16 DE JUNHO: AS CRIANÇAS AFRICANAS E O MINISTÉRIO DOS SONHOS ADIADOS

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

A maior riqueza de África não está escondida no subsolo, nem navega em petroleiros rumo a mercados distantes. A maior riqueza de África corre descalça pelos musseques, pelas aldeias, pelos bairros e pelas cidades do continente. Chama-se infância. Chama-se futuro. Chama-se esperança.

Hoje, 16 de Junho, comemoro mais uma risonha primavera. Não tive intenção alguma de rabiscar uma crónica. Pois, tenho o hábito de fazê-lo no sábado. Mas, ao receber os votos de feliz aniversário, algo saltou-me a vista, ou seja, a frase contida no voto da minha neta de nove anos de idade. Ela escreve o seguinte: “Feliz aniversário vovô. O meu sonho é ser como você. Parabéns”. Lá, puxei os meus botões, e daí tirei as cartolas, para escrever essas pobres linhas.  

Coincidência ou não, hoje, 16 de Junho é também o Dia da Criança Africana. É um dia que deveria ser dedicado aos risos, aos brinquedos, aos livros, aos parques e aos sonhos. Mas em muitas partes de África, incluindo na nossa querida Angola, a criança continua a ser a principal accionista da pobreza e a maior contribuinte para a esperança nacional.

A criança africana nasce cedo para a vida. Tão cedo que, em certos bairros de Luanda, Uíge, Huambo ou Moxico, aprende primeiro o preço do pão do que o alfabeto. Há meninos que conhecem todas as rotas dos candongueiros antes mesmo de saberem localizar Angola no mapa.

Enquanto isso, os adultos continuam ocupados em conferências, seminários e fóruns onde se debate apaixonadamente o futuro da juventude. O curioso é que a juventude, quando finalmente chega, descobre que o futuro já foi adiado para a próxima legislatura.

Em Luanda, o pequeno Yanick acorda às cinco da manhã para ajudar a mãe a procurar água. Em Cabinda, a pequena Ndumbi-Tuti vê navios carregados de riquezas passarem ao largo, enquanto a sua escola continua a pedir carteiras emprestadas ao século passado. No Cunene, o pequeno Cipuleni aprende que a seca é mais pontual que muitos serviços públicos. Em Mbanza Kongo, o jovem Kiala escuta histórias gloriosas dos antigos reinos africanos e pergunta inocentemente: “Se os nossos antepassados eram tão grandes, porque a minha escola tem um buraco no telhado”?

A pergunta permanece sem resposta porque a comissão encarregada de responder ainda está a elaborar o relatório preliminar para a constituição da subcomissão de avaliação da resposta.

A criança africana é um fenómeno extraordinário. Consegue jogar futebol com uma bola feita de sacos plásticos, construir brinquedos com latas vazias e transformar um terreno baldio num estádio olímpico. Se a criatividade fosse petróleo, Angola já teria ultrapassado todas as reservas conhecidas do planeta.

Mas há algo ainda mais admirável: a capacidade de sonhar. O pequeno Mateus quer ser médico. A pequena Josefina quer ser engenheira. O kandengue do Sambizanga quer ser piloto. O de Cazenga quer ser cientista. O do Bailundo quer ser professor. E o de Viana quer apenas chegar à escola sem ter de atravessar uma maratona de obstáculos digna dos Jogos Olímpicos.

Entretanto, alguns dirigentes aparecem nas televisões anunciando que as crianças são “o futuro da nação”. A frase é repetida há tantas décadas, que certas crianças começam a desconfiar que o futuro é um lugar muito distante, talvez situado algures entre Marte e Júpiter.

A verdade é que a criança africana não precisa de discursos quilométricos. Precisa de escolas que não desabem quando chove. Precisa de hospitais onde a consulta não seja uma aventura épica. Precisa de bibliotecas com mais livros do que teias de aranha. Precisa de professores motivados e de governantes que olhem para a infância como investimento e não como estatística.

