
Às vezes bate uma saudade estranha. Não da pobreza. Não das dificuldades. Não das filas. Bate saudade daquele espírito de luta que transformava um prato de feijão numa festa e uma promessa num projecto de vida.
“Éramos apelidados de monangambés, mas muito felizes”… dizia o avó Diniz Ndualu Kinanga.
Antes de começar esta conversa, convém explicar aos putos o que era um monangambé. Não, não era um influencer do TikTok. Também não era consultor estratégico de grupos de WhatsApp. Monangambé era o nome dado àqueles homens e mulheres que abandonavam as suas aldeias, sanzalas e quimbos para procurar melhores condições de vida nas grandes cidades. Muitos viajavam em camiões de caixa aberta, sentados sobre sacos, malas de madeira, cabritos, galinhas e sonhos. Outros vinham literalmente pendurados nas carroçarias, enfrentando poeira, chuva, frio e estradas que pareciam ter sido bombardeadas no decorrer de uma guerra entre elefantes e tractores.
A viagem podia começar em Kalandula, Negage, Mungo, Cangumbe ou Cassongue e terminar no Sambizanga,Marçal, Rangel, Cazenga ou no Bairro Operário. Quando os camiões chegavam, era fácil identificar os monangambés. Vinham cobertos de poeira vermelha até às sobrancelhas, mas traziam nos olhos uma riqueza que hoje vale mais do que petróleo: esperança.
Angola não era nenhum El Dorado. Não havia centros comerciais em cada esquina nem viaturas de luxo a desfilar pelas avenidas. Mas havia confiança no futuro. O povo acreditava que, trabalhando, os filhos estudariam, as famílias cresceriam e o país avançaria.
Hoje, olhando para trás, percebe-se que aqueles monangambés transportavam muito mais do que malas nas carroçarias dos camiões. Transportavam sonhos. Devo confessar que, vendo certos camaradas a chorar porque o Wi-Fi caiu durante cinco minutos, lembro-me logo dos tempos em que éramos apelidados de monangambés e, mesmo assim, éramos felizes que nem miúdos a comer jinguba no recreio. Naquele tempo, Angola não era nenhum Dubai do Mussulo, nem nenhuma Suíça do Panguila. O petróleo ainda não tinha transformado alguns cidadãos em especialistas internacionais de inaugurações e fotografias. O povo vivia apertado, mas vivia com esperança.
No bairro do Sambizanga, no Marçal, no Rangel, no Palanca ou no Cazenga, bastava uma panela de funge bem acompanhada e uma garrafa de quissangua, para reunir meia rua em festa. Ninguém tinha Hilux. O máximo que alguém possuía era uma bicicleta “Ralei Já” que fazia mais barulho do que avanço.
O monangambé daquela época saía para a lavra, para a obra ou para o porto. Voltava cansado, mas com a cabeça cheia de sonhos. Sonhava com uma Angola grande, moderna e próspera.
Hoje os sonhos mudaram. O monangambé moderno chama-se Mestre Kilapi da Silva, residente no município de “Logo-Pago”, província da Fantasia. Vive de empréstimos, créditos, adiantamentos e promessas. O seu lema é: Pagar é importante, mas também não vamos exagerar!
Temos também o famoso Doutor Wi-Fi Cambuta, cidadão altamente qualificado em comentar política, futebol, economia, relações internacionais e criação de galinhas no Facebook. Nunca administrou sequer uma barraca de venda de tomate, mas já tem solução para os problemas da ONU.
Outro exemplar raro é o Engenheiro Gasosa Júnior, residente no bairro do “Jeitinho”. Este cidadão não procura emprego. Procura “cunha”. Não envia currículo. Envia padrinho. Trabalho? Tenho capacidade. Experiência? Tenho tio. E isso basta.
No Reino da Mutamba existe ainda o famoso Comandante Selfie Kaputo, conhecido por aparecer em todas as inaugurações. Não importa se é uma escola, uma ponte, uma vala de drenagem ou uma casa de banho pública. Ele está sempre na fotografia. Há também os habitantes da República Autónoma do Kixikila City, onde dez pessoas contribuem para um fundo rotativo e quinze já estão à espera de receber. Os mais perigosos, porém, são os moradores da Ilha Democrática do “Aguenta Só Mais Um Pouco”. Desde os anos 80 que lhes prometem prosperidade. Primeiro era para o ano seguinte. Depois para o próximo plano. Depois para a próxima legislatura. Depois para o próximo congresso. Agora já ninguém sabe se a prosperidade vem de avião, comboio ou boleia. Mas uma coisa é certa: continua atrasada. Apesar de tudo, havia algo que os velhos monangambés possuíam e que hoje vale mais do que barris de petróleo: confiança no futuro.
O velho Kota Zeca Monangamba, do Cazenga Antigo, não tinha conta bancária. Mas acreditava que os filhos estudariam. Mamã Kudia, da Maianga Profunda, não tinha carro. Mas acreditava que a vida melhoraria. Hoje encontramos cidadãos com dois smartphones, três contas de Facebook e quatro grupos de WhatsApp, mas sem esperança suficiente para atravessar uma segunda-feira. Por isso, às vezes bate uma saudade estranha. Não da pobreza. Não das dificuldades. Não das filas. Bate saudade daquele espírito de luta que transformava um prato de feijão numa festa e uma promessa num projecto de vida.
Éramos monangambés, sim. Mas éramos felizes. Hoje alguns trocaram a enxada pelo telemóvel, o suor pelo filtro do Instagram e a esperança pela reclamação permanente. Contudo, Angola continua viva. Entre um kilapi e outro, entre uma promessa e outra, entre um discurso e outro, o povo continua a rir.
E enquanto o angolano continuar a fazer piada da própria desgraça, haverá esperança. Porque o verdadeiro monangambé angolano tem uma qualidade que nenhum governo, partido, crise económica ou comissão de inquérito conseguiu destruir: a capacidade de rir enquanto espera pelo amanhã.
Fomos monangambés. Alguns continuam monangambés, apenas com internet e conta no Facebook. Mas enquanto existir esperança, Angola continuará a caminhar. Porque o verdadeiro monangambé nunca foi aquele que carregava sacos às costas. Foi sempre aquele que carregava sonhos no coração. E esses, felizmente, ainda não encontraram quem os consiga taxar, privatizar ou importar da China. Saudades de um tempo simples. Esperança num futuro melhor.
Entre a memória e o sonho, continua a viver Angola. E, no meio disto tudo, paira no ar a célebre pergunta: Quem paga a última rodada? Eu? Nem morto! Pois, prefiro banzelar que ainda sou Monangambé. Todavia, vou torar a birra Esperança na minha garganta.
Bom final de semana. Kandando.
*Menga-ma-kimfumu










