O CABEÇA DE LISTA COMO SÍMBOLO DA RECONQUISTA DA CONFIANÇA NACIONAL

ENSAIO REFLEXIVO DE JOAQUIM JAIME E WALTER FERREIRA
O MPLA enfrenta hoje a sua mais importante encruzilhada: ou se reinventa como força de transformação, à altura dos seus 70 anos de história, ou assistirá passivamente à erosão do capital político que tantas gerações construíram.
Há partidos que governam e partidos que constroem nação. O MPLA, fundado a 10 de Dezembro de 1956, sempre se orgulhou de pertencer à segunda categoria. Nascido da luta contra o colonialismo português, estruturou-se na promessa de libertar os oprimidos e construir uma sociedade justa, ancorada nos princípios do socialismo democrático. Esta matriz ideológica de centro-esquerda, que coloca a dignidade humana e a justiça social no centro da acção política, foi durante décadas a sua principal força mobilizadora.
No entanto, a realidade eleitoral desde 1992, conta uma história que deve merecer a nossa melhor atenção: após obter 53,74% dos votos em 1992 e atingir uns impressionantes 81,64% em 2008, esse partido tem registado uma tendência decrescente — 71,84% em 2012, 61,08% em 2017 e cerca de 51% em 2022. Os números revelam, eleição após eleição, um eleitorado que se afasta, que questiona, que parece já não reconhecer no partido que ajudou a construir a mesma chama de transformação social que o caracterizou na génese.
É neste contexto, que a Agenda Política para 2026, com os seus 11 eixos e 25 tarefas, se apresenta não apenas como um plano de acção, mas como um teste decisivo à sua capacidade de regeneração. E é no centro desta agenda que se coloca a questão mais imprescindível para o futuro imediato: a escolha do Cabeça de Lista para as Eleições Gerais de 2027.
A ideologia como bússola, não como museu
O II eixo da Agenda Política reafirma o socialismo democrático como linha fundamental de orientação ideológica do MPLA. Trata-se de uma decisão acertada, mas que exige mais do que retórica. Como ensinou Samuel Huntington na sua obra seminal A Ordem Política nas Sociedades em Mudança (1968), o factor crucial para uma sociedade bem-sucedida não é apenas a modernização, mas a capacidade das instituições políticas de estabelecer ordem e responder às demandas dos cidadãos. Huntington defendia que “o governo governa” quando existem “instituições políticas fortes, flexíveis e coerentes: burocracias eficientes, partidos políticos bem organizados”.
O socialismo democrático, enquanto matriz de centro-esquerda, não pode ser uma peça de museu que se contempla com nostalgia. Tem de ser uma ferramenta viva para interpretar os problemas concretos dos angolanos de hoje: o jovem que procura emprego, a mulher que luta pela sobrevivência da família, o antigo combatente que espera reconhecimento, o cidadão comum que anseia por serviços públicos de qualidade, a classe média e média alta que anseia por realização patrimonial e um sistema tributário mais justo, o empresário que aguarda por políticas mais favoráveis ao ambiente de negócios. Reafirmar esta linha ideológica significa, acima de tudo, reafirmar um método de governação que coloca as pessoas no centro e que utiliza o Estado como instrumento de correção das desigualdades.
A formação política como vacina contra o esvaziamento ideológico
O VI eixo da Agenda assume um compromisso particularmente relevante: “intensificar a formação político-ideológica dos militantes e quadros do Partido com vista ao aumento dos níveis de conhecimentos da Política do Partido, à proporção dos desafios que o MPLA pretende alcançar, prosseguindo com o trabalho de avaliação de desempenho”.Esta medida, não deve ser encarada como um simples detalhe burocrático. Toca no cerne da crise de representação que esse partido enfrenta.
Quando um militante desconhece a história do seu partido, quando um quadro confunde socialismo com assistencialismo, quando a acção política se reduz à ocupação de espaços em vez da transformação da realidade, o partido esvazia-se por dentro. A formação político-ideológica não é um exercício académico – é a garantia de que cada militante se torna um embaixador capaz de explicar, convencer e mobilizar em torno do projecto do partido. É a vacina contra a autofagia e contra a perda de identidade.