África gosta muito de falar dos seus recursos naturais. Diamantes, petróleo, ouro, cobalto, gás, cobre e terras raras. Porém, o maior recurso africano continua a ser aquele que corre descalço pelas ruas, brinca nos musseques, estuda debaixo das árvores e insiste em sonhar apesar de tudo.

Neste Dia da Criança Africana, talvez devêssemos inverter as coisas. Em vez de os adultos fazerem promessas às crianças, seriam as crianças a avaliar os adultos. Imaginem a cena.

O pequeno Paizinho Ngola Fuxi, de oito anos, presidente da Comissão Infantil de Fiscalização dos Sonhos, abre a sessão: 

  • Senhores adultos, quantas promessas cumpriram este ano?

Silêncio.

  • Quantas escolas construíram?

Tosse nervosa.

  • Quantos livros distribuíram?

Olhares para o tecto.

  • Quantas crianças tiraram da pobreza?

Pedido urgente de intervalo para o café.

Talvez por isso nunca tenham criado esse ministério. Porque os putos fazem perguntas simples, e as perguntas simples costumam ser as mais difíceis de responder.

Neste 16 de Junho, celebremos as crianças africanas. Não apenas pela sua inocência, mas pela sua resistência. Não apenas pelos seus sorrisos, mas pela sua coragem. Não apenas pelo que são hoje, mas pelo que podem vir a ser.

E se os adultos continuarem a falhar, talvez seja hora de pedir ajuda aos velhos Reis do Kongo, da Matamba, do Ndongo e do Cuanhama. Quem sabe, entre as ruínas da nossa história gloriosa, ainda encontremos o mapa perdido que conduz ao único tesouro verdadeiramente inesgotável de África: as suas crianças. Porque petróleo acaba. Diamantes esgotam-se. Governos passam. Mas uma criança que recebe educação, dignidade e oportunidade pode iluminar um continente inteiro. 

E chegamos ao fim desta reflexão com um sentimento misto de desilusão e esperança. Desilusão porque, sessenta e tantos anos depois das independências africanas, milhões de crianças continuam à espera de uma escola digna, de um hospital funcional, de uma refeição completa e de oportunidades que lhes permitam sonhar sem limitações. Desilusão porque muitos dos discursos sobre o futuro das nossas crianças continuam a ser mais abundantes do que as soluções concretas para os seus problemas.

Mas também esperança. Uma esperança teimosa, quase africana por natureza. Porque apesar das dificuldades, das desigualdades e das promessas adiadas, a criança africana continua a sorrir. Continua a aprender. Continua a inventar brinquedos onde os outros veem lixo, a construir amizades onde os outros erguem muros e a alimentar sonhos onde os adultos já perderam a fé.

A maior riqueza de África não está escondida no subsolo, nem navega em petroleiros rumo a mercados distantes. A maior riqueza de África corre descalça pelos musseques, pelas aldeias, pelos bairros e pelas cidades do continente. Chama-se infância. Chama-se futuro. Chama-se esperança.

Neste 16 de Junho, Dia da Criança Africana, curvo-me perante a extraordinária resiliência dos nossos kandengues, verdadeiros heróis anónimos que resistem, crescem e sonham contra todas as probabilidades. Que nunca lhes faltem motivos para acreditar, aprender e vencer.

E porque este dia coincide também com a celebração do meu aniversário, permito-me partilhar um desejo muito simples: que as próximas gerações de crianças africanas tenham mais oportunidades do que tiveram os seus pais e avós; que herdem menos problemas e mais soluções; menos promessas e mais realizações.

A todas as crianças africanas, os meus mais sinceros votos de felicidade, saúde, paz, educação e prosperidade. Que os vossos sonhos sejam maiores do que os nossos erros e que o vosso futuro seja mais luminoso do que o nosso presente.

Feliz Dia da Criança Africana!

E, para mim, que hoje celebro mais um ano de vida, fica a gratidão por continuar a acreditar que África será tão grande quanto forem grandes os sonhos das suas crianças. 

*Menga-Ma-Kimfumu

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR