as nossas posições e capacidades! Estamos a ficar com a sensação de termos voltado à Idade Média. Percebemos melhor o mundo de trevas que nos cerca. Tem sido nesse clima ignorante, do tipo de chuva que cai, mas não molha, que faço contas. Na base de uns precários inventários e balanços. 

Nessa toada, vou passeando pelo Patriota e até já atravessei zonas do Camama. O Nova Vida continua lindo e firme, tem paisagens propícias. Naturalmente diferentes das do Ruy Duarte de Carvalho! Falta-me descobrir melhor o Hoji ya Henda e alguma da periferia vizinha. Também das profundezas de Viana. Com propósito ou não, lembro-me da Estalagem Moagem. Foi ali onde, sob bênçãos do Beto Carneiro e augúrios do Tito Fontes, aquele tipo incomparável, impossível de ser recriado, se lançou a Nani. Que talento, senhores! Que magnífica voz!

Esses sítios deram lugar a outros cenários. Com grupos e multidões em constante movimento. Assumo inocência e certeza de que, sobre a Luanda profunda, sei pouco ou quase nada. Será criticável? Acho normal que não se conheça bem o que se ama! Na verdade, o que sei cada vez mais, é que, sinto uma enorme vontade de viver até aos cem anos para ver como se comportarão estas comunidades no futuro. Gostaria de assistir ao que vai acontecer aos dez milhões de habitantes que abarrotam a nossa cidade. Seguramente, serão muitos mais, nessa altura. Por causa do crescimento imparável, ainda que se retirem os mortos que, entretanto, se abaterão à carga, por limite de idade e pressão do dia-a-dia. Os habitantes são uma realidade. Uma carga pesada, à qual não se pode fugir. Atenção, comandantes. Os nossos estão a fazer de Luanda, uma das cidades mais populosas de África.

E cá vou eu, descobrindo o burgo, todos os dias. Aproveitando bem o convívio que estabeleço com motoristas que conhecem como ninguém, a arte de encurtar distâncias entre bairros. São especialistas em cortar caminho nos subúrbios. Nas vísceras da cidade real onde as habitações de estilo arcaico se confundem, porta sim, porta não, com casas comerciais. Em cujas entradas se empinam manequins empoeirados a exibir moda, roupa de apresentar na rua e até da outra, da mais intimista. Cuecas, lingerie, soutiens e bikinis, a que é de fazer baixar os olhos aos atrevidos.  A cadeia Kibabo fez entrada no nicho suburbano do Kassenda. Descobri na balbúrdia do bairro um modelo de minimercado com a sua marca. Há sempre clientela e, por favor, não venham com a história de que a fome é relativa. Não é, não senhor! 

Tem sido aliciante a experiência. Eleva o espírito e os bons dos motoristas transportam-me para ensaios de incríveis sensações. Por vezes sinto-me na pele de um copiloto em plena prova de rally. 

Já não me impressionam as filas em frente aos ATMs para sacar dinheiro. Ingenuamente pergunto-me se será a abundância ou a escassez de kumbu a promover as ditas cujas bichas. É vulgar esgotar-se o stock de kwanzas. Nas máquinas como nos bolsos do povo. No meio de todas as dúvidas, estou a gostar deste regresso. Porque contacto com muitas pessoas, de todos os géneros e idades, e com elas, parafraseando os brasileiros, vou trocando umas ideias.

Reginaldo, Jacques dos Santos, Dionísio Rosa e João Melo

O Miramar mostrou-me um tranquilo, mas aliciante ambiente nocturno que desconhecia. Às quintas-feiras, por exemplo, mostra-se no BarBar, por graça do agrupamento “Caribe Son”, música cubana e as correlativas de expressão caribenha. Sons agradáveis e bons arranjos. Pena o escasso público no dia da minha visita. Um par português exibiu-se dançando com classe. Nota-se, no entanto, que não é essa a sua praia. Contudo, moveram-se a preceito, como bons habaneros ou santiagueros. Eta mundo cada vez mais de todos! Os preços é que não convidam, diga-se de passagem. A vida está difícil e o salário é como o do professor Raimundo da Escolinha

Já no domingo antepassado, ali junto ao antigo cinema, onde apitava o comboio da Custódia – quem se lembra? – e onde se instala o simpático “Prova de Arte” bem gerido pelo Xakimona, filho do Zeca Agostinho, meu amigo, conterra e contemporâneo. Como não recordar Calulo e as nossas raízes? O moço é cara chapada do pai! Penso no que fomos e somos, e lanço um desabafo para o ar, um desafio, se quiserem. Não nos iludamos. Não se deve desprezar a genuína cultura popular! 

Tudo aconteceu depois de ter participado no “À sombra da Mulemba” da Rádio Marginal. Um programa dirigido pelo jornalista Raimundo Salvador. A boa fala e a escrita de primeira mostram a sua competência! Confundiu-me, primeiro com o nome, que julguei pertença doutro cidadão. Até lhe imaginei fisionomia diferente, vejam só do que sou capaz! Ainda bem que me enganei. Ao lado do Reginaldo, velho amigo, matamos saudades do João Melo e do Belisário. Abraçamos a própria Custódia, a do Xisto, a Belita, a Boneca e a Edna, sempre belas. Depois, lembrei o Carnaval, uma das minhas paixões. Exibição convincente do União Recreativa do Kilamba, tetracampeão do Carnaval de Luanda, muito aplaudida, obrigou-me a mexer os pés. Os meus parabéns, rapaziada! Estão muito bem organizados! Fizeram-me reviver tempos inesquecíveis do Unidos do Caxinde! Homenagearam Dionísio Rocha que disse presente ao lado da inseparável dona Dé e do Massano, o das tumbas. Ainda deu para apreciar um interessante duo de meninas. A interpretação de “Dioguito” do Bangão é estupenda! No meio de todas as desgraças, um excelente fim de tarde de domingo.

Fico por aqui, pensando inevitavelmente nas notícias que emergem da guerra que nos faz pensar. Cumprimento os estimados leitores, os amigos e companheiros de luta. Aguardo por vós no próximo domingo, como habitualmente, à hora do matabicho.

Luanda, 15 de Março de 2026 

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