É precisamente aqui que se pode instalar aquilo que a cientista política Sheri Berman, da Universidade Columbia, identifica como uma “lacuna de representação” – uma discrepância entre as preferências dos eleitores e o perfil das políticas e reivindicações políticas dos partidos tradicionais. Citando Huntington, Berman recorda que “quando os cidadãos veem as instituições políticas como relutantes ou incapazes de lhes dar resposta, o resultado provável é a insatisfação e, junto com ela, a desordem e a decadência política”.
O perigo da perda de noção estratégica do poder
A perda progressiva de apoio popular desde 2012 não é um acidente de percurso – é o sintoma de algo mais profundo. Para um partido governante, a perda da noção estratégica do poder manifesta-se de várias formas, e é importante identificá-las com clareza.
O primeiro sintoma é o imediatismo. Quando as decisões deixam de ser tomadas com base num projecto de país e passam a ser ditadas pelas pressões do momento, o partido transforma-se de condutor em refém. Governa-se para apagar incêndios, não para construir catedrais.
O segundo é a autofagia. Sem um norte estratégico claro, a energia do partido volta-se para dentro. As facções deixam de disputar ideias e passam a disputar espólios. Um partido que devora os seus próprios talentos não precisa de oposição externa – suicida-se lentamente.
O terceiro, talvez o mais perigoso, é a arrogância. O tempo prolongado no poder pode gerar a “síndrome da invencibilidade”. O partido deixa de ouvir a sociedade, ignora os sinais de descontentamento, confunde adulação com apoio popular.
O contributo de Hirschman: sair ou protestar
Para compreender as consequências desta desconexão, é útil recuperar as categorias popularizadas por Albert Hirschman. Como nos recorda Berman, “quando emerge uma lacuna de representação e os eleitores estão insatisfeitos com as alternativas políticas que lhes são oferecidas, possuem duas opções: abandonar a cena ou se fazer escutar”. Nas últimas eleições, temos assistido a ambos os fenômenos: eleitores que se abstêm progressivamente, desertando da participação política, e eleitores que canalizam o seu descontentamento para forças da oposição.
O escritor francês Édouard Louis descreveu de forma comovente este processo ao relatar a trajectória do seu pai operário: “O que as eleições chegaram a significar para meu pai foi a oportunidade de lutar contra sua sensação de invisibilidade (…) Meu pai havia se sentido abandonado pela esquerda política”. No vazio deixado pelos partidos tradicionais, encontram terreno as explicações simplistas e os discursos de desencanto.
A escolha do Cabeça de Lista: um perfil para a reconquista
É neste quadro que a escolha do Cabeça de Lista para as Eleições Gerais de 2027 assume uma importância absolutamente fundamental. E aqui importa afirmar com clareza: o conhecimento profundo da linha política e ideológica do MPLA deve constituir condição indispensável e inegociável para a escolha do candidato.
Não se trata de um requisito burocrático ou de uma formalidade estatutária. Trata-se de uma exigência de sobrevivência política. O Cabeça de Lista será o rosto do partido perante a nação, o principal intérprete do projecto de sociedade que o MPLA propõe, o guardião da memória histórica e o construtor das pontes com o futuro. Se esse candidato não dominar profundamente os fundamentos ideológicos do partido – o que significa o socialismo democrático, qual a sua matriz centro-esquerdista, quais os valores que o distinguem, qual a história que o legitima –, como poderá convencer os angolanos de que o MPLA continua a ser o instrumento mais eficaz para realizar os seus sonhos?
Mas o conhecimento profundo da linha política e ideológica, sendo condição necessária, não é, por si só, suficiente. O contexto angolano contemporâneo – marcado por elevadas expectativas populares, por uma economia em transformação e por um eleitorado cada vez mais exigente – impõe ao futuro Cabeça de Lista um conjunto adicional de qualidades e competências que é imperativo explicitar.
Visão para o aprofundamento da reforma económica
O candidato deverá possuir uma visão clara e exequível para aprofundar a reforma económica, colocando a diversificação da economia e o impulso à produção nacional, no centro da estratégia de desenvolvimento. Angola não pode continuar refém da volatilidade dos preços do petróleo. O Cabeça de Lista terá de ser o principal defensor de um novo modelo económico que valorize o que o país produz, que crie cadeias de valor internas e que transforme a nossa riqueza potencial em benefícios concretos para as populações. Isto exige não apenas conhecimento técnico, mas a capacidade política de liderar as mudanças estruturais necessárias, enfrentando interesses instalados e promovendo um ambiente de negócios que estimule o empreendedorismo nacional, o investimento produtivo e continue a diplomacia económica visando atrair investimento estrangeiro directo.
Compromisso inabalável com a justiça social
A matriz socialista democrática do MPLA exige que o Cabeça de Lista coloque a justiça social no centro da sua acção. Isto traduz-se, no imediato, num compromisso firme com a melhoria dos serviços públicos essenciais: uma educação de qualidade que prepare as novas gerações para os desafios do futuro e um sistema de saúde acessível, humanizado e eficiente, que cuide de todos os angolanos, particularmente dos mais vulneráveis.
A melhoria do salário mínimo, como instrumento de dignificação do trabalho e de estímulo à procura interna, e a continuação de uma estratégia robusta para a criação de emprego, particularmente entre os jovens, são igualmente inegociáveis. O objectivo final é claro: a redução sustentada da pobreza, não através de medidas assistenciais de curto-prazo, mas através da criação de oportunidades e da capacitação das pessoas para construírem o seu próprio futuro.
Qualidades pessoais e de liderança
Para além das políticas, o perfil do Cabeça de Lista deve pautar-se por qualidades pessoais que inspirem confiança e credibilidade. Num tempo de desencanto com a política, a transparência na gestão da coisa pública, a integridade pessoal inquestionável e um foco obsessivo no serviço à nação – e não em interesses particulares ou de grupo – são qualidades cruciais.
O candidato deverá demonstrar uma genuína capacidade de diálogo, sendo um construtor de pontes com os diferentes sectores da sociedade: a oposição política, a sociedade civil, as igrejas, o sector privado, os movimentos sociais. O fortalecimento democrático passa pela capacidade de ouvir e de incorporar diferentes perspectivas na construção de consensos maioritários.
Igualmente fundamental, é o compromisso explícito com a independência do sistema judicial e com o fortalecimento das instituições parlamentares. Um poder judicial autónomo é a garantia dos direitos dos cidadãos e da própria credibilidade do Estado. Um parlamento forte, vibrante e representativo é a casa da democracia. O Cabeça de Lista deve ser o primeiro garante destes princípios.
Por fim, mas não menos importante, é indispensável que o candidato tenha uma visão estratégica para o combate estrutural à pobreza. Não se trata apenas de mitigar os seus efeitos, mas de atacar as suas causas profundas, através de políticas integradas que combinem crescimento económico, inclusão social, desenvolvimento territorial e capacitação das comunidades. A pobreza não é um dado natural – é uma construção social que a acção política determinada pode e deve desconstruir.
Modernização do Estado e resposta às necessidades básicas
O contexto angolano, marcado por décadas de desafios e de transformações, clama por uma liderança que combine, de forma equilibrada, a resposta às necessidades mais básicas da população com a visão de longo-prazo para a modernização do Estado. O cidadão comum quer um Estado que funcione: que lhe forneça água e luz, que tenha escolas e hospitais com professores e médicos, que garanta segurança e justiça. Mas quer também um Estado moderno, eficiente, desburocratizado, que utilize a tecnologia para simplificar a vida das pessoas e das empresas, e que seja um facilitador do desenvolvimento, e não um obstáculo.
O Cabeça de Lista para 2027 terá de ser o rosto desta dupla ambição: a mão estendida que acolhe e resolve os problemas imediatos, e a visão estratégica que constrói o futuro.
O contributo académico: a ideologia como factor de coesão
A investigação académica recente tem sublinhado a importância da ideologia na articulação política em Angola. Justin Pearce, da Universidade de Stellenbosch, observa que “o estudo das ideologias na política africana tem sido negligenciado”, mas que “a forma como os líderes políticos reivindicam agir no interesse de determinadas regiões” e “a articulação de discursos políticos dirigidos a diversos sectores da sociedade” são fundamentais para compreender a dinâmica política contemporânea .
No caso do MPLA, a sua longa história – da luta anticolonial à construção do Estado, passando pela transição do marxismo-leninismo para o socialismo democrático em 1990/1991 – constitui um capital político inestimável. Mas esse capital só será eficazmente mobilizado se o Cabeça de Lista o conhecer, o compreender e o souber comunicar, integrando-o numa visão moderna de desenvolvimento e justiça social.
A Agenda 2026: intenção vs execução
A Agenda Política do MPLA para 2026 define duas grandes prioridades: o fortalecimento da vida interna dess partido e a preparação para as Eleições Gerais de 2027. A Vice-Presidente do MPLA, Mara Quiosa, sublinhou que o documento traduz “a visão, o compromisso e as prioridades para que o MPLA continue a liderar o processo de transformações políticas, económicas e sociais em curso no País”.
Entre os 11 eixos estratégicos, destacam-se o reforço da unidade interna, a disciplina partidária, a realização bem-sucedida do 9.º Congresso Ordinário, a defesa da imagem do partido e do seu líder, e o apoio ao Executivo para a implementação da sua acção governativa. A Agenda prevê, igualmente, o uso das tecnologias de informação e das redes sociais como instrumentos para a mobilização e aproximação aos segmentos mais jovens.
Tudo isto é positivo. Mas a questão que se coloca é: será suficiente para inverter a tendência de perda de apoio popular? A resposta depende da capacidade de transformar intenções em práticas concretas – e a escolha do Cabeça de Lista, com o perfil aqui traçado, será o teste mais visível dessa capacidade.
O desafio da reconquista
A reconquista da confiança popular não se fará apenas com formação político-ideológica ou com a reafirmação do socialismo democrático nos documentos oficiais. Far-se-á com a demonstração prática de que o partido continua a ser o instrumento mais eficaz para resolver os problemas do povo angolano. E isso começa com a escolha de um líder que encarne, de forma autêntica e profunda, os valores e a história do MPLA, mas que, simultaneamente, apresente um projecto credível para responder aos anseios concretos da população: emprego, melhores salários, saúde, educação, justiça e participação democrática.
O MPLA tem, na sua história, um capital político que poucos partidos no mundo possuem: o capital de quem lutou pela libertação nacional, de quem construiu o Estado angolano, de quem guiou o país através de décadas de transformação. Mas o capital do passado não paga as contas do presente. Como observou o analista político Germán Gorraiz López, vivemos hoje uma “perda de credibilidade democrática de incontáveis governos”, alimentada pela “cultura da corrupção” e pelo “défice democrático” que mina a confiança dos cidadãos nas instituições.
O nosso apelo: o futuro não espera
A Agenda Política de 2026 pode ser o ponto de viragem que o MPLA necessita – ou pode ser mais um documento que se acumula a outros, sem consequências práticas. Tudo dependerá da capacidade de executar as 25 tarefas com o rigor e a determinação que a situação exige, e tudo dependerá, de forma muito especial, da escolha do Cabeça de Lista para 2027.
O VI eixo, ao apostar na formação político-ideológica, ataca a raiz do problema: militantes e quadros que conheçam profundamente a identidade do partido e sejam capazes de a projectar na sociedade. O II eixo, ao reafirmar o socialismo democrático, ancora o partido na sua matriz histórica de centro-esquerda, impedindo derivas que o descaracterizariam.
Mas é preciso mais. É preciso que o militante do MPLA esteja na comunidade, ouvindo, resolvendo, explicando. É preciso que o socialismo democrático se traduza em políticas concretas de inclusão, de combate à pobreza, de criação de oportunidades. É preciso que esse partido recupere a capacidade de sonhar o futuro, em vez de se limitar a gerir o presente.
E, acima de tudo, é preciso que o Cabeça de Lista para 2027 seja alguém que conheça profundamente a linha política e ideológica do MPLA – porque só assim poderá ser o rosto credível de um projecto de futuro que honra o passado e responde aos anseios do presente. Alguém com visão económica para diversificar e produzir, com compromisso social para educar, cuidar e dignificar, com integridade para governar de forma transparente, e com capacidade democrática para fortalecer as instituições e dialogar com toda a sociedade.
A História será implacável com aqueles que, tendo tudo para construir legado, se contentaram em apenas ocupar espaço. O MPLA enfrenta hoje a sua mais importante encruzilhada: ou se reinventa como força de transformação, à altura dos seus 70 anos de história, ou assistirá passivamente à erosão do capital político que tantas gerações construíram.O futuro não espera. E o povo angolano, esse, continuará a observar, a avaliar e, no momento devido, a decidir.











